Lisboa |
Semana Nacional Cáritas: ‘Catequese sobre a Caridade’ e Missa
“A caridade é o coração da vida do cristão”
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O Patriarca de Lisboa lembrou que “a caridade não é só um sentimento”, mas “é um fazer”. Numa catequese integrada na Semana Nacional Cáritas, D. Rui Valério salientou que “a caridade tem esta força de essencialidade” e é “o que dá sentido à nossa vida”, enquanto na Missa falou do “sonho de transformar o mundo” e de “recuperar para Deus a própria sociedade”.

Foi em tom de agradecimento aos colaboradores e voluntários da Cáritas que o Patriarca de Lisboa iniciou a ‘Catequese sobre a Caridade’, que teve lugar na tarde deste sábado, dia 22 de março, na igreja paroquial de Queluz. “Cumprimentar, com sentimento de gratidão, todos aqueles que são as pedras vivas da Cáritas. É um projeto, mas é muito mais do que um projeto no meio de nós. A Cáritas, realmente, é o próprio rosto do Bom Samaritano de Cristo que, permanentemente, não deixa de alcançar a cada um e a cada uma na cidade, na vila, na aldeia, na circunstância da sua vida, cruza-se com ele para apreender, perceber, captar aquilo que é o motivo, porventura, da sua queda. A nossa Cáritas está de parabéns, porque verdadeiramente é um sacramento no tempo, na história, no dia a dia, é um sacramento daquela atenção da qual faz parte um olhar penetrante do próprio Deus, para compreender o motivo profundo daquele sangue, daquelas lágrimas, daquela dor que escorre a partir da vida, da existência de alguém”, saudou.

Na presença do presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa (CDL), Luís Macieira Fragoso, e de membros de outras instituições sociais, D. Rui Valério salientou depois que “a caridade não é só um sentimento”. “A caridade, como bem depressa compreenderam os primeiros cristãos, os cristãos da primeira Igreja, a caridade é um fazer. E São João foi até mais longe: é uma sabedoria, é um saber fazer”, lembrou. Neste sentido, questionou: “Houve alguma ação realizada por Jesus que não tivesse sido feita na caridade? Houve alguma palavra, algum sermão, algum discurso, algum ensinamento, alguma ordem de Jesus que não tivesse sido produzido pela caridade? Houve algum pensamento que não tivesse sido pela caridade? Houve algum sentimento que não fosse um sentimento envolvido de caridade? Santo Inácio de Loyola ensaiou dar resposta para dizer que não”.

 

Essencial

Nesta catequese, falando a diversos voluntários de Cáritas Paroquiais – em que se destacava um numeroso grupo da Cáritas Paroquial de Turquel, na Vigararia de Alcobaça-Nazaré –, o Patriarca apelou ao “conhecimento amoroso” dos que precisam de ajuda. “Para conhecer o meu próximo, o que está à minha frente, esse conhecimento tem que ser um conhecimento amoroso, um conhecimento de Cáritas. Se não for, é um conhecimento frio, que não capta aquilo que é a essência do ser humano. Pensai em todas aquelas experiências vividas por alguém interiormente e que nós olhamos e verificamos o que é que este homem precisa, o que é que este rapaz precisa. Tem casa, tem mesa, tem cama, tem roupa lavada, que mais quer? É um conhecimento frio. Tudo aquilo que tu precisas tens, mas o ser humano não se esgota nessas necessidades, nessas dimensões. O ser humano quer algo mais”, garantiu, reforçando que “o fundamento do conhecer tem que ser a caridade, é a caridade”.

“Se falta o amor naquilo que tu fazes, tenho pena, mas não estás a ser diferente de uma máquina. O que garante o carácter do humano ao que o humano faz é a caridade. Como é possível eu dizer a alguém que o seu futuro não é um futuro de amor, um futuro de abraço, um futuro de hospitalidade, um futuro de acolhimento. É um futuro horrível se for um futuro sem amor. Por isso, a própria esperança radica, fundamenta-se na caridade”, acrescentou.

D. Rui Valério considerou, por isso, que “a caridade tem o estatuto de ser essencial”. “Sem a caridade, nada é possível que seja bom, belo, verdadeiro. A caridade remete para algo de essencial. O que é que é essencial? Essencial é eu estar a dizer que só na caridade se pode, é possível acontecer, realizar, pensar, que não podemos jamais prescindir dela em todas as dimensões do nosso viver, do nosso agir, do nosso operar. Portanto, a caridade não está só presente na nossa atitude para com o outro, de serviço ou de entrega, é omnipresente em tudo o que nós fazemos. A caridade tem esta força de essencialidade”, assegurou.

 

“Não posso não fazer”

O Patriarca de Lisboa explicou ainda por que o cristão tem de viver na caridade. “Nós, na Cáritas, agimos. Não esperes que haja respostas lineares, límpidas, contundentes para aquilo que estás a fazer. Porque é que fazes isto? A resposta é só uma: não posso não fazer. Ponto final, parágrafo. A caridade tem este estatuto de essencialidade na vida, por isso, todo o ser humano, para ser ser humano, só é ser humano se viver na caridade. Viver na caridade é viver na essencialidade. Se tu não queres que a tua existência seja transcorrida nas ramas, no acidental, mas se tu queres dar um carácter à tua vida do essencial – que é aquilo que o cristão tem que ser – tu tens que viver na caridade. Não há outra forma. E caridade é isto: faço porque não posso não fazer, digo porque não posso não dizer, penso porque não posso não pensar. Isto significa caridade, o essencial. Por isso Jesus a colocou como o mandamento, por excelência, o coração da nossa vida”, garantiu.

“Caríssimas e caríssimos, o cristianismo é a arte e a sabedoria do essencial. Não estamos cá para passar tempo, deslocarmo-nos junto ao pobre, atendê-lo e ouvi-lo, não é um passatempo, não é uma coisa que nós poderíamos até nem fazer”, alertou. “Volto a enfatizar: a caridade é na essencialidade, é o que dá sentido à nossa vida. A Igreja ou é isto ou anda a ver passar a vida. Aqui, estamos na arte do essencial. E aquilo que os voluntários, quem está envolvido na caridade, em qualquer dimensão, instituição, o que for, está no desenvolvimento do essencial. Aquilo que nós fazemos e não podemos não fazer”, reforçou D. Rui Valério.

 

Teofania hoje

O Patriarca de Lisboa terminou a ‘Catequese da Caridade’ referindo “o trecho de Mateus 25, que todos nós conhecemos, obviamente”, e a “teofania, hoje”, ou seja, a revelação de Deus. “Hoje, se tu procuras uma teofania de Deus no monte, e pensas que vai aparecer em fogo e assim, esquece. Onde é a teofania? Teofania, hoje, por vezes é atrás de uma secretária quando tu atendes o telefone, hoje a teofania acontece quando tu estás a distribuir alimentos, hoje a teofania acontece quanto tu te disponibilizas para escutar quem necessita, a teofania é quando vais visitar o teu irmão doente. Portanto, esta identificação de Cristo com o meu irmão”, explicou.

Mas “atenção”, acrescentou, “há uma segunda sabedoria nesta página” de Mateus 25. “Até que o mendigo, o pobre, o faminto, o prisioneiro, o doente esteja sozinho é só isso, é um pobre coitado de quem não se sabe nome, não se sabe identidade, não se sabe quem é. Mas a partir do momento, segundo as palavras de Jesus, em que tu tens fome e encontras quem tem fome e lhe dás de comer, em que tu encontras quem tem sede e lhe dás de beber, em que tu recolhes o sem-abrigo, em que tu vestes quem anda desmudado, em que tu visitas quem está na prisão ou quem está doente, e quando tu fazes isto, o que é que acontece àquele pobre anónimo que está ali? Ganha a identidade a mim, a Cristo. Pela caridade, nós instituímos no mundo a outra parte, a outra face da Eucaristia. Quando tu dás de comer a quem tem fome, dás de beber a quem tem sede, visitas quem está doente ou na prisão, pessoa anónima, sem rosto, ganha identidade. «É a Mim que fizeste». Faz-se acontecer Cristo. Pela caridade, nós podemos povoar o mundo de muitos Cristos. Quando a sociedade, ou alguém, se queixa que Deus está longe, que Deus está ausente, se calhar é porque nós não estamos com a força da caridade, com a força do amor, não estamos a fazer com que até aquele sem-abrigo seja Cristo. Mas é Cristo na medida em que eu vou ao encontro dele”, terminou D. Rui Valério.

 

O sonho de transformar o mundo

Após a ‘Catequese sobre a Caridade’, o Patriarca de Lisboa presidiu à Missa e sublinhou a “grande esperança que Deus deposita em cada um de nós, em ti”. “A sua esperança é motivada, é sustentada pelo amor. Um amor, como nós refletíamos há pouco, um amor que não é mero sentimento, mas o amor que se transforma em ação, transforma-se em serviço, transforma-se em fazer”, recordou.

Desta forma, alertou os cristãos para a necessidade de “não desistirem” do “sonho de transformar o mundo”. “Que o mundo no qual vivemos, venha a ser como este terreno fértil onde as figueiras, onde as pessoas, os homens e as mulheres, sejam homens e mulheres a produzir bons frutos. Frutos de caridade, frutos de esperança, frutos de fraternidade, frutos de serviço, frutos de solidariedade. Caras irmãs e irmãos, no horizonte da ação da caridade nós contemplamos um mundo que é já um jardim. Um jardim florido onde cada árvore produzia frutos maravilhosos e apetitosos. O mundo está convocado para se transformar num jardim onde essas plantas e essas flores já não são apenas os arbustos, já não são apenas os vegetais, já não é apenas a flora, mas onde agora, esse jardim, as suas flores e as suas árvores somos nós. Mas para isso, com o poder da caridade, vamos preencher e vamos transformar o ambiente, o contexto do mundo e da sociedade. Que este Jubileu da Caridade nos tenha remetido para esta urgência: não vamos apenas para saciar a fome a quem nos procura com fome, para dar roupa a quem se aproxima de nós estando meio denudado, não deixemos de o fazer, mas não nos limitemos a visitar quem está só. Temos um horizonte mais vasto: recuperar para Deus o próprio mundo, a própria sociedade”, terminou.

 

Caminhada do Jubileu da Caridade

Antes da ‘Catequese sobre a Caridade’, decorreu a Caminhada do Jubileu da Caridade, que teve início junto à igreja paroquial da Amadora e que rumou até à igreja paroquial de Queluz e procurou ser, segundo a Cáritas Diocesana de Lisboa, “um momento simbólico” que refletiu “o percurso de proximidade e apoio que a Cáritas de Lisboa percorre diariamente junto de quem mais precisa”.

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