Lisboa |
Encontros de Santa Isabel 2025
“Ano Jubilar tem que ser um tempo e uma época de esperança”
<<
1/
>>
Imagem

O Patriarca de Lisboa deseja que “o nosso tempo”, e em particular “o Ano Jubilar”, seja “um tempo de esperança”. “Que seja a esperança a esculpir a nossa época e as nossas vidas”, insistiu D. Rui Valério, que falava nos Encontros de Santa Isabel, sobre ‘Caminhemos na Esperança: o Ano Jubilar’.

“Gostaria, convosco, de acolher esta proposta do Papa Francisco de caracterizar o Ano Jubilar com a esperança. Tem que ser um tempo de esperança, uma época de esperança”, referiu o Patriarca de Lisboa, na noite desta segunda-feira, dia 13 de janeiro, na iniciativa da Paróquia de Santa Isabel. “Isso remete-nos imediatamente, ou transporta-nos, para grandes momentos e ocasiões históricas. Uma coisa foi certa: é que quando tudo o resto faltou, tudo o resto esteve ausente, permaneceu a esperança. Diz-se, no ditado português, que ‘a esperança é a última a morrer’. Eu não sei se alguma vez a esperança vai morrer. Morrerá no dia em que o sentido do que é ser promessa se desvaneceu”, alertou.

No auditório da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, D. Rui Valério parafraseou depois Martin Heidegger, filósofo, escritor, professor e reitor universitário alemão, para reforçar que “só na esperança nós somos salvos”. “Ele dizia, ali nos anos 60, numa entrevista que lhe foi feita, e o entrevistador insistia que ele, enfim, se pronunciasse sobre o estado, o mundo, a sociedade, o século e, então, ele teve esta exclamação: ‘Certo, só um Deus nos pode salvar’. E eu hoje, parafraseando um pouco esta esta exclamação de Heidegger, digo: não haja dúvida que só na esperança nós somos salvos. E, desta forma, estamos também a homenagear o nosso querido Papa Bento XVI com a famosa Encíclica ‘Spe Salvi’, ‘Salvos na Esperançado’. Por isso, que o nosso tempo seja um tempo de esperança, que seja a esperança a plasmar aquele trabalho fatigoso do artesão, que seja a esperança a esculpir a nossa época e as nossas vidas”, frisou.

 

Programa Pastoral focado na esperança

Esta sessão dos Encontros de Santa Isabel foi moderada por Inês Costa Pereira, que destacou que o tema da esperança está presente no Programa Pastoral 2024-2026 do Patriarcado de Lisboa e tem “quatro grandes linhas orientadoras”, nomeadamente “aprofundar o modo sinodal de ser Igreja”, mas também “ampliar os processos de escuta e acolhimento”, “desenvolver as dinâmicas de acompanhamento e evangelização” e “valorizar a presença, participação e acompanhamento dos jovens na vida pastoral da Igreja”.

Questionado sobre “o que vai acontecer de concreto” e “o que está previsto” para este ano, o Patriarca começou por salientar que “o segredo da identidade e da ação da Igreja é a missão evangelizadora, ou a evangelização missionária”. “Quando a Igreja assume e é fiel a este desígnio, a este propósito, é uma Igreja, primeiro, que encontra resposta e sentido em tudo aquilo que a faz Igreja. A Igreja missionária é uma Igreja que, enfim, quase que automaticamente se torna Igreja sinodal. Basta, por exemplo, evocar aqui o que se passou com a nossa Jornada Mundial da Juventude: uma missão assumida imediatamente, não houve praticamente cristã ou cristão do Patriarcado de Lisboa que não tenha estado envolvido nisso. À sua maneira, com o seu contributo”, começou por responder.

Para D. Rui Valério, como segundo ponto, o “essencial” é a missão. “Quando nós somos Igreja missionária, nós encontramos e mostramos e manifestamos aquilo que é essencial. Porque é que existimos? Existimos para ser missão, existimos para ser caminho que vai ao encontro dos outros, existimos para ser comunidade que se coloca ao lado de quem caminha, para partilhar – como diz a [Constituição Pastoral] ‘Gaudium et Spes’ – as suas alegrias, as suas esperanças, mas também os seus sofrimentos e as suas dores”, apontou.

“Julgo, então, que o segredo daquilo que ressalta do enunciado destes quatro pontos é uma Igreja profundamente missionária, uma Igreja que se sente enviada, uma Igreja que está em saída. Por outro lado, aquilo que verificamos é que a missão, o ser enviado, a evangelização, foi o grande contexto, a grande moldura, onde a própria Igreja surgiu e o próprio programa, projeto, do cristianismo. Reparem, Jesus vem ao mundo integrado num plano missionário. Saiu do Pai e veio ao mundo. Os primeiros passos que Ele deu na sua vida pública foi em ordem à missão – por isso é que chamou os discípulos. E reparem que palavras é que Ele pronunciou no momento do adeus, já no momento da sua ascensão aos Céu: «Ide por todo o mundo». Portanto, podíamos quase dizer que o nosso sopro, o nosso ar que respiramos é, verdadeiramente, uma Igreja que está em saída, uma Igreja que está em missão. Julgo que só assim se torna compreensível aquilo que é a essência da Igreja”, reforçou.

‘Caminhemos na Esperança’ é o tema do Programa Pastoral 2024-2026 no Patriarcado de Lisboa. E o foco é a missão, como observou D. Rui Valério. “Quando a Igreja é verdadeiramente uma Igreja missionária, é uma Igreja participada e participativa, é uma Igreja de comunhão porque estamos juntos para a missão, estamos juntos para o anúncio. Portanto, tudo isso que está aí [no Programa Pastoral] a ser esclarecido era a manifestação de uma necessidade que é, ao mesmo tempo, uma sede de colocarmos Lisboa no estado de missão, efetivamente”, garantiu.

 

A “arte da escuta” e os “sinais dos tempos”

Na sua reflexão, o Patriarca de Lisboa destacou ainda a importância da “escuta”. “Estamos, digamos, numa dinâmica de passagem, de testemunhar, mas, verdadeiramente, há aqui um problema: é que nós temos que aprender a arte de escutar, a sabedoria da escuta. Não é por acaso que a Sagrada Escritura e a nossa cultura cristã, judaico-cristã, privilegia a escuta. Já, por exemplo, a cultura helenística era muito incisiva sobre o ver, mas nós é na escuta. E a escuta é a integração do outro na nossa vida, em nós próprios. Por isso, como ser Igreja missionária porque é uma Igreja que escuta”, manifestou.

D. Rui Valério destacou ainda a palavra “abertura”. “A outra palavra que é indispensável dizer aqui é a palavra abertura. Uma palavra aberta, uma palavra e uma alma e um coração abertos. Julgo que esse é verdadeiramente o fio que caracteriza seja a identidade, seja a missão da Igreja”, concluiu.

No debate que se seguiu, o Patriarca de Lisboa foi desafiado a partilhar a sua leitura dos “sinais dos tempos”. “A esperança está fundada não apenas numa leitura fenomenológica do real, mas numa avaliação do real a partir de uma outra Luz, de uma outra perspetiva. E nesse sentido, para mim, tudo é sinais dos tempos da esperança, tudo. Esta fadiga que a Igreja está a colocar de se colocar, toda ela, ao ritmo da sinodalidade, esta fadiga que a humanidade está em ser uma humanidade de paz, de fraternidade. Reparem nisto: Jesus poderia ter resolvido toda a questão da humanidade, e com a humanidade, há 2000 anos, num abrir e fechar de olhos. Porque não o fez? Não o fez precisamente porque acredita em nós, tem confiança em nós, tem confiança no mundo. Acho que a esperança nos reconcilia com o mundo. Mas atenção, nuca se esqueçam que a esperança é um princípio operativo, que mobiliza para construir o presente à imagem do futuro. Os sinais dos tempos, para mim, são uma temática soberba, porque é aquele capítulo onde nós atribuímos a pujança sacramental muito para além dos sete sacramentos. E nós verificamos que é possível ao ser humano, é possível à pessoa, encontrar o caminho da redenção mesmo através, às vezes, de uma situação que assiste, de um gesto que o toca profundamente e que o mobiliza para uma reconsideração da sua vida, para um recomeçar. Isto são os sinais dos tempos. São sinais, precisamente, na medida em que me indicam, me apontam para um outro horizonte e um outro caminho”, respondeu.

A última palavra do Patriarca de Lisboa, nesta sessão dos Encontros de Santa Isabel, foi sobre a importância da comunidade. “A crise da esperança é uma crise de comunidade. O isolamento, o individualismo, sim, torna as pessoas mais permeáveis ao desencanto, ao desespero. Por isso, força! Formamos Igreja, formamos comunidade, sejamos uma família para nos apoiarmos, reciprocamente, uns aos outros”, enfatizou D. Rui Valério.

Iniciados no ano 2000, os Encontros de Santa Isabel são de entrada livre e têm, este ano, como título geral ‘O Júbilo e a Esperança’. As sessões prosseguem na segunda-feira, dia 20, e no próximo dia 27 de janeiro, novamente às 21h30, o Bispo Auxiliar de Lisboa D. Alexandre Palma participa na última sessão desta iniciativa, refletindo sobre ‘A esperança e o júbilo’.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
A OPINIÃO DE
Tony Neves
‘Volta à África central em quatro subidas e aterragens’ podia ser um bom título de crónica,...
ver [+]

Guilherme d'Oliveira Martins
Javier Cercas aceitou acompanhar o Papa Francisco na viagem à Mongólia e o resultado é uma obra de antologia.
ver [+]

Tony Neves
Bangui assusta ao chegar, mas abraça ao partir. O aeroporto ainda obriga a imaginar os tempos duros da...
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Se algumas dúvidas ainda subsistissem sobre o propósito do Papa Leão XIV de dar continuidade ao caminho...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
EDIÇÕES ANTERIORES