Lisboa |
Homilia nas Ordenações Diaconais
“Sois chamados ao ministério de servidores, com Cristo e como Cristo”
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1. Celebramos este dia maravilhoso da ordenação diaconal dos nossos irmãos Duarte, Francisco, Francisco, João, Isaac, Simão, Tiago, Marcin, Aníbal, António, Francisco, José Manuel, Pedro e Vasco, na senda da esperança. É uma graça infinita, uma incomensurável benevolência de Deus concedida a cada um de nós, participar e tomar parte num rito que é uma autêntica encarnação da grande confiança que o Pai deposita na humanidade. Uma confiança tão poderosa que sustenta a Sua autocomunicação, do seu poder de amor, da sua capacidade de regenerar novas vidas, a homens concretos, para os tornar servidores do amor realizado e atuante no serviço gratuito aos irmãos.

 

 

2. A «Diaconia» é serviço e o diácono faz-se servo. Antes de mais, faz-se servo do Senhor, tendo n’Ele o Alfa e o Ómega da sua vida; mas servo também da humanidade, com particular afinidade ao pobre, ao humilde, ao que, mais do que nenhum outro, vive dependendo da Graça e da Providência. Por isso, o diaconado ao mesmo tempo que nos aproxima de Deus, não nos afasta dos homens, antes pelo contrário, coloca-os como destinatários, faz deles o horizonte de atuação. Assim como, de modo análogo, o envolvimento comprometido com os irmãos não rouba o Diácono à vida de comunhão e de relação com Deus. O Diácono vive em plenitude esta relação amorosa com Deus e com as pessoas. Encontramos, aqui, o feliz conteúdo da esperança. Mais do que nos colocar na passiva atitude de simples espera, a esperança é o envolvimento, a atuação na história a partir de Deus para conduzir para Deus toda a humanidade, com toda a sua realidade histórica. Esperança, não é sentimento, é mobilização para um mundo novo e para uma nova ordem que se abre à nossa frente.

 

3. Dentro de alguns momentos, caros ordinandos, ireis prostrar-vos por terra, em atitude de entrega total a Ele, ao Senhor. É o mistério da íntima reciprocidade entre vós e Cristo que, na força do Espírito, vos faz ser um com o Pai, na mais profunda comunhão. Para nós, que participamos no ato da vossa consagração diaconal, será certamente um momento significativo, belo, da celebração litúrgica. Mas, para vós é muito mais… é a posição de abandono ao Pai, e de humildade, de intimidade e de serviço que revela como estais implantados no coração de Deus e mostra-vos numa estreita proximidade aos homens e às mulheres a quem o Bom Pastor vos envia. Assim, com a vossa dádiva, com a vossa disponibilidade, com a vossa abnegação, tocais o coração de Deus. E quando Deus se deixa tocar no coração, torna-se, ainda mais, o que sempre é, um Deus sem-medidas, Um ‘mãos-largas’, rendido à pobreza da humanidade, que derrama o seu amor em abundância pelos corações do mundo, fazendo-o chegar, a todos e a cada um dos seus filhos, por meio de quem Ele escolhe. Sim, caros ordinandos, como diáconos sereis esses canais irrigados de amor infinito e gratuito; e, através de vós, será irrigado o coração da humanidade. Que do céu chova a abundante chuva do amor para regar a terra e fertilizar os corações sedentos.

 

4. O novo ano litúrgico que inicia hoje, inaugura-se na senda da esperança. «Dias virão» (Jr 33, 14) – diz o Senhor na profecia de Jeremias, rompendo os horizontes do tempo com uma projetação que nos remete não para um novo tempo ou um novo espaço, mas sim para uma nova qualidade da existência. Não é um onde, nem um quando, mas a vida, o ser humano, a comunidade a desfrutar da sua plena realização. Compor-se-á da realização da promessa da fecundidade do criado, do exercício da justiça, do imperar do direito. Sim, irmãos, a esperança inaugurada por Jesus, já não é apenas uma espera, ainda que empenhada, mas uma pertença, um porto que nos acolhe, nos inspira, nos enriquece, nos constitui homens e mulheres que, a exemplo de São Paulo, saem vencedores dos combates da vida por guardarem dentro de si uma ligação à dinâmica vitoriosa de Cristo Ressuscitado

Como nós, são cidadãos de tão fascinante pátria a força oblativa do amor, da abundância da caridade. Como refere São Paulo na segunda leitura «o Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros» (1Tes 3, 12). O Senhor, não as forças da natureza que nos habitam. O Senhor, não a nossa vontade. O Senhor, não os nossos propósitos. … Porque tudo isso é posto em confronto com a lei do coração, a lei do amor e do perdão. A sua disponibilidade para connosco e a sua presença na nossa vida, constitui a verdadeira âncora da vida, só o Senhor nos segura e robustece.

 

5. Ouvíamos no evangelho uma descrição apocalíptica que nos dizia que «quando o Filho do Homem vier numa nuvem, com grande poder e glória», «haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas, e, na terra, angústia entre as nações» (Lc 21, 14.16) Não temais! Antes, canalizai estas palavras para o vosso mundo interior e deixai que a proximidade do Senhor, a sua vinda e irrupção na vossa vida, faça de vós aquele sinal no sol, na lua e nas estrelas. E quando assim é, então dareis testemunho da luz da fé no sol da vossa razão; mostrai que Cristo é a luz que resplandece no brilho das vossas boas obras, e, por favor, nunca, nunca aceitem serem (vós) as estrelas da vossa atuação; mostrai, ainda, como é Cristo o construtor do homem vivente, cuja vida é a visão de Deus, esplendor da glória divina.

Não temais! Quando a proximidade e vinda do Senhor suscitarem perturbação e pavor na terra, significa que está a pôr em crise aquela dimensão mundana que anda colada ao ser humano. Com a força do testemunho e a ousadia da palavra, sejam sacramento dessa proximidade e arautos da sua vinda até nós. O mundo anda cansado de superficialidade, está exausto da guerra; a libertação é como a água que escorre pelos campos do mundo, necessita apenas de ser conduzida aos corações e aos lugares onde vigora ainda a opressão. Mas que seja sobretudo a partir do luminoso fruto do coração de Deus que todo o vosso ser realize a vocação de luz do mundo e sal da terra. Misteriosamente, na senda da Palavra de Deus, situamo-nos perante uma reciprocidade existencial que dita como a única possibilidade, o único caminho, para concretizar uma identidade só pode ser através da missão. Sim, só pela missão se realiza aquele ser sal e ser luz. O cristianismo é, por excelência, a aliança recíproca entre a prática e a metafisica, entre o funcional e o ontológico, entre o ser e o fazer. É-se – fazendo. «Se o sal se corromper, com que se há de salgar?» – pergunta o Senhor – e responde: «não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens». Esta queda do sal à condição de substância descartável resulta da sua perda de sabor, da perda da força da sua identidade, esgotou-se a sua capacidade de servir. Já não era sal, era agora outra coisa. Caros irmãos, reencontro aqui uma interpelação à urgência permanente da evangelização. Produzimos palavras quando deveríamos estar a produzir dinâmicas de santidade, caminhos que levam Cristo aos homens, trazem os homens a Cristo para mergulharem na salvação. Só Deus salva, só Deus justifica, e nós somos seus colaboradores.

 

6. «Vigiai e orai» (Lc 21, 34), eis a luz da Palavra que ilumina e marca, de certa forma, o tempo do Advento. A vigilância é a atitude típica da sentinela que, no seu posto de vigia, possui o único fito de estar alerta, de prevenir qualquer possível ameaça; e tudo é organizado e interpretado na ótica deste princípio. Atento a tudo, em tudo vislumbrar, ainda que hipoteticamente, um perigo. Assim também o cristão deve ser sentinela que deve vigiar: certo de que o Senhor vem, tudo deve ser vivido e interpretado na ótica desta inolvidável vinda. Caros ordinandos, vigiai, pois, que o vosso olhar contemplativo enxergue nos labirintos da vida, e nas escuridões do mundo a passagem e presença do Senhor. Sim, o Senhor vem! Mostrai ao mundo essa vinda; dizei a toda a humanidade, que Ele não nos esquece, nem abandona; que a dificuldade sentida pelo mundo, em relação ao Senhor, reside só na incapacidade dos seus ministros e apóstolos de indicarem o caminho para O reconhecerem presente e atuante no nosso tempo.

E «orai»: sim, a oração fortalece o amor, incrementa a fé, mas é também o principal remédio contra as tentações: «Vigiai e orai, para não cairdes em tentação» (Mt 26, 41): fórmula com que Jesus, na sua maravilhosa parábola de vida, se refere ao estilo de não ceder às tentações.

 

7. O diaconado desenvolve-se e realiza-se no serviço, no fazer da própria identidade, do próprio ser, uma doação. Aquilo que constitui a matéria-prima, a substância do múnus diaconal é o serviço, a proclamação da Palavra. Ora, em tudo isso está a própria pessoa no seu todo, o próprio ser pessoal na sua relação com o mundo. De facto, a palavra é uma pessoa; mais do que mero verbo pronunciado, a palavra tende a fazer-se história, gesto, ação e a encarnar-se, a assumir carne, ou seja, a envolver a própria pessoa: a pessoa no ato de anunciador, a pessoa que vem recriada pela palavra. Fareis a experiência da assimilação da palavra de Deus que aviará um processo de metamorfose convosco e de vós com ela, com a vossa vida e a vossa história. Não é apenas fonte de inspiração, mas é criativa, que gera comportamentos, plasma e configura o estilo, cunha o timbre da personalidade. Mas a Palavra de Deus, ao fazer-se história em vós, vai fazer com que vós também vos torneis mensagem viva de Deus para o mundo.: «Crê o que lês, ensina o que crês e vive o que ensinas» (Ritual da Ordenação dos Diáconos).

Também o serviço possui uma dimensão altamente personalista, porque não é puro funcionalismo, mas dádiva de si próprio. Voltemos o olhar para Jesus Crucificado, o Messias que nunca deu o que fosse em parcelas, ou pequenas metades, mas sempre na inteireza de si: fosse uma palavra dirigida a um mendigo, ou um sorriso lançado a alguém em busca do sentido da vida, ou uma cura, ou milagre… Jesus agia sempre na aplicação da sua integralidade. Por isso mesmo, Ele não é só o Senhor que dá gratuitamente, Ele próprio é a dádiva. «Servir» não se declina com «fazer», mas com «dar-se». Também na Liturgia, caros ordinandos, não realizem gestos mecânicos, mas tornem-se expressão da mais profunda comunhão com o Senhor e harmonia com o mistério do seu amor salvífico.

 

8. Caros ordinandos: não esqueçais – sois chamados ao ministério de servidores, com Cristo e como Cristo. Abraçai a radicalidade do que hoje o Senhor vos dá com abundância. Só o coração grande, generosos e disponível pode viver o que o Senhor vos oferece. Caminhai sempre na presença do Senhor. Ele vos ajudará todos os dias da vossa vida e consumará o bem que em vós começou. Ámen!

 

Igreja de São Vicente de Fora, 1 de dezembro de 2024, I Domingo do Advento
† RUI, Patriarca de Lisboa

 

 

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