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Patriarca de Lisboa visita Colégio do Ramalhão
“Este colégio está ao serviço do homem renovado, para mudar a sociedade e o mundo”
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O Patriarca de Lisboa visitou na manhã desta segunda-feira, dia 17 de março, o Colégio de São José do Ramalhão, em Sintra. Aos quase 800 alunos dos 3 anos ao 12.º ano, D. Rui Valério pediu gestos concretos de paz, contou a história da sua vocação e deixou a indicação de como viver bem a Quaresma.

No âmbito do dia de São José, que a Igreja celebra a 19 de março, o Patriarca de Lisboa realizou uma visita pastoral ao Colégio de São José do Ramalhão, uma obra com mais de 80 anos de história, fundada em 1942, pelas Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, e que desde 2013 é gerida pela APECEF – Associação para a Educação, Cultura e Formação, uma instituição particular de solidariedade social fundada em 2001, pelo Padre João Seabra.

D. Rui Valério foi recebido, pelas 10h00, no Pátio Central, por Isabel Almeida e Brito, reitora dos colégios da APECEF, e por Miguel Abranches Pinto, reitor do Colégio do Ramalhão, e ainda pelos alunos, que seguravam, muitos deles, a bandeira do colégio.

 

“Cristo conta convosco”

Após o acolhimento, seguiu-se a visita à capela, onde, após um momento de oração, o Patriarca dizia estar a “transbordar de alegria pelas maravilhas que o Senhor tem feito na vida de cada um”. “Estando o mundo como está, não haja dúvidas que as traves da humanidade começam a ganhar caruncho. Mas este colégio está ao serviço do homem renovado, para mudar a sociedade e o mundo. Não sou eu que conto convosco, é o mundo precisa de vocês. A Igreja precisa de vocês, mas Cristo conta convosco”, assinalou, desde logo, no primeiro contacto com os alunos reunidos na capela.

D. Rui Valério entregou depois ao reitor do Colégio do Ramalhão a sua carta pastoral «Dai razões da vossa esperança», sobre a esperança cristã, que foi escrita “fruto da minha oração”, segundo explicou, e também a medalha comemorativa da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, com os patronos da JMJ.

 

Fé, morte, perdão e guerra

Devido às condições atmosféricas adversas, que não permitiam um encontro alargado ao ar livre, a organização dividiu por ciclos escolares as assembleias do Patriarca de Lisboa com os alunos. Na primeira de quatro assembleias, D. Rui Valério falou aos alunos mais velhos, do 3.º Ciclo e Liceu. Na ocasião, o reitor Miguel Abranches Pinto começou por referir que “o que é verdadeiramente humano é fazer perguntas” e que o objetivo do colégio “é ensinar estes jovens a fazer as perguntas certas e a questionarem-se”. Neste sentido, foram feitas quatro questões ao Patriarca.

À primeira questão, sobre ‘Como aproximar mais de Deus e manter a fé em momentos de dúvida’, D. Rui Valério lembrou que “a fé está na nossa maneira de olhar e de nos relacionarmos, com Deus e com os outros”. “A fé é atitude de entrega a Deus. E este ardor pode ter dias, contudo nunca te esqueças que a nossa entrega é responder à entrega de Alguém”, salientou. “Eu acredito em Deus porque O amo, mas sobretudo porque Ele acredita em mim, sempre. Deus dá-se sempre por mim. Ele confia em ti, acredita sempre em cada um de nós, mesmo quando fazemos asneiras”, acrescentou.

Questionado depois se ‘É normal ter medo de morrer?’, o Patriarca garantiu que é “normal, ou natural, por três razões”. “Todo o ser vivo teme a morte, porque a morte embora faça parte da vida, a vida está feita não para morrer, mas para viver. Nessa medida, é natural que se receie, porque é contranatura”, apontou. “Depois, é o desconhecido. Um dos últimos poemas de Fernando Pessoa é sobre a morte: ‘A morte é a curva da estrada da vida’, diz Pessoa, porque numa curva não sabemos o que lá vem”, explicou. Na terceira e última razão, “há dois níveis: há a ‘morte’ natural, do processo natural da vida, quando adormecemos, por exemplo, e da qual regressamos, mas há também a morte da qual não há regresso. Jesus veio não para vencer a primeira morte, mas a segunda”.

A terceira pergunta teve como foco o perdão: ‘Porque é que demoramos tanto tempo a perdoar alguém?’, perguntaram. “Fechem os olhos e fixem a palavra PERDOAR. Tentem encontrar uma palavra que tenha a mesma raiz. Ninguém lá chega? Eu ajudo: perder. Vocês gostam de perder? Não… Então, já respondes-te. Não há perdão sem haver disposição interior para aceitar que, se calhar, não tenho toda a razão. Nós estamos a ser formados para ganhar, não para perder. Antropologicamente, temos aqui a resposta a esta pergunta”, começou por responder D. Rui Valério, reforçando: “Na tão desejada paz entre Ucrânia e Rússia, ou entre Israel e Palestina, é necessário haver algum perdão para que a paz aconteça. Não há esta disposição interior para a perda”.

Numa “segunda abordagem” à questão, o Patriarca assinalou que “o perdão não é desculpar, é mais”. “É outra coisa que o ser humano só pela experiência de se sentir perdoado é que é capaz de perdoar. Todos aqui somos perdoados, porque o perdão verdadeiro é de Deus. Deus perdoa e, desse perdão, perdoamos os outros”, apontou.

A última questão prendeu-se com a guerra e a necessidade de militarização dos países europeus. “É uma pergunta pertinente e atual, e devemos sempre distinguir duas coisas: os fins e os meios. Tenho dificuldade em usar a palavra militarização assim, sem mais, mas qual o grande fim que está a ser posto em causa? É necessário defender a paz, que está comprometida. Valores como a dignidade e a liberdade do ser humano estão a ser espezinhados. Então, em primeiro lugar tem de haver oração, que é inquebrantável e vale muito, tem muita força. Em segundo lugar, a diplomacia, ou seja, o diálogo. Porque a militarização não é um fim. Aliás, os militares são as pessoas mais pacíficas que conheci”, respondeu, assegurando: “Sou anti militarização, sou pacifista, sou pela vida, sou pela paz”.

No final, “como sinal de gratidão e como sabem que o Senhor Patriarca gosta de correr”, segundo o reitor, os alunos entregaram a D. Rui Valério uns sapatos de corrida e uma sweatshirt. “Hoje, eram 6h30 e fui correr uma hora e meia. É um momento em que medito e rezo. É um tempo de comunhão com Deus, com os outros, com a natureza e connosco”, explicou o Patriarca.

No final da assembleia, D. Rui Valério descerrou uma placa que assinala a sua visita ao Colégio de São José do Ramalhão, no dia 17 de março de 2025.

 

Amar

Após um encontro com a direção do colégio, D. Rui Valério visitou o Pré-Escolar. “Há uma Pessoa que quer estar sempre connosco, no nosso coração: Jesus. Ele não quer que nenhum mal nos aconteça e quer que no nosso coração não haja violência, rancor, nem coisas más, só coisas boas. Jesus está sempre no nosso coração”, referiu às crianças de 3, 4 e 5 anos, que depois cantaram a “canção a Jesus que rezam todos os dias”, segundo explicou o professor de Música.

O Patriarca contou ainda a parábola do Bom Samaritano para explicar aos mais pequenos “a importância de ajudar os outros”. “A coisa mais importante da vida é amar os outros, todas as pessoas. Não há nada mais importante”, resumiu.

O encontro terminou com a oferta de um terço feito pelas crianças e com os tradicionais ‘dá cá cinco’ aos mais novos.

 

Livros, vocação, Milagre do Sol e Jesus

A terceira assembleia foi com os alunos do 1.º Ciclo e teve início com a oração do Angelus. A primeira pergunta foi, depois, sobre os livros que está agora a ler. D. Rui Valério referiu que “todos os dias” lê “umas páginas” do “livro de oração e meditação de São Francisco de Sales ‘Tratado do amor de Deus’”, mas também “um outro livro que ajuda a estudar, a pensar e a compreender melhor o que é Deus e as pessoas, do autor francês Marcel Olivier” e ainda uma terceira obra “que ajuda a cuidar a linguagem, ‘Cem anos de solidão’, de escritor latino americano”, Gabriel García Márquez. “Leio também, todos os dias, o livro mais importante da nossa vida, a Bíblia. A leitura é imprescindível para a vida”, lembrou o Patriarca.

Sobre o chamamento de Jesus para ser padre, D. Rui Valério lembrou a infância, numa terra perto de Fátima, em que rezavam o terço todos os dias com a avó e os pais, e também o dia em que se queimou numa perna, com 7 anos, e o tempo no hospital, onde “também rezava e sentia a proximidade com Jesus”. “Ainda hoje digo que Jesus não está longe de mim, está aqui. Senti-me sempre acompanhado por Jesus e foi aí que me senti chamado por Ele”, partilhou.

Questionado, depois, se ‘É verdade que a avó do Senhor Patriarca viu o Milagre do Sol?’, o Patriarca confirmou e lembrou “o dia 13 de outubro de 1917, em que a Avó Júlia teria 17-18 anos”. “Ela contava que nesse dia chovia torrencialmente e que quando pára de chover, o sol começou a bailar, a andar à roda. E depois do sol bailar, dizia ela, o chão ficou enxuto. Foi o momento mais importante da vida dela. Aliás, não havia um dia em que a Avó Júlia não falasse disso”, gracejou.

A última questão foi sobre como ser mais amigos de Jesus. “É a coisa mais fácil que existe: é dar-Lhe espaço na nossa vida. Quem é amigo, está fisicamente e anda sempre no nosso coração. Esse é o segredo: ser amigo de Jesus é tê-lo no coração”, respondeu. “E Jesus pede para fazermos duas coisas por Ele: que todas as semanas nos encontremos com Ele, onde Ele está, na Missa; e pede também para amarmos os outros”, acrescentou D. Rui Valério, que depois recebeu de oferta diversos livros publicados pelo colégio nos últimos anos.

 

Ser Patriarca, episódios bíblicos e Quaresma

A última assembleia foi com os alunos do 2.º Ciclo. ‘Pode contar-nos como recebeu a notícia de que seria Patriarca de Lisboa?’, perguntaram. “Foi no dia 26 de junho de 2023 e recebi a notícia com incredulidade e surpresa, porque Lisboa é tão grande e eu sou tão pequenino… mas o que me mobilizou foi que se é vontade de Deus, certamente não estou sozinho. Sou um ajudante, Ele é que é o verdadeiro Pastor e, nestes anos de serviço, estou cá para O ajudar”, contou.

Sobre o episódio bíblico que mais gosta, D. Rui Valério garantiu que “são vários” e que gosta “de todas as frases e palavras da Bíblia”. “Vou escolher três: o primeiro que me fascina é o momento da Criação, quando Deus está a criar as pessoas e descubro como somos preciosos; em segundo, a história de José, que é a história de cada um de nós, porque Deus está sempre connosco, aconteça o que acontecer; em terceiro, do Novo Testamento, o episódio dos discípulos de Emaús, quando Jesus ressuscita e coloca-se no meio dos dois discípulos. É importante, porque por vezes queremos desistir e Jesus recorda-nos que o problema não está nas coisas, mas em nós”, partilhou o Patriarca.

A manhã ia longa e a última pergunta dos alunos do Colégio do Ramalhão foi sobre o tempo litúrgico de preparação para a Páscoa. ‘Como posso viver bem a Quaresma?’, questionaram. “É uma pergunta atual. Só há uma maneira: nunca o fazermos sozinhos. A Quaresma é um tempo para nós estamos mais tempo com Jesus. Tudo, tudo, tudo, sempre com Ele. Fazer seja o que for com Jesus. A Quaresma é estarmos com Jesus”, respondeu D. Rui Valério.

A visita do Patriarca de Lisboa ao Colégio de São José do Ramalhão, em Sintra, terminou com um almoço com a direção do Colégio e o encontro com as irmãs da Comunidade Dominicana que vivem no Ramalhão.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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