O Patriarca Emérito de Lisboa, Cardeal D. Manuel Clemente, destacou o legado do Padre Manuel Luís para a música litúrgica em Portugal e a sua capacidade de unir tradição e renovação. Monsenhor António Cartageno e o Padre Teodoro Sousa evocaram a figura do Padre Manuel Luís não só pela profundidade espiritual das suas composições, como pela exigência artística e litúrgica que marcou a sua obra.
O Serviço Diocesano de Música Litúrgica do Patriarcado de Lisboa promoveu, no passado sábado, dia 9 de maio, o ‘Simpósio Padre Manuel Luís’, iniciativa que decorreu no auditório da Paróquia da Portela e na Sé Patriarcal de Lisboa, para assinalar o centenário do nascimento daquele que é considerado um dos grandes impulsionadores da música litúrgica em Portugal após o Concílio Vaticano II. A conferência principal esteve a cargo do Patriarca Emérito de Lisboa, Cardeal D. Manuel Clemente, que apresentou uma reflexão intitulada ‘Padre Manuel Luís, um legado a agradecer e cumprir’, evocando a figura, a obra e a influência do sacerdote nascido há 100 anos em Turquel na renovação litúrgica em Portugal. No início da intervenção, D. Manuel Clemente recordou o contacto pessoal e eclesial com o Padre Manuel Luís, manifestando gratidão pelo seu testemunho e obra. “Aprendi a admirá-lo nos meus anos de seminarista e primeiros de padre, vendo-o algumas vezes e ouvindo as suas composições”, afirmou, acrescentando: “O gosto foi muito e a gratidão permanece”. O Patriarca Emérito sublinhou a importância do sacerdote na receção da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II em Portugal, destacando a sua capacidade de unir tradição e renovação: “A sua contribuição para o canto litúrgico em Portugal na receção do Concílio foi notabilíssima e marcante.” Ao longo da conferência, D. Manuel Clemente contextualizou o percurso do Padre Manuel Luís dentro do movimento litúrgico português, ligando-o diretamente à influência de Monsenhor Pereira dos Reis, figura central da renovação litúrgica no Seminário dos Olivais. O legado de Monsenhor Pereira dos Reis Segundo D. Manuel Clemente, o Padre Manuel Luís herdou de Monsenhor Pereira dos Reis duas convicções fundamentais: “a redescoberta da assembleia como indispensável sujeito celebrativo” e “a celebração como expressão e vivência do mistério cristão na palavra, no rito e no canto”. O Cardeal explicou que esta visão procurava superar uma lógica em que os fiéis apenas “assistiam” à liturgia, sem verdadeira participação comunitária. Recordando a realidade anterior à reforma conciliar, descreveu celebrações em que o povo permanecia distante do centro da ação litúrgica: “Assistia com devoção, mas era sobretudo disso mesmo que se tratava: assistir”. A partir desta leitura histórica, D. Manuel Clemente mostrou como o Padre Manuel Luís assumiu plenamente o espírito do Concílio Vaticano II, defendendo uma música litúrgica verdadeiramente ao serviço da assembleia celebrante. Música litúrgica ao serviço da fé e da assembleia Citando vários textos e intervenções do homenageado, o Patriarca Emérito destacou a coerência do pensamento litúrgico e pastoral do Padre Manuel Luís. “Para o autor, a música serve a Liturgia, se serve a Assembleia que a celebra”, referiu, citando o estudo do Padre Rui Sousa Silva sobre a sua obra. D. Manuel Clemente recordou ainda a preocupação do sacerdote em evitar a introdução de elementos musicais que descaracterizassem o sentido do culto cristão, sem deixar de reconhecer a necessidade de atender às culturas e sensibilidades concretas das comunidades. Nesse contexto, destacou um texto de 1977 em que o Padre Manuel Luís afirmava: “É inadmissível a transposição para a Liturgia de cânticos ou meios expressivos que nasceram e têm sentido na vida profana, sem conteúdo de fé nem capacidade para assumir a linguagem litúrgica”. Ao mesmo tempo, o sacerdote reconhecia a importância de um discernimento pastoral atento às circunstâncias concretas das assembleias: “Também não podemos ignorar uma mudança de mentalidade, evidente, por exemplo, quanto ao significado do ritmo e de certas formas de expressão musical, e a pobreza de meios de muitas comunidades que, não tendo acesso ao ideal, recorrem ao possível”. Para D. Manuel Clemente, este equilíbrio continua atual, conjugando “um canto que não importe o que não condiz com a verdade do culto”, “a atenção aos novos ritmos e expressões musicais” e “a ponderação do ideal e do possível”. A centralidade da Palavra de Deus na música litúrgica Outro dos aspetos destacados pelo Patriarca Emérito foi a insistência do Padre Manuel Luís na ligação entre música litúrgica, Sagrada Escritura e textos da Liturgia. Citando um texto publicado no ‘Boletim de Música Litúrgica’, em janeiro de 1979, recordou: “Os textos para ser cantados devem ter como fonte a Bíblia e os textos litúrgicos”. O sacerdote explicava ainda que essa inspiração bíblica e litúrgica permitia uma espiritualidade “objetiva, plena do homem, colocando-o frente a Deus com todos os seus problemas”. D. Manuel Clemente considerou esta visão particularmente relevante, afirmando: “A verdadeira razão de celebrarmos e cantarmos como assembleia cristã só pode estar no facto, objetivo, de vermos na revelação bíblica a manifestação também do que humanamente somos e divinamente podemos vir a ser. O que daqui divergir pode entreter mas não salva”. “Um legado a cumprir” Na parte final da conferência, o Cardeal evocou uma das últimas intervenções públicas do Padre Manuel Luís, dirigida aos seminaristas de Angra do Heroísmo, poucos dias antes da sua morte, em 1981. “O uso das línguas vernáculas e os novos ritos trouxeram a exigência de novas formas musicais, de novas expressões estéticas”, afirmava então o sacerdote, acrescentando que os sinais sonoros na Liturgia “não valem mais por serem novos ou velhos, mas na medida em que se integram numa dinâmica que conduz a assembleia concreta a uma celebração plena, ativa e comunitária”. D. Manuel Clemente concluiu precisamente com esta expressão – “uma celebração plena, ativa e comunitária” – considerando-a um verdadeiro programa pastoral e litúrgico deixado pelo Padre Manuel Luís à Igreja em Portugal. “Assim dito pouco antes de falecer, ficou-nos quase como um legado a cumprir. É a melhor homenagem que podemos prestar ao Padre Manuel Luís”, concluiu o Patriarca Emérito de Lisboa. Compor para a Liturgia: “Dar voz ao povo de Deus” O simpósio integrou ainda duas preleções dedicadas ao tema ‘A arte de compor para a Liturgia’, proferidas por Monsenhor António Cartageno e pelo Padre Teodoro Sousa, ambos compositores e especialistas em música sacra, que refletiram sobre a composição litúrgica a partir da sua experiência pessoal e pastoral. Nas duas intervenções, a figura do Padre Manuel Luís foi evocada repetidamente como referência maior da música litúrgica em Portugal, quer pela profundidade espiritual das suas composições, quer pela exigência artística e litúrgica que marcou a sua obra. Monsenhor António Cartageno, sacerdote e compositor da Diocese de Beja, começou por definir a composição litúrgica como uma missão ao serviço da celebração e da assembleia: “Compor para a liturgia é traduzir em som aquilo que a comunidade celebra em cada tempo, em cada gesto de mistério, é dar voz ao povo de Deus”. Ao longo da sua reflexão, destacou as características fundamentais da música litúrgica, sublinhando que deve possuir “boa qualidade formal”, ser “servidora do texto”, promover a comunhão da assembleia e conduzir ao encontro com Deus. “A música deve estar bem escrita”, afirmou, acrescentando que a música sacra deve estar “ao serviço da oração, que ajude a comunidade a rezar, não apenas a ouvir e muito menos a entreter”. Monsenhor Cartageno insistiu particularmente na centralidade do texto litúrgico no processo de composição: “O texto é soberano”, reforçou, explicando que começa sempre por analisar cuidadosamente a métrica, os acentos e o conteúdo espiritual das palavras antes de avançar para a música. “A acentuação natural do texto deve guiar a melodia. A clareza da palavra cantada é essencial para que a assembleia participe”, acrescentou. O compositor recordou também o cuidado em escrever melodias acessíveis às comunidades, evitando dificuldades desnecessárias: “Nunca busquei a dificuldade pela dificuldade, pelo contrário, tudo faço para facilitar a vida aos cantores”. Foi neste contexto que evocou diretamente o Padre Manuel Luís: “É justo lembrar que o Padre Manuel Luís, em geral, também era mestre nesta matéria”. Ao refletir sobre a relação entre criatividade e tradição, Monsenhor Cartageno destacou a influência permanente do canto gregoriano e da polifonia clássica na composição litúrgica contemporânea, referindo que a obra do Padre Manuel Luís oferece “exemplos muito interessantes” dessa ligação. Recordou mesmo um encontro recente em Coimbra, onde foram analisadas composições do sacerdote em paralelo com os temas gregorianos que lhes deram origem. “Mandai, Senhor, o vosso Espírito”, exemplificou, referindo a relação direta com o ‘Veni Creator Spiritus’. Na parte final da intervenção, apresentou a composição litúrgica como um verdadeiro ato espiritual: “Compor para a liturgia é realmente um ato de fé, de serviço à Igreja e de arte. É colocar o talento ao serviço do mistério, ajudando a Igreja a cantar a sua esperança”, terminou Monsenhor António Cartageno. Rezar e meditar o texto antes de fazer uma música Também o Padre Teodoro Sousa, sacerdote e compositor do Patriarcado de Lisboa, centrou grande parte da sua intervenção no testemunho e no método de trabalho do Padre Manuel Luís, que conheceu de perto nos Seminários dos Olivais. O sacerdote começou por afirmar que compor para a liturgia é “uma honra e uma responsabilidade”, porque o compositor colabora “na obra criadora de Deus” e coloca a sua música ao serviço das comunidades cristãs. “O objetivo não é propriamente uma manifestação das técnicas que eventualmente desenvolvo, mas destina-se tudo às comunidades que depois vão cantar as músicas”, afirmou. Tal como Monsenhor Cartageno, sublinhou que o texto ocupa um lugar central na composição. “O texto é soberano”, repetiu, acrescentando: “Tenho que estar sujeito ao que o texto diz”. Neste contexto, evocou diretamente o exemplo do Padre Manuel Luís: “Eu lembro-me que o Padre Manuel Luís dizia isso continuamente: ‘Antes de fazer uma música, eu vou sempre rezar o texto, meditar o texto e rezar o texto’.” O Padre Teodoro contou mesmo ter testemunhado pessoalmente esse hábito do compositor. “Vi-o algumas vezes no coro alto do Oratório dos Olivais, com uma partitura musical vazia nas mãos. Portanto, ele devia estar à espera do Espírito Santo para lhe inspirar o que é que lá devia escrever”, partilhou. Outro momento marcante da intervenção foi a partilha de um episódio contado pelo Padre David Mendes, relacionado com a composição do conhecido cântico ‘Em paz me deito’: “O Padre Manuel Luís estava ao fogão, a fazer uma caldeirada, quando largou tudo e foi a correr buscar uma partitura para escrever aquilo que lhe veio à cabeça”. Segundo relatou, dessa inspiração inesperada nasceu precisamente o cântico litúrgico: “Em paz me deito e adormeço tranquilo”. Para o Padre Teodoro Sousa, este episódio ilustra bem que a inspiração artística “não depende só das técnicas”, mas também da ação do Espírito Santo: “É uma coisa que vem de Deus.” Técnica e inspiração na composição litúrgica No final das intervenções, os dois oradores responderam ainda a uma questão do diretor do Departamento de Liturgia do Patriarcado, Padre Pedro Lourenço, que moderou as intervenções, sobre a relação entre inspiração, dom natural e formação técnica na composição litúrgica. Monsenhor António Cartageno recordou o percurso iniciado ainda antes da entrada no Seminário dos Olivais, quando já compunha música para peças de teatro na sua terra natal, São Mamede de Ribatua, Alijó. Mais tarde, começou a criar cânticos litúrgicos para comunidades paroquiais, num contexto em que existia “um vazio” de repertório após o Concílio Vaticano II. Referindo-se ao percurso académico em Roma, reconheceu a exigência da formação em composição sacra. “Foi uma batalha muito dura”, afirmou, acrescentando que esse percurso permitiu adquirir “o mínimo de conhecimento para julgar também aquilo que os outros vão fazendo”. O compositor explicou que, no trabalho desenvolvido com organismos litúrgicos, surgem frequentemente pedidos de avaliação e correção de composições. “É difícil julgar aquilo que os outros fizeram”, admitiu, mas sublinhou a necessidade de o fazer “com consciência de que fizemos o melhor”. Por sua vez, o Padre Teodoro Sousa destacou a importância da inspiração, mas também da técnica musical adquirida ao longo dos estudos realizados em Roma. “As técnicas ajudaram-me a balizar a inspiração, não a suprimi-la”, afirmou. Na síntese final da resposta, resumiu a complementaridade entre os dois elementos: “A inspiração sem técnica também fica muito pobre. A técnica sem inspiração é pior ainda”. D. Alexandre Palma destacou a liturgia como encontro com o mistério pascal Na sessão de abertura do ‘Simpósio Padre Manuel Luís’, o Bispo Auxiliar de Lisboa D. Alexandre Palma sublinhou a centralidade da liturgia na vida da Igreja e recordou o legado deixado pelo Padre Manuel Luís e por outros protagonistas da renovação litúrgica em Portugal. “A liturgia não é a celebração de coisas, mas é o encontro total que chamamos celebração com o mistério pascal do Senhor Jesus”, afirmou, defendendo que a ação litúrgica deve manter sempre “a absoluta centralidade celebrativa, espiritual e catequética do mistério pascal de Jesus”. O prelado destacou também a importância da assembleia celebrante enquanto expressão do povo de Deus: “A liturgia é o gesto supremo da Igreja como comunidade, como povo”. Segundo D. Alexandre Palma, esta compreensão da liturgia foi um dos grandes tesouros transmitidos pelos mestres da renovação litúrgica, entre os quais destacou particularmente o Padre Manuel Luís. “Estas coisas para nós não são apenas teoria”, observou, acrescentando que foram conhecidas “pelo testemunho vivo de pessoas que entre nós não apenas cultivaram esta forma de ser cristão, esta forma de ser liturgo, mas o testemunharam e o deixaram para nós”. Embora reconhecendo que “o Padre Manuel Luís é essa figura que polariza esta jornada”, o Bispo Auxiliar evocou também o contributo “do Padre José Ferreira”, recordando as várias intervenções que realizou naquele mesmo espaço sobre liturgia e música sacra. Padre Rui Silva recordou a obra e o percurso do Padre Manuel Luís Nas palavras iniciais do simpósio, o diretor do Serviço Diocesano de Música Litúrgica do Patriarcado de Lisboa, Padre Rui Silva, apresentou um breve retrato biográfico do Padre Manuel Luís e destacou a dimensão do seu legado musical e litúrgico. Recordando o centenário do nascimento do sacerdote, assinalado este ano, referiu que o Padre Manuel Luís nasceu “a 8 de julho de 1926”, em Turquel, Alcobaça, e passou pelos seminários de Santarém, Almada e Olivais. O responsável destacou particularmente a influência de Monsenhor Pereira dos Reis no percurso formativo do compositor, considerando-o “figura muito importante” para o desenvolvimento da música litúrgica em Portugal. Depois dos estudos realizados em Roma durante sete anos, dedicados ao canto gregoriano e à música sacra, o Padre Manuel Luís regressou ao Patriarcado de Lisboa, onde desempenhou funções como formador, professor e responsável pelo coro do Seminário dos Olivais. O Padre Rui Silva salientou ainda a vastidão da obra deixada pelo compositor: “Deixou-nos mais de 520 composições, maior parte litúrgicas, mas não só”. Entre essas obras, destacou especialmente os salmos responsoriais, que classificou como “a obra magna do Padre Manuel Luís”. “Portugal foi o primeiro país do mundo a ter os salmos dominicais musicados”, lembrou, considerando que o sacerdote realizou “uma transição muito feliz entre a tradição da Igreja, o canto gregoriano e os tempos novos que requerem uma composição em vernáculo”. O diretor do Serviço Diocesano de Música Litúrgica concluiu sublinhando a atualidade e permanência da obra do compositor: “Esse contributo foi tão importante que ainda hoje cantamos por todo o lado os cânticos do Padre Manuel Luís”. A manhã do simpósio terminou com um momento musical do Coro Padre Manuel Luís, criado para esta homenagem, com música tradicional harmonizada pelo Padre Manuel Luís. ‘Cantar a fé’ na Sé Patriarcal Após a pausa para o almoço, a tarde do ‘Simpósio Padre Manuel Luís’ teve ensaio de cânticos litúrgicos, num momento que contou com a colaboração do Serviço Diocesano de Música Litúrgica e da Escola Diocesana de Música Sacra. Na Sé Patriarcal de Lisboa, pelas 17h00, decorreu um momento de oração, intitulado ‘Cantar a fé’, com a intervenção de todos os coros participantes e de cantores individuais. O simpósio terminou com a oração de Vésperas, a cargo do Seminário dos Olivais, que foi presidida pelo Bispo Emérito de Beja, D. João Marcos.![]() |
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