Lisboa |
Pastoral Social promoveu encontro ‘Servir com Esperança’
“Sem a ação social da Igreja, Portugal era um país que definhava”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, enalteceu o trabalho da Igreja juntos das pessoas necessitadas e vulneráveis, durante o encontro ‘Servir com Esperança – A caridade como rosto da Igreja no território de Oeiras’, que foi promovido pela Pastoral Social da Vigararia de Oeiras e decorreu na manhã deste sábado, dia 10 de janeiro, no salão paroquial de Nova Oeiras.

O encontro contou com a presença da vereadora da Câmara Municipal de Oeiras com o pelouro da Coesão Social, Teresa Bacelar, e reuniu cerca de meia centena de representantes das IPSS da vigararia para refletir sobre a centralidade da caridade cristã na missão da Igreja e na transformação das comunidades.

Na sua intervenção, o Patriarca de Lisboa destacou o contributo histórico e atual da Igreja no campo social, afirmando que “sem a ação da Igreja, Portugal, pelo menos no que diz respeito ao combate na área social, era um país que definhava”. D. Rui Valério recordou que, desde os primórdios da nação, a Igreja tem sido um elemento estruturante da resposta às necessidades sociais, sendo hoje “um sustentáculo, um alicerce do que no âmbito social vai acontecer”.

Comparando a ação social da Igreja com outros modelos internacionais, o Patriarca sublinhou a especificidade da resposta eclesial, que coloca a pessoa no centro: “A ação que a Igreja tem praticado é aquela de, antes de mais, privilegiar o primado da pessoa, do ser humano, nunca esquecendo que a pessoa é pessoa”. Para D. Rui Valério, a caridade cristã distingue-se por não reduzir o ser humano a um problema técnico a resolver, mas por reconhecer em cada pessoa “um alguém”.

 

Servir a pessoa é servir Cristo

O Patriarca de Lisboa lembrou ainda que a ação social da Igreja está enraizada no Evangelho e na identificação de Cristo com os mais frágeis: “A Igreja reconhece neste alguém não apenas um semelhante, mas tem sempre presente aquela palavra de Jesus Cristo: «Aquilo que fizeste a um destes mais pequeninos, a Mim o estais a fazer»”.

No salão paroquial de Nova Oeiras, D. Rui Valério reforçou que o serviço prestado pelas IPSS da Igreja é sempre um serviço de esperança, porque está centrado na Pessoa de Cristo: “A ação da Igreja é sempre uma ação que está focada na Pessoa de Cristo. Ele envia-nos ao bem, ao amor, ao serviço, e Ele está na pessoa de quem nós servimos”.

 

Um serviço que gera esperança

Desenvolvendo o tema do encontro, o Patriarca explicou que a esperança cristã vai além da resolução imediata dos problemas: “O nosso servir é sempre um serviço de esperança, não apenas pautado pela expectativa de que a situação se resolva, mas uma esperança muito mais ampla e abrangente”.

Segundo D. Rui Valério, pequenos gestos de proximidade e cuidado – como escutar, perguntar pela família ou criar relações de ternura – revelam aquilo que considera ser “a grande especialidade da Igreja”: servir a pessoa na sua dignidade integral.

 

Gratidão aos que estão na linha da frente

No final do encontro, antes da bênção final, o Patriarca de Lisboa deixou uma palavra de agradecimento a todos os envolvidos no trabalho social no concelho de Oeiras. “Este encontro tornou-nos mais servidores na arte de servir com esperança”, afirmou, agradecendo à Vigararia de Oeiras, aos organizadores e às entidades presentes.

D. Rui Valério dirigiu ainda um reconhecimento especial aos profissionais e voluntários das IPSS: “O principal fator do servir é a vossa disponibilidade, o vosso sorriso, a vossa entrega”, sublinhando que servir é verdadeiro fator de esperança quando o dar se transforma num “dar-se”.

 

Igreja e autarquia: uma parceria para cuidar das pessoas

Presente no encontro ‘Servir com Esperança’, a vereadora da Câmara Municipal de Oeiras com o pelouro da Coesão Social, Teresa Bacelar, destacou a colaboração entre a Igreja, as IPSS e a autarquia no cuidado às pessoas mais vulneráveis. “A Igreja é o nosso parceiro privilegiado”, afirmou, recordando que esta relação é antiga e tem sido fundamental na construção e gestão das respostas sociais no concelho.

A responsável municipal sublinhou ainda o papel insubstituível das instituições no terreno: “Quem dá a cara e quem mexe com as pessoas são as IPSS, são as instituições que diariamente trabalham com as pessoas”, garantindo que o município continuará a apoiar projetos existentes e novos desafios sociais, bem como a investir no cuidado e capacitação de quem cuida.

 

“Uma resposta tipificada deve transformar-se numa resposta individualizada e humanizada”

O encontro ‘Servir com Esperança – A caridade como rosto da Igreja no território de Oeiras’ ficou também marcado pelos testemunhos de quatro intervenientes ligados a diferentes respostas sociais da Vigararia de Oeiras, que partilharam experiências concretas de serviço junto de idosos, crianças, jovens e famílias em situação de vulnerabilidade.

Marina Silva, assistente social do Centro Social Paroquial de São Romão de Carnaxide, sublinhou a importância de uma intervenção centrada na pessoa nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), onde trabalha atualmente. Apesar de se tratar de uma resposta social tipificada, defendeu que “é nosso dever tornar esta resposta numa resposta social individualizada e humanizada”.

A responsável destacou que a ERPI é, muitas vezes, “a última casa” da pessoa idosa e, por isso, deve ser um espaço de cuidado integral, onde se respeitam os ritmos, os gostos, a história de vida e a autonomia de cada um. “Para além de um corpo envelhecido, estamos perante uma pessoa que é pessoa, com sentimentos, desejos e uma história única”, afirmou.

Marina Silva frisou ainda a importância da presença emocional dos profissionais. “Nunca podemos permitir que as preocupações da gestão ponham em causa a nossa presença para o idoso”, apontou, defendendo que ouvir, cuidar e criar um ambiente familiar são essenciais para garantir dignidade até ao fim da vida.

 

“Servir com caridade é muito mais do que responder às necessidades imediatas”

A Irmã Marisa Nacman, responsável da Obra Social Madre Maria Clara, da CONFHIC, apresentou a missão da instituição, inspirada no carisma dos fundadores: ‘Onde há bem a fazer, que se faça’. A obra atua nas áreas da educação, da infância e do apoio à população idosa, em diferentes contextos sociais do concelho.

Referindo-se aos desafios atuais, a religiosa destacou o trabalho com famílias vulneráveis, crianças com necessidades educativas especiais e idosos em situação de isolamento. “Cristo é um esposo de mil rostos, que assume a nossa pobreza humana”, afirmou, sublinhando que servir com esperança exige fé, resiliência e uma visão integral da pessoa.

A Irmã Marisa destacou ainda a importância do território de Oeiras, valorizando a cooperação com a autarquia. “O nosso trabalho tem sido possível graças aos apoios que recebemos”, observou, afirmando que, através de cada gesto solidário, a Igreja no concelho “tem sido sinal de esperança viva”.

 

“O Rendimento Social de Inserção continua a ser alvo de estigma e preconceito”

Paula Luz, assistente social do Centro Social Paroquial de Nossa Senhora de Porto Salvo, centrou a sua intervenção no Rendimento Social de Inserção (RSI), uma medida que considera ainda pouco compreendida. “Existe muito estigma, muito preconceito e muito desconhecimento sobre o que nós fazemos”, afirmou.

Explicando o funcionamento da medida, Paula Luz esclareceu que o RSI é um apoio temporário, com natureza contratual, cujo objetivo último é a autonomização das famílias. Desmistificando ideias feitas, referiu que “uma pessoa isolada pode receber cerca de 200 euros, um valor com o qual ninguém consegue viver dignamente”.

A responsável destacou ainda o acompanhamento próximo realizado pelas equipas, através de atendimentos, visitas domiciliárias, articulação com serviços e projetos comunitários nas áreas da educação e do emprego, sublinhando que se trata de “um trabalho exigente, mas profundamente humano”.

 

“Dar voz às crianças e às famílias é criar caminhos de futuro”

O último testemunho foi de Rita Fonseca, psicóloga e responsável pelo Projeto Barra, da Unidade Pastoral de Nova Oeiras e São Julião da Barra, que partilhou o percurso de um projeto socioeducativo nascido da constatação de que o apoio alimentar, por si só, não quebra ciclos de pobreza.

Criado em 2018, o Projeto Barra acompanha atualmente cerca de 40 crianças e jovens, oferecendo apoio ao estudo, atividades de desenvolvimento pessoal e acompanhamento das famílias. “Queremos que as crianças se sintam seguras, valorizadas na sua individualidade e capazes de projetar um futuro com mais oportunidades”, explicou.

O projeto aposta numa lógica participativa, onde os jovens têm voz ativa, e no voluntariado como elemento-chave. Rita Fonseca destacou ainda o cunho cristão da iniciativa: “Sentirem-se amados incondicionalmente desperta a curiosidade sobre a origem desse amor”. Neste sentido, garantiu que o testemunho da comunidade tem sido caminho de descoberta da fé para muitas crianças e famílias.

No final das quatro intervenções, as utentes do Centro Dia do Centro Social Paroquial de Queijas celebraram a vida num momento cultural.

 

“A caridade não é um acessório da vida cristã, mas o seu coração”

Na abertura do encontro ‘Servir com Esperança – A caridade como rosto da Igreja no território de Oeiras’, o Vigário de Oeiras, Padre José Luís Costa, sublinhou que a caridade cristã implica transformar o outro em verdadeiro irmão: “A caridade é esta capacidade de transformar o próximo efetivamente em nosso irmão, fazer por ele aquilo que eu faria por um irmão meu de sangue”.

Referindo-se ao tema do encontro, ‘Servir com Esperança’, explicou que a presença do Patriarca de Lisboa no concelho constitui “um sinal de comunhão e de reconhecimento” do serviço “silencioso, perseverante e generoso” realizado diariamente por muitos homens e mulheres inspirados pelo Evangelho.

O sacerdote, que é também pároco de Paço de Arcos e de Laveiras-Caxias, recordou que, apesar de Oeiras ser frequentemente associada ao desenvolvimento e à inovação, o território enfrenta fragilidades sociais que não podem ser ignoradas, como situações de pobreza, isolamento dos idosos, dificuldades no acesso à habitação digna, solidão, exclusão social e novas formas de vulnerabilidade que atingem famílias, jovens e migrantes.

Neste contexto, afirmou que “a Igreja em Oeiras é chamada a ser sinal do Reino de Deus”, um reino de proximidade, justiça, cuidado e esperança, através das paróquias, movimentos, grupos de intervenção social, IPSS, Misericórdia, Cáritas, vicentinos e projetos de voluntariado.

Para o Vigário de Oeiras, servir com esperança vai além da resposta imediata às necessidades: “É reconhecer a dignidade de cada pessoa, escutar as suas histórias, criar laços comunitários e colaborar com todos os que trabalham para uma maior coesão social”.

O Padre José Luís Costa sublinhou ainda que a esperança cristã é ativa e comprometida, lembrando que “a caridade não é um acessório da vida cristã, mas o seu coração”.

 

Carta da Caridade da Vigararia de Oeiras

O encontro ‘Servir com Esperança’ culminou com a apresentação e leitura da ‘Carta da Caridade da Vigararia de Oeiras’, entendida como um compromisso pastoral e comunitário com aqueles que mais precisam e como sinal concreto da comunhão entre as várias entidades ao serviço da caridade, lançando sementes para o futuro.

Após a sua leitura, a Carta foi assinada pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, pela vereadora da Câmara Municipal de Oeiras com o pelouro da Coesão Social, Teresa Bacelar, por D. Nuno Isidro, Bispo Auxiliar de Lisboa que acompanha a Pastoral Social na diocese, e pelos participantes do encontro.

A ‘Carta da Caridade da Vigararia de Oeiras’ vai ser simbolicamente entregue ao Patriarca de Lisboa, como compromisso de toda a vigararia, no próximo dia 1 de fevereiro, Domingo, durante a Missa de encerramento da Visita Pastoral à Vigararia de Oeiras, que vai ter lugar pelas 15h30, no Santuário de Nossa Senhora da Rocha, em Linda-a-Pastora.

 

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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