1. Celebramos hoje o mistério da Conceição Imaculada de Maria. Um ensejo para contemplar a força da graça divina que se faz pureza sem mancha da ruga do pecado. Não chegam as disposições humanas, ou os esforços de perfeição para destronar o poder do pecado. Só a graça de Deus nos dá imunidade contra o mal, porque só ela aniquila e vence o pecado e a sua fonte.
Estamos perante um mistério deslumbrante e assombroso, ao mesmo tempo.
2. Deslumbrante, porque nos revela o infinito amor de Deus derramado sobre uma criatura que, ciente da gratuidade da sua eleição, cantou “a minha alma glorifica a Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade da sua serva”. Não foi por causa de méritos humanos ou pelo prestígio de pertencer ao povo eleito, que Deus escolheu Maria para Mãe de Seu Filho Jesus, mas pela sua humildade. Que beleza! Deus escolhe e escolhe-nos por uma opção de amor; amando-nos. Aproxima-se de cada um, vem ao seu encontro, diz-lhes que são importantes e necessários para a realização do seu projeto e desígnio salvífico, escolhe-os e chama-os. Uma escolha e um chamamento de amor; por isso transforma a pessoa escolhida, conferindo-lhe algo de Si, prerrogativas próprias, que são só suas, mas que Ele, na sua bondade infinita, comunica aos chamados e escolhidos. Maria foi eleita e chamada, como escutávamos no Evangelho, para ser a Mãe do Salvador; nesse chamamento, nessa eleição, Deus concede-lhe a graça de não ter pecado, de ser Imaculada, sem mancha. Dom maravilhoso que se justifica pela missão que lhe foi confiada como Mãe. Deus, portanto, oferece algo de só Seu a quem chama, a quem confere uma missão na sua obra salvífica. Maria é uma mulher única na história da Salvação, a quem Deus preservou do pecado; a cada um de nós concedeu, no batismo, a eleição à filiação divina, tornámo-nos membros do corpo de Cristo, recebemos o Espírito Santo e a vida divina. E, como Maria, foi testemunha e se fez Mãe dos que vieram a ser gerados para a vida eterna de comunhão, cada um de nós vive e é chamado a ser não só para si, mas para o mundo, para os outros.
3. Mas é um mistério também assombroso. Desde logo porque a vitória sobre o pecado e sobre o mal não é produzida pela violência ou pela agressividade, mas pelo amor. Maria foi concebida sem a mancha do pecado original, porque é infinita e eternamente amada pelo Pai. Afirmação da consequência prévia ao evento da própria redenção de Jesus, cujo fruto foi a libertação da humanidade da escravidão do pecado. Sim, o amor estende o efeito da redenção de Cristo para além das parcelas temporais e, por isso, foi graças à vitória da sua ressurreição salvadora, ao seu carácter meta-temporal, que hoje podemos alcançar o poderosíssimo poder da vitória da vida sobre a morte.
4. Maria dispõe todo o seu ser e toda a sua vida completamente em Deus, para que Deus ofereça e aplique em Maria o que quer estender a toda a humanidade. Nossa Senhora não só participa ativamente no processo da salvação do mundo, mas essa salvação é n’Ela que, antes de tudo, se verifica e atua. Torna-se profetisa, mas sobretudo dispensadora, daquela vida nova que, derramada n’Ela, se expande a toda a humanidade.
Caros irmãos, Maria Imaculada ajuda-nos na demanda da coerência na vida. Bem-aventurada a Virgem Santa Maria, porque feliz nos braços de Deus e porque feliz a fazer felizes os outros.
A primeira leitura (Gn 3, 9-15) transporta-nos para os primórdios da humanidade, para as paisagens inaugurais da aventura humana, onde, com a desconfiança e a desobediência dos nossos primeiros pais, surge o mal e o pecado. No entanto, não obstante, a sua gravidade, não esgotam o manancial da história do ser humano, como ouvíamos “estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça.” (Gn 3, 15) São as palavras de esperança para a humanidade, que Deus dirige à serpente, porque contêm a sua salvação que virá por meio de uma Mulher, da Virgem Santíssima.
Hoje, celebramos a realização desta encantadora promessa n’Aquela que nos deu o Salvador do mundo, Aquele que aniquilou a morte. Em Maria, a humanidade pode entrar em comunhão com Deus, porque Deus assim o quis.
5. “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1, 38), são palavras ditas já na condição de nova criatura assumida; desfrutando daquela plenitude de vida e de amor que o mistério de Cristo introduziu na humanidade, Maria consagrou-se totalmente a Deus; nada reservou para si, foi toda para o Senhor. A disponibilidade de um Sim ao projeto do Altíssimo só pode surgir de um coração, o coração de Maria, que estava cheio da graça divina, embebido daquela graça que não tem origem apenas na simples vontade ou em virtuosos propósitos humanos. Oh, Mãe cheia de graça, Imaculada Conceição, sede da sabedoria! Como nossa Mãe conduzi-nos e inspirai-nos à disponibilidade e ao querer de Deus, ao seu amor incondicional que faz ser o que ama e ama até fazer-se doação pela pessoa amada.
Sim, Maria, Virgem e Mãe, revela-nos o rosto e o coração bondoso do Pai e, por isso, também nos mostra e apresenta o melhor e o mais excelso do ser humano. Também por nós e a nós Ela nos faz sentir a sua presença e, nessa presença maternal, sentir a presença de Deus, do Pai misericordioso.
Nada de mais belo! Maria, com a dádiva do seu Sim e de Si mesma, acaba por dar Deus ao mundo. Não há outro caminho para trazer Deus à humanidade que não seja a autodoação de si, mas uma autodoação que é entrega total e absoluta. Na consumação integral do nosso ser ao Senhor, doamos, não só o que somos e temos, mas, ao mundo doamos Deus e a Deus oferecemos toda a humanidade. Maria deu-Se e, por isso, deu-nos Deus, e a Deus entregou cada um de nós.
Aproximamo-nos velozmente do início do Ano Jubilar da Esperança. O mistério da conceição imaculada de Maria oferece-se não só como um justo sinal da esperança, mas obriga-nos a sintonizar esta virtude teologal com a sua justa fonte, que é a salvação que só Deus realiza na história salvífica, e reconduz-nos igualmente ao seu justo sentido. Viver o Ano Jubilar com Maria é vivê-lo na abertura ao Senhor, na disponibilidade ao serviço, na vontade de ver o plano original de amor para a humanidade com a participação do próprio ser humano. Maria revela-nos que a esperança nos remete para o absoluto desígnio de Deus para a humanidade, da sua chamada à plenitude da vida, à eternidade do amor para os Seus filhos. Por isso, ela pede-nos para nos libertarmos do entretenimento, do contingente para podermos aderir e abraçar o Absoluto. E, é por isso, que no caminho da esperança não se passa apenas pela liberdade, como se de uma etapa se tratasse, mas a libertação humana é o rosto da esperança. Contemplando Nossa Senhora, somos conduzidos a Cristo, porque Ela leva-nos a Jesus e envia-nos para a humanidade, para o serviço. Nossa Senhora é a primeira evangelizada e a primeira evangelizadora. Ela é a nossa confiança e a nossa esperança. Para os homens e mulheres do nosso tempo, um tempo complexo, preocupante, à deriva, Maria inspira-nos a ir ao seu encontro, como Ela foi “apressadamente” rumo às montanhas, para levar a boa nova do amor de Deus, da Sua chegada à história, e oferecer a esperança e força para prosseguir na história da salvação. Maria é a mãe que compreende a urgência de caminhar rumo à felicidade oferecida por Deus a todos, todos, todos.
6. O Mistério hoje celebrado, não nos convida apenas à contemplação, mas desafia-nos a deixarmo-nos tocar pelo desejo de pureza e santidade. E é disso que se trata: de celebrar o projeto de Deus em relação a cada um de nós, ditado pelo próprio Senhor: «Sede Santos porque eu sou santo». A condição Imaculada de Maria foi, antecipadamente, realizada pela força salvífica de Cristo que venceu o mal e nos limpou da mancha do pecado. Mas depois, foi canalizada em função do próprio Senhor Jesus: só uma Mãe toda pura gera filhos puros e isentos de qualquer mancha.
Assim, hoje, somos convidados a reencontrar a força que brota deste mistério mariano, que nos solicita a deixar inundar todo o nosso ser e toda a nossa vida, pelo fascínio da santidade. Amen!
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