O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, benzeu o novo equipamento social da associação O Companheiro, situado em Benfica, que dá vida ao sonho do Padre Dâmaso, o ‘padre das prisões’ falecido em 2018, e vai permitir “uma vida nova e um recomeço” aos ex-reclusos.
Na presença do Presidente da República e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na tarde desta quinta-feira, dia 13 de fevereiro, o Patriarca começou por deixar uma “palavra de memória”. “Há uma figura que hoje é incontornável, o Padre Dâmaso, que é o pai e o avô desta maravilhosa instituição. Quando nós falamos do Padre Dâmaso, estamos a falar de um homem que era, todo ele, projeto, projeto de entrega, de dedicação”, recordou D. Rui Valério, deixando também um “agradecimento” a quem, “na senda do exemplo” deste sacerdote, prossegue esta obra. “O objetivo desta obra não é apenas uma promoção de condições de vida, é a possibilidade de dar a alguém uma vida nova, um recomeço”, acrescentou. Considerando O Companheiro um “projeto maravilhoso”, o Patriarca destacou depois a palavra “esperança”. “Isto só está a ser inaugurado hoje para acontecer no Ano Jubilar da esperança”, apontou. “A esperança, como nos recordava o Papa Francisco, é transformar tudo na vida – mesmo as dificuldades, mesmo as agruras, mesmo as contradições – em projeto, em promessa e em semente”, completou. “Para mim, é uma enorme honra, um privilégio e até um orgulho poder fazer parte de uma página escrita a letras de ouro, como nós estamos aqui a viver. Porque é realmente um projeto onde sobressai o que de melhor o ser humano transporta dentro de si, esta disponibilidade de dar a mão ao outro, sobretudo quando este outro é vulnerável, sobretudo quando este outro é alguém que aquilo que encontra na vida são portas que se fecham. É uma graça nós podermos participar neste projeto maravilhoso, porque estamos aqui a consagrar o que de melhor o ser humano tem em si e traz em si, num projeto de inclusão e de solidariedade”, terminou D. Rui Valério. Após as breves palavras, o Patriarca benzeu as novas instalações. “Prosseguimos com a bênção, que invocamos a Deus, para o edifício, mas sobretudo para aqueles que o habitam, seja na sua vertente de residente, seja na sua vertente de colaborador”, salientou. A nova casa A bênção e inauguração do novo equipamento teve lugar no dia em que O Companheiro celebra 38 anos de vida. A cerimónia teve início com a visita aos vários edifícios. Primeiro, o espaço onde estão as diversas camaratas que vão permitir aos utentes pernoitar. Alguns são quartos individuais, mas há também duplos e até triplos. Ao lado, num edifício mais pequeno, onde estão as oficinas de carpintaria e outras. Finalmente, também o refeitório e a cozinha foram visitados pelos convidados. No novo equipamento social da associação O Companheiro, há ainda um banco de roupa, uma sala de jogos e convívio e diversas salas de apoio. Tudo para proporcionar uma nova oportunidade de vida aos utentes desta casa situada em Benfica e que tem como assistente o Padre António Ramires. As quatro lições Na sessão solene, o Presidente da República apontou que a “primeira lição” daquele momento “chama-se Padre Dâmaso”. “É um exemplo de como um migrante faz a vida diferente a uma sociedade onde chega. Ele era único. Grande orador, que apaixonava. A sua grande obra foi a dedicação aos outros, porque os reclusos era uma área da pastoral muito difícil. Tinha uma grande coragem e teimosia. E ainda bem que foi teimoso. Se não fosse, havia O Companheiro, mas não havia estas instalações, só no século XXII…”, frisou Marcelo Rebelo de Sousa. Como “segunda lição”, destacou “a obra d’O Companheiro e do presidente Nuno Abecassis, outro teimoso”, salientou, referindo-se ao antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1980 e 1990. “Foi um grande autarca, que tinha sempre fé no que fazia”, observou. “Esta é uma gota no oceano, mas é com muitas pequenas gotas que se realizam mudanças”, acrescentou. O Chefe de Estado lembrou ainda, como “terceira lição”, que “é preciso encontrar, neste percurso, aliados”. “Em maio de 2018 visitei a associação, nos velhinhos pré-fabricados e era a visita de despedida… despedida alegre, porque víamos instalações sonhadas. Sete anos depois, fez-se a renovada despedida”, referiu, lamentando o muito tempo de espera. Marcelo Rebelo de Sousa apontou como “quarta lição, e a mais importante”, que aquela é “uma lição para todos”. “O que define cada homem e cada mulher é que é capaz de se refazer. Ou acreditamos nisso e falamos em fraternidade, ou não vale a pena. Nunca descrer, nunca desistir, nunca achar que é tarde demais. O Companheiro esteve neste caminho com essa esperança, essa teimosia, essa fé. Precisamos de mais ‘Companheiros’. Muito obrigado, em nome de Portugal”, terminou o Presidente da República. Uma cidade que cuida Antes tinha falado o presidente da Câmara Municipal de Lisboa que começou por “pedir desculpa por ter sido tanto tempo” para acontecer a inauguração das novas instalações. Depois, Carlos Moedas lembrou o “incansável o Padre Dâmaso, o ‘padre das prisões’, um homem que sonhou ser missionário, mas que veio com 27 anos para o nosso país”. “Foi mais que um capelão dos estabelecimentos prisionais, foi um arquiteto da esperança”, apelidou. Considerando as novas instalações “um espaço que o Padre Dâmaso merecia ter visto em vida”, o autarca lisboeta destacou que aquela é “a casa da esperança, a primeira página de uma nova história”. “O Companheiro é uma instituição incrível, porque quando se sai da prisão não se precisa de esmola, mas de uma mão amiga. Esta casa oferece sonhos e devolve autonomia”, frisou. Carlos Moedas sublinhou igualmente que esta obra é “um exemplo do estado social local” e desejou que Lisboa seja “uma cidade cuidadora, que age junto de todos”. Visão e dinamismo Já o presidente da Junta de Freguesia de Benfica considerou aquele “um dia feliz para Benfica, para O Companheiro e para Lisboa”. “Em 1998, a Junta foi desafiada pelo Companheiro para o acolhimento dos ex-reclusos, que conseguiram recriar as suas vidas. O Companheiro é um companheiro de pleno direito da junta de freguesia”, garantiu Ricardo Marques, na presença também do pároco in solidum (moderador) da Paróquia de Benfica, Padre Nuno Rosário Fernandes. A sessão solene teve início com o presidente da direção d’ O Companheiro a “agradecer, em nome dos que a obra se destina”, e a lembrar o Padre Dâmaso, fundador da associação. “Foi graças à sua visão e dinamismo que foi possível cumprir esta obra. Estará satisfeito, junto ao seu ‘Jesus fantástico’”, destacou João Marques Almeida. No final da sessão solene, foram cantados os Parabéns pelos 38 anos de vida d’ O Companheiro, cumpridos neste dia de inauguração das novas instalações. O Companheiro Fundado em 1987 pelo Padre Dâmaso Lambers (1930-2018), O Companheiro é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos e de utilidade pública, que promove a reintegração na sociedade e previne a reincidência criminal, trabalhando na inclusão psico-socio-profissional de reclusos, ex-reclusos e das suas famílias. Presta acolhimento, inserção, orientação, acompanhamento e gestão de soluções dinâmicas e únicas, focadas na necessidade da pessoa. “O Companheiro surgiu pela mão do Padre Dâmaso que, na sequência de visitas a prisões, percebeu que a população reclusa não tinha quaisquer apoios após o cumprimento da pena, sendo assim muito difícil a sua reintegração na sociedade, principalmente em casos de rutura familiar, afetiva e social. Aliás, os indivíduos tinham mais apoio durante o cumprimento da pena, e esse apoio terminava abruptamente uma vez fora dos estabelecimentos prisionais”, explica a instituição que tem como lema ‘Para que não haja homem excluído pelo homem’.![]() |
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