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Tony Neves
LUSOFONIAS | Quaresma, Fraternidade e Moradia

Há muito que o digo e não me canso de repetir: o Brasil dá cartas ao mundo sobre a forma como se pode e deve ver o tempo da Quaresma. Todos os cristãos tentam vivê-la o melhor que podem e sabem, mas no Brasil há algo de original: a Campanha da Fraternidade une um país que, verdade seja dita, é um continente, tal a sua dimensão! Sim, ano após ano, desde 1964, a Quaresma põe o coração dos brasileiros a bater ao mesmo ritmo.

A história é uma grande mestra da vida e conhecer como se iniciou esta dinâmica quaresmal é inspirador. Contam as crónicas que, na Quaresma de 1962, o então Arcebispo de Natal, lançou uma iniciativa com o objetivo de mobilizar os cristãos e arrecadar fundos para ajudar os mais necessitados. Foi um sucesso tão grande que a ideia já se aplicou, no ano seguinte, em 16 Dioceses, incluindo Fortaleza. Foi ainda neste ano de 1963 que, durante o Concílio Vaticano II, os Bispos do Brasil decidiram estender a iniciativa a todo o país. Quem divulgou esta grande notícia foi D. Hélder Câmara, que exercia o cargo de secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Assim, em 1964, todas as Dioceses se lançaram na Campanha da Fraternidade, com o tema ‘Igreja em Renovação’ e o Lema ‘Lembre-se: Você também é Igreja’. Para coordenar, além da CNBB, foi envolvida a Caritas. Até hoje, a CF não parou de crescer e é uma forte expressão de comunhão, conversão e partilha, envolvendo comunidades em todo o Brasil.

A Igreja no Brasil assume hoje que os objetivos permanentes da Campanha da Fraternidade são essencialmente três: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; e renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária (todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja).

A CF 2026 aposta num tema quente para o Brasil, como aliás o é para o mundo inteiro: a moradia! Há muito que vi, em S. Paulo, um cartaz que dizia: ‘Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente!’. Com o lema ‘Ele veio morar entre nós’ (Jo 1,14), a Igreja no Brasil lutará para que todos tenham onde habitar com as suas famílias. Trata-se – diz o objetivo geral – de promover, ‘num espírito de renovação quaresmal, a moradia digna não só como prioridade, mas como direito, em unidade com os demais bens e serviços essenciais a toda a população’.

Em termos sociais, esta CF tenta fomentar a construção de moradias para os mais frágeis das sociedades, sem condições económicas para aceder a uma casa. Por isso, ‘a Igreja estimulará a fomentação de construção de moradias dignas para as pessoas mais necessitadas. Esta missão é parte de políticas públicas dos governos que estão em nossa frente. Um dos objetivos específicos da CF 2026 é justamente o empenho para efetivar leis e viabilizar políticas públicas de moradia nas esferas sociais e políticas’.

Há um longo caminho a percorrer para que este objetivo seja alcançado. Mas – como um dia escreveu Lao Tsé – ‘uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo!’. Percorrer de barco alguns rios na Amazónia ou andar pelas favelas do Rio e S. Paulo ajudam a perceber quão precária é a habitação de milhões de pessoas no Brasil. Mas esta realidade tem uma escala planetária e, por isso, esta CF 2026 é tão atual para o Brasil como para o resto do mundo.

O Papa Leão XIV, na Mensagem que enviou aos Bispos do Brasil, disse: ‘que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação’.

Termino com a Oração desta CF: ‘Deus, nosso Pai, em Jesus, vosso Filho, viestes morar entre nós e nos ensinastes o valor da dignidade humana.

Nós vos agradecemos por todas as pessoas e grupos que, sob o impulso do Espírito Santo, se empenham em prol da moradia digna para todos.

Nós vos suplicamos: dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos, convosco, a casa do céu. Amém’.

E repito: nesta Quaresma, ponhamos todos os olhos no Brasil e vejamos quanta comunhão é possível construir quando nos damos as mãos e caminhamos juntos.

 

Tony Neves, em Roma