O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, presidiu à Missa no 265.º aniversário da edificação da igreja da Falagueira, a mais antiga do concelho da Amadora, deixando indicações de como “ser construtor de uma nova terra na minha terra”.
“Este novo céu e esta nova terra acontece naquela experiência, digamos assim, de comunidade que é uma paróquia, que efetivamente é um novo céu e é uma nova terra. Há 265 anos que aqui, na Falagueira, concretamente, a paróquia não é só uma questão de ter uma igreja, um edifício para catequese, mas o mistério é muito maior e mais profundo do que isso. É que aqui há um novo céu e há aqui uma nova terra. Há um novo céu na medida em que há um lugar onde Deus está, onde a pessoa se pode encontrar com Ele, onde a pessoa pode contemplar o rosto do seu amor, a profundidade do seu coração; mas, reparem nisto: na Falagueira haverá uma nova terra na medida em que aquelas e aqueles que contemplam Cristo, Jesus, são transformados, são modificados e, a partir desta transformação pessoal que vivem, eles vão transformar os que estão ao redor. Isto é a nova terra que surge”, explicou o Patriarca, na homilia da celebração que teve lugar na tarde deste sábado, dia 16 de novembro.
Sublinhando que “nova terra” não acontece “por um batido de dedos”, D. Rui Valério salientou que “é nova porque é diferente do que existe ao lado”. “Pensemos, uma vez mais, numa numa localidade – aquela que vós quereis, irmãs e irmãos. De que forma é que eu posso ser construtor de uma nova terra na minha terra? Não é preciso inventares uma coisa nova, mas é preciso seres diferente e a diferença vem pela maneira, por exemplo, pela maneira como tu te relacionas com os outros, pela maneira como tu constróis a tua vida – e como sabeis, para nós, a diferença fundamental que constitui esta novidade está no amor. Se o cristão, como fazem todos, vive segundo o lema do ‘olho por olho, dente por dente’ não construímos terra nova nenhuma. Se o cristão continuar a ser indiferente como é indiferente 90% da sociedade em relação aos problemas uns dos outros, não somos novos coisa nenhuma, somos como os outros. Se o cristão, porventura, é aquele que é passivo, não se interessa, é distante da realidade de sofrimento dos outros, nós não somos diferentes e, portanto, não somos a nova terra”, garantiu o Patriarca de Lisboa.
“Então, a paróquia que há 265 anos celebra a sua existência é uma dádiva à Falagueira. Um lugar onde o Senhor está, mas está para que a partir da experiência de paróquia nós façamos nova a própria terra cá existe”, acrescentou D. Rui Valério.
Ver, acolher, dar
Recordando o episódio de Zaqueu, lido no Evangelho da celebração, o Patriarca de Lisboa deixou depois “três verbos de ação” que “devem fazer parte não só da nossa gramática, mas devem fazer parte da nossa vida”. “Quais foram as três ações encantadoras que o Zaqueu efetuou e depois recebeu como graça uma quarta? A primeira ação, é que ele queria ver Jesus. Era de pequena estatura e queria ver Jesus. A segunda é que o acolheu na sua casa, hospedou-o na sua casa. E a terceira é aquela palavra que ele repartiu, deu. Isto é um itinerário de vida. É um itinerário de vida que é a essência da paróquia”, apontou.
Sobre o primeiro verbo, ‘ver’, D. Rui Valério salientou que “aquilo que a paróquia tem para mostrar é uma maneira diferente de pensar, de conceber a vida, é um modo diferente de hierarquizar os valores, em primeiro lugar está o outro, não o eu. Isto é o que nós temos para mostrar, não apenas uma realidade humana, mas sobretudo a própria força de Cristo encarnada na história”, referiu.
O segundo verbo destacado foi ‘acolher’, porque “a paróquia é esta realidade do acolhimento, com as portas sempre escancaradas para receber quem nos procura”. “É isto que é maravilhoso: não há chaves, não há portas trancadas – espiritualmente falando, obviamente. Só assim, atenção, nós vamos descobrir que estamos no coração de Deus, que somos recebidos por Deus. Se nós passarmos a vida toda a evitar, a fecharmo-nos, nós nunca vamos sentir aquela alegria de estar no coração do Pai, de termos sido já acolhidos, recebidos, tal como somos e com o que somos, por Ele”, observou.
Por último, o terceiro verbo, ‘dar’, tem “um valor incalculável”, segundo o Patriarca. “A palavra ‘dar’ é uma das palavras mais importantes para o cristão. É Cristo que dá a vida por nós, é Cristo que nos deu a vida. Isto aqui é tudo dar. Por exemplo, aquilo que nós já recebemos hoje, aqui, na Eucaristia foi tudo dado. Já recebemos a Palavra, já recebemos a companhia uns dos outros – ninguém pagou a ninguém para cá estar ou para cá vir –, vamos receber o Santíssimo Corpo de Jesus, vamos receber o amor, vamos receber a graça. A palavra por excelência do cristianismo é a palavra ‘dar’. E aquilo que nós somos chamados à dádiva do coração, caras irmãs e irmãos, nem é tanto o dar o que temos, o dar o que possuímos, mas é a dádiva da própria vida”, manifestou D. Rui Valério, concluindo que “depois deste caminho do ver, do partilhar e do dar-se, a conclusão, dita por Jesus, é um homem completamente transformado, um homem salvo, um homem novo”.
A última palavra do Patriarca de Lisboa, na sua homilia, foi de saudação à comunidade. “Parabéns à Falagueira, a todos aqueles que, ao longo destes 265 anos, têm sido pedras vivas desta comunidade e desta paróquia. E nós cá estamos para prosseguir o caminho da salvação”, terminou.
Antes dos discursos finais e das ofertas, esta paróquia viveu o ato de Consagração a Nossa Senhora da Conceição da Lapa da Falagueira, escrita a 8 de dezembro de 1985 pelo Padre Carlos Gonçalves Castelão, antigo pároco.
Terço comemorativo
No final da celebração dos 265 anos da igreja Falagueira, o pároco agradeceu “a Deus” a comemoração. “Um profundo agradecimento, profunda bênção, bendizer a Deus, por esta celebração tão bela, tão profunda, que certamente a todos nos encheu o coração e a alma”, salientou o Padre José Miguel Ramos.
O sacerdote fez depois diversos agradecimentos, terminando com uma saudação à comunidade e a entrega de uma lembrança ao Patriarca de Lisboa. “Bem dizer a Deus por cada um de vós, irmãos e irmãs. Somos nós o templo de Deus e somos nós pedras vivas desta Igreja viva que caminha, aqui, na Falagueira e, por isso, é também em nome de todos nós, em nome de tantos jovens, adultos que diariamente, de muitos modos, servem Jesus, com alegria, nesta comunidade, que fazem a experiência da família, do encontro, da partilha e do irmos aprendendo a dar-nos à maneira do Senhor, é em nome de todos nós que eu vou entregar esta pequena recordação ao nosso Patriarca: é um terço comemorativo, feito de propósito para assinalar estes 265 anos da nossa Igreja de Nossa Senhora da Lapa da Falagueira. Senhor Patriarca, sei que nos tem sempre na sua oração, mas peço que nos tenha muito no seu coração sempre e que nos ajude sempre a seguir mais e a amar mais Jesus, como também hoje, aqui, nos testemunhou”, pediu o Padre José Miguel Ramos.
Após receber o terço das mãos do pároco da Falagueira, D. Rui Valério recordou o sacerdote francês fundador da congregação a que pertence, os Missionários Monfortinos. “São Luís Maria Grignion de Montfort era conhecido exatamente como o padre do Santo Rosário porque andava sempre com um terço, junto à cintura, que era realmente para pregar, para rezar. Não haja dúvida, como dizem tantos santos, é a melhor arma de lutar pelo bem e contra o mal, de lutar pela justiça e contra a injustiça, de lutar pela paz. Sinto-me verdadeiramente interpelado pelo Senhor, hoje, a fazer da minha vida uma permanente oração com o Santo Rosário. Obrigado, do fundo do coração. Deus vos abençoe”, terminou o Patriarca de Lisboa.
Presente na celebração, o presidente da Câmara Municipal da Amadora, Vítor Ferreira, entregou depois à paróquia uma placa comemorativa dos 265 anos da igreja da Falagueira, agradecendo ainda a colaboração do pároco e a presença do Patriarca de Lisboa no concelho.
Cante alentejano
O programa de festas teve início com um momento de cante alentejano, pelo grupo do SFRAA (Sociedade Filarmónica de Apoio Social e Recreio Artístico da Amadora), em louvor de Nossa Senhora da Conceição da Lapa. No final da atuação, o Patriarca de Lisboa dirigiu-se ao grupo, cumprimentando cada membro e lembrando que, em missões anteriores, passou pelo Alentejo.
D. Rui Valério benzeu depois o adro da igreja e sublinhou a “emoção” que sentia pelo momento que estava a viver. “Venho pela segunda vez a esta igreja, mas passo por esta estrada muitas vezes, para ir para a Academia Militar. Mas a minha emoção é porque nos anos 40 estiveram aqui, como párocos, dois padres holandeses, Missionários Monfortinos, congregação a que pertenço. Vieram de Vila Real e testemunharam a genuinidade e profundidade da fé das pessoas desta terra”, partilhou. Nestas suas palavras iniciais, o Patriarca referiu ainda que “a Falagueira é como se fosse um micro Portugal”, porque “tem pessoas que vieram do Alentejo, do Douro...”
Após nova atuação de cante alentejano, D. Rui Valério disse ser “uma bonita maneira de homenagear a nossa identidade”. “Que Deus vos abençoe”, pediu o Patriarca, dirigindo-se de forma particular aos 18 elementos masculinos do grupo e à senhora que segurava na bandeira do SFRAA.
D. Rui Valério entrou depois na igreja, detendo-se por breves minutos em oração, acompanhado do pároco da Falagueira.
Comemorações dos 265 anos da igreja
Segundo a Paróquia de Nossa Senhora da Lapa da Falagueira, na Vigararia da Amadora, o programa das comemorações teve início no dia 15 de novembro (data da edificação da igreja) e decorre até ao dia 8 de dezembro (data de comemoração da padroeira da paróquia).
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