Há poucos dias, no meio de temporais inéditos entre nós, fenómenos naturais que anestesiaram a nossa esperança coletiva, aconteceu uma fase importante de um processo de sementeira.
O processo iniciou-se há muito tempo…
Como sabe qualquer agricultor, semear implica passos bem definidos: preparação do terreno, a escolha do tempo certo para semear, o método para o fazer, a antevisão possível dos riscos e – os dois aspetos mais importantes – a qualidade da semente e a forma de cuidar do seu processo de germinação e desenvolvimento.
De tudo isto, só tínhamos a garantia absoluta de um dos passos: a semente era inexcedível, indestrutível, mesmo perante todas as adversidades. Porém, para um melhor resultado, todos os outros passos contam e exigem o nosso empenho, muito empenho.
Esta alegoria remete para o XVI Encontro Cristão, que ocorreu no dia 31 de janeiro, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, e onde se encontraram mais de cinquenta Igrejas e comunidades cristãs, no mais abrangente encontro ecuménico que acontece em Portugal e, muito possivelmente, na Europa.
A única excelência que tínhamos garantida era a Raiz, a Semente, a Esperança que é o próprio Jesus Cristo. Tudo o resto constituíam desafios, ou melhor, convites que a Raiz faz na Sua gratuidade infinita, que implica a liberdade de não se impor, de não querer ser árvore sem a colaboração de outros constituintes deste processo.
Assim nasceu a preparação do terreno que, ao longo de semanas, propôs a amabilidade e a hospitalidade como forma de criar um terreno fértil; porém, esta construção resultou já da ação de uma rede de agricultores que, vindo de escolas agrícolas diversas, tinham a mesma Raiz e viviam para que as folhas e os frutos da planta fossem motivo de espanto e alegria para os que olhassem a beleza da árvore, quer pelo colorido, diverso e complementar das suas folhas, quer pelo saborear dos seus magníficos frutos.
Se as incertezas quanto ao momento de lançar as sementes, quer quanto às adversidades vindouras estavam fora do controle dos agricultores, o método, esse, sim, estava bem definido: a eficácia desta cooperativa baseava-se na fidelidade à premissa que alicerçava a sua tarefa – a fraternidade radical entre os obreiros, capaz de ultrapassar diferenças que pusessem em causa o seu grande objetivo: possibilitar o crescimento da Raiz para que o Mundo ganhe outra dimensão.
Muitos ainda se focaram na teimosa primazia dos seus métodos, sobrepondo-os à centralidade da finalidade do processo; porém, de forma crescente a cooperativa, vai-se centrando naquele que é o seu objetivo, ultrapassando miopias ao ter a visão profética da árvore.
O processo de germinação e o desenvolvimento da semente é agora a tarefa da cooperativa; não que desconheçam a metodologia que proporciona um bom resultado; só que a fraternidade, adubo essencial, é um bem frágil, escasso, facilmente perecível e de produção difícil, enquanto a Raiz não produz a Seiva que fortifica os agricultores.
Contudo, a experiência de Sintra torna palpável o que é possível: cheirar o perfume das folhas, provar o magnífico sabor dos frutos e extasiar-se com a beleza da árvore.
Mérito desta cooperativa?
Não. Unicamente tiveram a Graça de provar a Seiva... e o desenvolvimento da árvore só ocorrerá enquanto a Seiva alimentar a cooperativa.
texto por Luís Parente Martins, da organização do Encontro Cristão de Sintra
fotos por Constança Fidalgo e Rute Nogueira/EC
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