Na homilia do Domingo de Ramos, celebrada na Sé Patriarcal de Lisboa, a 29 de março, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, convidou os fiéis a contemplar o significado da entrada de Jesus em Jerusalém e a viver a Semana Santa com um olhar atento às feridas do mundo, especialmente às causadas pela guerra.
Partindo do Evangelho proclamado na liturgia, D. Rui Valério destacou o carácter profético da entrada de Cristo na cidade santa. “Hoje, celebramos a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém”, afirmou, sublinhando que este acontecimento continua a interpelar os crentes de hoje: “Acompanhando a multidão que O aclama, deixamo-nos também nós inquietar por uma pergunta decisiva: quem é este que entra? Que significa a sua presença?”. Segundo o Patriarca, este gesto de Jesus realiza as promessas de Deus e revela o horizonte universal da salvação. A entrada em Jerusalém “não é apenas um acontecimento do passado: é uma ação profética que realiza a promessa de Isaías – ‘acorrerão a Ele todas as gentes e virão muitos povos’”. D. Rui Valério situou também o início da Semana Santa no contexto das atuais crises internacionais, marcadas pela violência e pela guerra em várias regiões do mundo. O Patriarca recordou particularmente aqueles que perderam quase tudo devido aos conflitos. “Quem vive sob o ruído constante de projéteis, de bombardeamentos, de agressões, que pode ainda esperar? Talvez apenas isto: que alguém não seja indiferente”, afirmou, apelando à responsabilidade dos cristãos. “Por isso, irmãos, a interpelação é clara e direta: não queiramos ser indiferentes.” O Patriarca sublinhou que a proximidade concreta, a oração e as obras de solidariedade são formas de sustentar a esperança daqueles que sofrem. “Para quem perdeu tudo, a maior riqueza que ainda pode existir é a presença de um coração que não abandona”, disse. Na reflexão, D. Rui Valério relacionou também o sofrimento das vítimas da guerra com o mistério da Cruz. “É a Cruz de Cristo que se encontra, simbolicamente, na linha de fogo. É o Calvário que se repete nas geografias feridas do nosso mundo”, apontou, recordando que onde “se apagam vidas inocentes – aí está, de novo, o Calvário dos pobres, dos indefesos, dos inocentes”. Por isso, acrescentou, os cristãos são chamados a não permanecer indiferentes ao sofrimento humano: “Somos chamados a unir-nos a estes irmãos e irmãs desarmados, a partilhar a sua dor, a carregar com eles o peso do sofrimento”. Na parte final da homilia, o Patriarca explicou que é precisamente neste mistério pascal que nasce a missão da Igreja. “A Igreja não sai pelas estradas do mundo movida por uma ideia, nem por uma ideologia, nem sequer por um mero ideal ético. Sai porque foi tocada pelo mistério pascal de Cristo”, garantiu. Participar na Páscoa de Jesus, afirmou, implica um compromisso profundo com o seu mistério de morte e ressurreição: “A nossa participação na Páscoa de Jesus não é um turismo espiritual”. Segundo D. Rui Valério, é deste encontro com Cristo que nasce o anúncio cristão: “Aquilo que anunciamos não é uma ideia: é uma plenitude. Cristo, plenitude da nossa humanidade e de todo o nosso ser”. A celebração do Domingo de Ramos assinala o início da Semana Santa, durante a qual a Igreja recorda os mistérios centrais da fé cristã: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
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