Lisboa |
Patriarca celebra com a cruz da primeira Missa no Brasil há 525 anos
“Perante a cruz, nós somos irmãos”
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O Patriarca D. Rui Valério presidiu à Missa na Capela da Embaixada do Brasil em Lisboa, na presença da cruz que esteve na primeira celebração eucarística em terras brasileiras, em 1500. A celebração teve lugar na manhã desta segunda-feira da Semana Santa, dia 14 de abril, por convite do embaixador do Brasil em Lisboa, Raimundo Carreiro, em homenagem aos 525 anos da primeira Missa celebrada no Brasil, pelo frade português Henrique Coimbra, em Santa Cruz Cabrália, no atual estado da Bahia, e como parte das comemorações dos 200 anos da assinatura do Tratado de Paz, Amizade e Aliança entre Brasil e Portugal (1825).

“Desejamos viver esta Eucaristia muito na configuração da primeira Eucaristia celebrada há 525 anos, onde até o celebrante estava o ar livre – e, portanto, aqui, estamos todos, literalmente, na mesma barca. Gostaria, do fundo do coração, de agradecer às autoridades, aos responsáveis do Brasil, aqui na pessoa de sua excelência o senhor embaixador. É um dia, este, de memória e, por isso, também, é um dia de esperança”, começou por salientar o Patriarca de Lisboa.

A Missa foi concelebrada pelo Núncio Apostólico, D. Ivo Scapolo, que é o decano do Corpo Diplomático em Portugal, e pelo Padre Omar Raposo, reitor do Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor e capelão oficial da Capela da Embaixada do Brasil em Lisboa. “É um dia de memória, porque sobressai o sentido da história, o sentido de um caminho percorrido. Na medida em que uma vida, um país, tem sentido de memória, tem grandeza, coragem, ousadia para se lançar na esperança”, acrescentou D. Rui Valério.

 

Valores da cruz

Na presença de parlamentares brasileiros e membros do corpo diplomático acreditado em Lisboa, o Patriarca refletiu depois sobre “os valores” captados “a partir da cruz”. “Primeiro, a cruz é formada por dois troncos que estão não paralelos, não um sobreposto ao outro, mas estão entrecruzados. E uma nação como o Brasil, que se inspira na cruz, é por natureza um país que promove o encontro, é um país de comunhão. É um país que é irmão de todo o homem e mulher de boa vontade, independentemente da sua proveniência, independentemente da sua geografia. Um país que se coloca à sombra da cruz, é um país que gera cidadãos que têm a realidade, a procura do encontro com o outro, com o tu, no seu ADN. E o Brasil é isso, verdadeiramente”, considerou.

Prosseguindo nos “valores que provêm da cruz”, D. Rui Valério referiu depois que “um dos troncos da cruz está na vertical”. “Esta verticalidade da cruz significa personalidade, significa carácter, significa força de resiliência, capacidade de não se vergar”, explicou, destacando que “o povo do Brasil é isto”. “Independentemente das suas muito ou poucas dificuldades, é um povo que está sempre de pé, é um povo de carácter”, assegurou. O tronco da cruz, reforçou, “assenta, por um lado, no chão, na terra, na solidez dessa memória”, mas “por outro lado, abre-se à plenitude do alto, à plenitude do céu, que é a evocação, aqui, realmente, da fé”.

Quanto ao “tronco da cruz que está na horizontal”, D. Rui Valério explicou que significa “os braços abertos, obviamente”. “É o acolhimento do outro na sua identidade própria, na sua especificidade, é o símbolo, por excelência, da comunhão”. “Aquele tronco na horizontal significa igualdade, porque quando nós padecemos do sentimento de superioridade tendemos a olhar para os outros de cima para baixo. Quando padecemos do sentimento culpado da inferioridade, de baixo para cima. Mas quando nós nos sentimos em pé de igualdade, como é que nós nos olhamos? Na horizontalidade. O que significa que, perante a cruz, iluminado por ela, todo o ser humano, independentemente de quem é, independentemente do que lhe vai na cabeça, independentemente do que lhe reveste o corpo na cor da pele, independentemente dos credos, nós somos, fundamentalmente, irmãos. E a cruz convida-nos a isso. Ora, são estes valores que povoam a memória de um povo que é o Brasil. Parabéns”, manifestou.

 

Esperança

Na homilia da celebração, o Patriarca de Lisboa observou ainda que, “em Portugal, serão poucas as famílias que não têm uma relação de cariz familiar com o Brasil”. E partilhou a história do seu Avô António. “Ele viveu ali a alguns quilómetros perto de Fátima, nos anos 20, e emigrou. Na altura, não era para França, nem para Alemanha, que se emigrava, mas para o Brasil. Na sequência dele, lá estão e ainda hoje tenho familiares no Brasil, em São Paulo, em São Caetano do Sul, mais propriamente”, contou.

“O Brasil é um país irmão, mas tão próximo de todos nós e de cada um. Todos nós temos uma história que envolve essa nação irmã. É uma nação de esperança. Esperança exatamente porque sabe cultivar, cuidar, sabe assentar todo o seu progresso – que faz parte, inclusivamente, do grande lema ‘Ordem e Progresso’ do Brasil –, mas faz parte, exatamente, da sua identidade como nação. A esperança também ela está ligada profundamente ao sinal da cruz”, desenvolveu.

No início da Semana Santa, D. Rui Valério terminou a reflexão assegurando que, “iluminados pela cruz, há esperança mesmo quando estamos em baixo, quando estamos caídos”. “A esperança é isso, é a força que se sente interiormente, no coração, para, em todos os momentos, ver o começo, o início de um novo caminho, de uma nova vida. E isso tem sido muito a síntese da história das nossas nações: pelas vicissitudes que têm ultrapassado, nós, como cidadãos de nações assim tão esperançosas, nunca, nunca, vimos as nossas nações a desistirem. Cada crise é uma nova oportunidade, cada queda é um motivo para se reerguer, com mais força e com mais convicção. Cada derrame de suor, de cansaço, é motivo para renovar a força do caminho”, concluiu, na presença da relíquia que pertence ao Tesouro-Museu da Sé de Braga e que vai seguir, agora, em peregrinação rumo a várias cidades do Brasil até o fim do mês.

No final da Missa, o Patriarca abençoou a Chancelaria da Embaixada do Brasil em Lisboa, que tinha sido reinaugurada no passado dia 10 de janeiro. D. Rui Valério tirou depois a tradicional ‘foto de família’ e teve oportunidade de pegar na cruz da primeira Missa celebrada no Brasil, há precisamente 525 anos.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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