Centenas de jovens participaram, na noite desta terça-feira, na Vigília de Oração “pelo nosso querido Papa Francisco”, na Igreja de São Domingos, na Baixa, e escutaram o Patriarca de Lisboa a recordar o Santo Padre que era como “um pai que nos dava bons conselhos” e que “nos ensinava a maneira de caminhar, de ir às periferias, de nos desinstalarmos”.
Organizada pelo Serviço da Juventude, pelo Setor da Pastoral das Vocações e pela Pastoral Universitária de Lisboa, a vigília teve como mote ‘Obrigado Papa Francisco!’ e reuniu jovens de toda a diocese que quiseram, desta forma, homenagear, em oração e silêncio, o Santo Padre falecido no dia 21 de abril, aos 88 anos. “A circunstância que nos reúne aqui, em torno ao altar, para contemplar Cristo vivo no meio de nós, presente na Eucaristia, é aquela circunstância que nos toca profundamente o coração: alguém que, certamente, não tem o mesmo apelido que nós, nem sequer a nacionalidade de nascimento – era argentino –, que depois, no desenvolvimento da sua missão pontifical, como Papa, à primeira vista parecia uma figura assim muito distante, mas a verdade é que hoje, para todos nós, sentimos que o Papa Francisco, o nosso querido Papa Francisco, é alguém próximo e até quase que nosso familiar. Nós olhamos para ele – e falo por mim próprio –, e vemos não apenas o pontífice, o chefe da Igreja, mas para todos nós, aqui presentes, o Papa Francisco é, pelo menos, um pai que nos dava bons conselhos, que nos ensinava a arte de viver, a arte de ser feliz, a arte de amar, a arte de servir os outros. E até, imaginem, nos ensinava a maneira de caminhar, de ir às periferias, de nos desinstalarmos. É por isso que o sentimos tão presente no nosso coração, talvez como em nenhuma outra circunstância ou momento. Não é para lhe dizer adeus, mas é para dizer como nos sentimos mais unidos a Deus e uns aos outros quando estamos unidos ao próprio Papa, ao próprio pastor da Igreja”, explicava D. Rui Valério, na saudação inicial. Na suas primeiras palavras aos jovens que encheram, na noite de dia 22 de abril, a Igreja de São Domingos, o Patriarca não esqueceu a presença de Francisco em Lisboa, na Jornada Mundial Juventude em 2023: “Convido-te, pois, cara irmã e caro irmão, a que, durante alguns instantes de silêncio, vás ao baú da tua memória, a esse lugar sagrado que é a profundidade do teu coração, e tenta recuperar experiências vividas em que te cruzaste com o Papa Francisco, ouviste o Papa Francisco, ou viste o Papa Francisco. Tivemos a graça de, ainda não há dois anos, o ter tido aqui, no meio de nós. Lisboa ficou marcada na sua vida, na história da Igreja recente, na história da nossa cidade. Então, convido-te a fazer essa viagem à tua memória, à tua saudade, ao teu interior, para te recordares, para recuperares gestos, palavras, mensagens, ações, silêncios, olhares que foram do Santo Padre, o Papa Francisco”. “Papa deu a vida por amor” Após a saudação inicial, teve lugar o testemunho da jovem Joana Andrade, da Paróquia de Santo António do Estoril, que teve “o privilégio de ter feito parte da construção da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa” e de ter tido “um encontro especial com o Papa Francisco”, no caso, um almoço na Nunciatura. Esta jovem começou por recordar a presença na JMJ em Cracóvia, em 2016, em que foi “engolida num mar de gente”. “Lembro-me de subir aos ombros de um amigo e de não conseguir ver o fim das pessoas, todas com bandeiras de nacionalidades diferentes, e de ver uma alegria imensa com todos a cantar ‘Jesus Christ, You are my life’, e de o Papa, com muita simplicidade, fazer-se parte desta festa”, lembrou. Depois, em 2019, Joana esteve em Moçambique, “a fazer missão” e também teve “a sorte” de poder ver o Papa Francisco. “E mais uma vez fez festa, fez parte, com muita simplicidade e disse que nós, jovens, somos importantes, não só porque somos o futuro, o futuro da Igreja, o futuro do mundo, mas porque somos o presente e somos a alegria de hoje. Disse também a seguinte frase que me acompanha há muito tempo: ‘Lançar pontes, construir uma paz que seja boa para todos, isso é um milagre da cultura do encontro’”, contou. Sobre a JMJ Lisboa 2023, Joana Andrade recordou “o ano de preparação” e a colaboração “na pasta de oração”. Durante a Jornada, esteve “na logística do coro e da orquestra” e teve “o privilégio de poder cantar com o coro”. “O momento onde estive mais perto foi quando almocei com o Papa, na Nunciatura. Éramos 10 jovens, de várias partes do mundo, fomos levados até à porta, entrámos na sala, subimos as escadas e ficámos à espera do Papa. Íamos esperando, se calhar uns em silêncio, outros a conversar com o do lado, trocávamos olhares, sorrisos, assim na expectativa que o Papa chegasse e depois chegou. E não houve música a tocar, não houve sinos a badalar, não houve uma luz enorme que se abriu ou uma sensação assim de choque ou agitação. Era o Papa. E era mesmo o Papa. Mas, mais uma vez, era um Papa humilde, era um de nós. E foi parte daquilo que nós já estávamos a ser, que era a sermos Igreja”, partilhou. “Ainda me lembro da sensação de o ver chegar e de me sentir em casa. Lembro-me de me sentir como se fosse assim num almoço de família. E foi assim o almoço inteiro: um tempo tranquilo, muito simples e muito humano. E foi mesmo como um almoço de família, em que comemos legumes e batatas fritas de pacote, e falámos, de facto, de temas sérios que preocupam o mundo e que preocupam cada país e que inquietam as pessoas. Mas também de histórias de família, de cada um. E o Papa disse piadas e falámos de futebol. Portanto, a normalidade, a humanidade e a simplicidade foram valores muito presentes neste momento. E o Papa quis saber, quis saber de cada um, quis saber da história de cada um. O que mais marcou foi esta simplicidade, a facilidade em estar e em estarmos todos e em sermos parte”, acrescentou. Na Igreja de São Domingo, esta jovem testemunhou ainda “o momento mais marcante deste almoço” com o Papa. “Foi logo ao início em que nos juntámos todos para rezar. O Papa abençoou e depois cada um, na sua língua, foi rezando. Foi giro porque, no fim, dissemos todos o «Amen» ao mesmo tempo. Aqui percebi que o Espírito é só um, que somos todos membros de um mesmo Corpo e que somos uma Igreja muito grande, sem fronteiras”, assumiu Joana Andrade. Esta jovem terminou o testemunho referindo que o que mudou a sua vida “se calhar não foi o almoço com o Papa”, mas “foram os vários encontros que aconteceram por causa do Papa”.” O encontro com a humildade, com a bondade, com a humanidade, com a beleza, com a simplicidade, com a alegria. E a certeza de que temos que nos levantar de onde quer que estejamos acomodados. Temos que partir apressadamente e com alegria, como Nossa Senhora fez, e ir ao encontro de quem precisa de ser encontrado”, explicou. “Dando testemunho com a sua vida, o Papa ensina-nos esta humildade de quem não quer ser o centro, mas de quem quer ser parte e de quem dá a sua vida por amor”, concluiu Joana Andrade, a jovem do Estoril que almoçou com o Papa na JMJ Lisboa 2023. “Lugares de morte onde a vida acontece” A Vigília de Oração pelo Papa Francisco prosseguiu com a proclamação do Evangelho e a homilia do Patriarca de Lisboa, que começou por recordar quando foi escolhido como missionário da misericórdia. “Em 2016, o Papa Francisco proclamou aquele famoso Ano Jubilar da Misericórdia e escolheu, nomeou, 1.073 missionários da misericórdia. Eu tive a graça de ser um dos escolhidos e, quando me desloquei a Roma, juntamente com outros missionários – não estávamos os 1.073, estaríamos uns 800 –, num encontro com o Santo Padre, uma das coisas maravilhosas que ele disse foi para nós não termos medo de ir aos lugares de morte. Porque aí também existem pessoas. Ele, provavelmente, pensava, já naquela altura, no Mediterrâneo, nos migrantes, pensava nas bermas das estradas. São lugares de morte, efetivamente. Pensava naqueles bairros da cidade de Roma habitados pelos sem pátria – os italianos têm uma palavra que é dura: extracomunitários, aqueles que não vivem em comunidade –, falava de lugares onde existe a delinquência, onde, naquele contexto concreto, a máfia continua a fazer lugares de morte. Mas lugares onde a vida acontece”, partilhou D. Rui Valério, desafiando: “O Papa Francisco, esta noite, convida-te, a ti, a não teres medo de te aproximares, de visitares lugares de morte”. Na presença de D. Ivo Scapolo, Núncio Apostólico em Portugal, D. Rui Valério partilhou ainda aos jovens uma conversa privada que teve com o Papa Francisco, pouco tempo após ter tomado posse como Patriarca de Lisboa. “Quando fomos a Roma agradecer ao Papa a vinda dele aqui, eu depois tive um encontro a sós com ele e perguntei-lhe: ´Santo Padre, nomeou-me agora para Lisboa, eu sou jovem, estou ali há pouco tempo, qual é o conselho que me dá?’ Vocês sabem o que é que ele me disse? Ele falou-me em italiano: ‘Sii libero’. Sê livre. E ser livre para quê? Ele não me disse, porque falámos de outras coisas, mas ser livre para amar, ser livre para servir. Não ponhas fronteiras no coração, não ponhas fronteiras ao amor. Vocês vejam, o Papa Francisco foi verdadeiramente um pontífice, quer dizer, um homem de pontes, um homem de encontros, exatamente porque ele, perante quem quer que fosse, encontrava-se sempre na presença de um semelhante. Ele tratava bem toda a gente, independentemente da sua origem”, realçou. O Patriarca terminou a sua reflexão com um pedido aos jovens: “Queria-vos pedir exatamente na continuidade daquilo que nós vivemos há cerca de dois anos, em 2023, que o Senhor nos conceda a graça desta ligeireza, desta disponibilidade, desta capacidade de não sermos que para o essencial, de não sermos que para o absoluto, de não sermos que para Deus e para os irmãos. E nesse ser para Deus e para os irmãos, está o rosto hoje, atual, da Ressurreição e da vida nova”. Oração e silêncio Após as palavras do Patriarca de Lisboa, foi exposto o Santíssimo Sacramento, tendo os jovens ficado em oração e silêncio durante longos momentos. Foram ainda lidos dois pontos da Bula de proclamação do Jubileu, ‘Spes non confundit’, e mais três pontos da exortação apostólica ‘Christus Vivit’. Após novo tempo de silêncio, os jovens apresentaram a Deus as “preces, pelo Papa Francisco, pela Igreja e por todo o mundo”. Seguiu-se o Pai Nosso e a bênção, com o Santíssimo Sacramento, por parte do Patriarca de Lisboa. A Vigília de Oração pelo Papa Francisco terminou com um cântico à Virgem Santa Maria e os agradecimentos e despedida de D. Rui Valério. “Na conclusão deste nosso maravilhoso encontro, em que vivemos em comunhão profunda com a Igreja universal, mas particularmente nesta evocação, nesta homenagem, nesta memória, neste agradecimento que quisemos elevar ao Senhor com e pelo nosso querido Papa, o Papa Francisco, eu agradeço, uma vez mais, ao Senhor Núncio [Apostólico, D. Ivo Scapolo], também ao Monsenhor José António [Teixeira Alves, conselheiro da Nunciatura], ao Senhor Padre Vítor [Gonçalves, pároco de São Domingos] a hospitalidade, e aos meus irmãos no sacerdócio a presença. Agradeço particularmente a vós, caros amigos. Amanhã à tarde partirei também para Roma, a propósito certamente do funeral do Santo Padre, mas também porque nos próximos dias vai ter lugar, em Roma, o Jubileu dos Adolescentes, que é quase a antecâmara do Jubileu dos Jovens, onde nos encontraremos e onde iremos depois, em agosto. Que Deus realmente vos abençoe, continuação de uma santa e feliz Páscoa, para vós e para as vossas caras e queridas famílias. E sejamos santos, como o Senhor é santo. Uma santa noite. Até amanhã”, despediu-se o Patriarca de Lisboa.![]() |
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