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Os imigrantes, no contexto do Mundial de Futebol - Tecer o nosso mundo
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Agustin, imigrante senegalês que vive há dez anos em Espanha, falava para um grupo de irmãs: “A maior dificuldade que encontrei foi a minha cor: ser negro. O negro aqui é sinónimo de miséria e ignorância. Quando cheguei à Europa falava muitas línguas: francês, inglês, a minha língua local e um pouco de português; entendia também um pouco de espanhol. Trazia os meus valores, mas aqui era considerado um ‘tonto’. Isto não acontece a um branco, a um alemão, a um inglês.”

Nalguns países costuma dizer-se que quando um branco corre é porque faz footing. Porém, quando se trata de um negro, pensa-se que corre para fugir da polícia. No caso das brasileiras em Portugal estas são observadas com algum preconceito, dado que, não raras vezes, são entendidas como sinónimo de prostitutas.

 

Lidamos com tantos preconceitos e muitas vezes manifestamo-los na maneira de actuar, de falar e de ver; fazemo-lo de forma inconsciente e não nos apercebemos do mal que tal atitude faz a essas pessoas que estão à nossa volta e nos ajudam a viver melhor.

 

O fenómeno das migrações mobiliza aproximadamente 214 milhões de pessoas, representando 3,1 por cento da população mundial. Só na Europa são aproximadamente 34 milhões. Estes, por vezes marginalizados, contribuem com a sua presença e trabalho para o desenvolvimento económico não só das famílias, como também dos seus países e dos países de acolhimento. Os imigrantes regularizados, pagando os impostos contribuem mensalmente para os cofres do Estado e sustentam a segurança social do país onde se encontram. São inaceitáveis certas atitudes preconceituosas de cidadãos nacionais, para quem é difícil entender e aceitar que os imigrantes são uma fonte de receita para o mundo desenvolvido.

 

A imigração traz força jovem para a Europa, continente cada vez mais decrépito e envelhecido. Os imigrantes têm muito que oferecer: a sua experiencia, a sua fé, os seus valores e a sua cultura. De igual maneira são chamados a compreender as características dos povos onde se estabelecem, de forma a criar um diálogo de irmãos e a viver a grande festa das diferenças; a criar a união que se solidifica na mútua aceitação, sem separar, nem dividir ou marginalizar.

 

A multiculturalidade como consequência do mundo globalizado chama-nos a participar numa solidariedade global, de forma a parar com as novas escravidões como o tráfico de pessoas, a prostituição, a marginalidade, a violência. Trata-se de crimes sem nome, consequência de políticas restritivas e instrumentalizadoras que até hoje na Europa e noutros países desenvolvidos segregaram e manipularam os imigrantes para benefício próprio. Tais situações acabam por provocar o enriquecimento de alguns segmentos da sociedade, através duma economia oculta que se serve da necessidade das pessoas para os escravizar.

 

Agustin dizia também: “Foi lindo ver em Lisboa uma cidade multicolor, pela riqueza da mestiçagem que ali existe. Vir para Europa tem-me ajudado a crescer, porque tenho aprendido muitas coisas. Há muitos valores nos europeus que, com os nossos valores africanos e dos outros povos, poderiam ajudar a construir uma vida melhor.”

O Mundial de Futebol tem-nos mostrado a magnitude da cultura de um país africano, a sabedoria das suas personagens, a riqueza da sua natureza, o seu colorido e a sua alegria. Verificamos tudo isto na forma como se exteriorizam nas danças, na música e também na forma de acolher os outros, procurando intensificar os laços que unem e não aquilo que os separa. Uma forma diferente de ver a vida, que nos apresenta a multiculturalidade como um amplo espaço a ser descoberto para nos fortalecer como seres humanos e criar novas relações entre uns e outros.

 

Que neste tempo de Verão, durante o qual muitos europeus viajam por diversão, férias ou turismo, aprendamos dos irmãos imigrantes, estejamos abertos à novidade do outro. Que vivamos o encontro de culturas, fazendo desses momentos uma ponte para entrelaçar nossos sentimentos, num intercâmbio de valores, amizade, arte, acolhimento, generosidade e sabedoria. Que vivamos de tudo aquilo que nos vai enriquecer e ajudar a ver no outro não aquele que invade o meu espaço, mas o meu irmão, a minha irmã, que me enriquece com as suas diferenças.

Unamos, pois, as forças para tecer e reconstruir um “mundo nosso” e não “aquele mundo” de apenas alguns, que com as suas leis e juízos provocam guetos, discórdia e escravidão entre os filhos e as filhas de um mesmo Pai-Deus.

 

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