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Arcebispo Emérito de Luanda
Homilia na Missa de Sétimo Dia de falecimento de D. Alexandre Nascimento
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1. O Cardeal Alexandre do Nascimento viveu uma vida onde cabe não apenas a história do seu percurso de existência, mas também a história contemporânea de Angola e do seu povo, a quem ele amava e sentia como parte integrante de si mesmo, e a quem servia com abnegada dedicação. Na força da sua união amorosa com Cristo Jesus, vivificada na vocação e missão da comunidade da Igreja, comungou com o seu povo sonhos e esperanças, sofrimentos e júbilos, numa comunhão de partilha de destinos, de esforços e de metas de desenvolvimento integral, de liberdade e justiça.

Na presença do Arcebispo emérito de Luanda, encontramo-nos perante um homem bom, que dilata grandeza e elevação desenvolvida em todas as direções. O seu coração rico em graça e misericórdia era um verdadeiro albergue onde todos, todos mesmo, tinham entrada e eram acolhidos, sem condições, nem condicionalismos. Os valores porque pautou a sua ação apostólica plasmaram o rosto da Igreja angolana, uma Igreja aberta, hospitaleira, abraçada pela opção preferencial pelos mais pobres. Por isso, esse mesmo coração exultou de reconhecimento quando, há um ano, o Papa Francisco, junto aos pés de Nossa Senhora na Cova da Iria, lugar tão afetuosamente querido ao Senhor Cardeal, projetava para a Igreja aquela mesma abertura, sem portas, nem barreiras, da configuração arquitetónica do santuário de Fátima. Mas, em perfeita sintonia com a índole da sua ação, esse mesmo carater descomplexado, liberto, fraterno, quis ele consagrá-lo na alma bondosa da sua amada nação. Por isso, a sua foi uma vida de santidade, na medida em que agia e se compreendia a si próprio, na sua identidade de Bispo e de homem, a partir do Fundamento dos fundamentos, que é Deus; e era dessa rocha inabalável que brotavam os ideais de humanismo cristão, e floresciam os valores éticos construtivos de vidas e sociedade assentes no estado de direito.

 

2. Era tudo isto que dava dimensão e profundidade inabaláveis seja à sua presença, seja à sua obra, constituídas de um carácter mais do que holístico, era intemporal, até mesmo – podemos dizê-lo sem hesitação – absoluto, porque situado além do relativo e efémero, na superação do transitório. É nesse horizonte que hoje somos convidados a revisitar os seus gestos, as suas opções, os seus ensinamentos. Possuídos de um timbre de elevada solidez, só podiam transformar-se, como se transformaram, em marcos definidores de um processo e de um rumo de uma vida, como também de um povo, e de uma nação. Por isso, os monumentos que se erguem à memória do que foi e do que fez D. Alexandre não são feitos de pedra, nem de argamassa erguidos em praças, avenidas ou rotundas, mas são consciência viva encarnada nos ideais de todo um povo, inspiradora da magna carta da constituição, configuradora de um sentido de nação, nutriente de uma Igreja que seja hospital de campanha para acolher todos e sarar todas as feridas.

 

3. Emblemático em D. Alexandre é a sua relação de proximidade, devotada à Virgem Maria. Profundamente mariano, Nossa Senhora de Fátima e a sua espiritualidade apoderou-se do seu coração, como antes se apoderara do coração da Igreja do mundo inteiro. Plasmado nos sentimentos pela presença misteriosa da Mãe de Deus, foi um Bispo Pastor com o cheiro das ovelhas atacado a si. Grande defensor dos desfavorecidos, arguto promotor da dignidade dos trabalhadores, incansável apóstolo da liberdade de Cristo. Traves-mestras do seu magistério ao serviço da Caritas internacional. Mas Nossa Senhora também foi quem o atraiu, já com a veneranda idade de 88 anos, para a Ordem dos Pregadores; uma Ordem profundamente embebida de espiritualidade mariana que tem no santo Rosário uma das principais causas do seu apostolado.

 

4. Pastor próximo do seu presbitério e de todo o povo, não só a todos acolhia, como também estava atento, e ainda, de cada um conhecia a história, as dificuldades e os problemas. Ele encarnou o amor compassivo de Deus e, por isso, até do mais ínfimo pormenor da biografia de alguém ele estava ao corrente. Não havia anseio, preocupação, ou júbilo de alguém da sua comunidade sacerdotal ou diocesana que não lhe dissesse respeito, que não sentisse como própria. Reconhecidamente, o nome de D. Alexandre está associado aos passos decisivos do longo e laborioso processo da instauração da paz e da promoção da justiça. Por isso, a sua dedicação aos últimos, aos sem voz levá-lo-ia a desenvolver uma ação de solidariedade assente no direito e no amor. De entre as muitas iniciativas solidárias que realizou, sobressai a certeza e convicção de que cada gesto de dádiva e partilha não é mais que a restituição aos pobres daquilo que aos pobres pertence.

 

5. “Job respondeu ao Senhor «sinto-me tão pequeno»”. Resposta que brota da dramática experiência de perda, de kenosis, de sofrimento, de derrube que Job viveu. Uma longa e dolorosa tragédia que o conduziu ao reconhecimento da verdade do ser humano – que só pode dizer sempre de si “sinto-me tão pequeno” e da verdade acerca de Deus, que só Ele é o Senhor, criador do universo e de tudo quanto nele existe. Foi, pois, a passagem pela experiência limite de perda e sofrimento que deu a Job a clarividência do essencial e da verdade do ser humano, do mundo e do real.

A história de D. Alexandre desenvolveu-se num permanente contexto de afirmação da verdade e, por isso, na senda do essencial. Consagração dos direitos humanos, promoção da justiça, implementação da paz foram valores pelos quais lutou a fim de plasmarem a configuração de uma nação e a consciência do seu povo. Por isso, ele teve sempre a iluminá-lo a verdade de Deus que o inspirou para o reconhecimento da verdade acerca do ser humano e do mundo. Tal como para Job, também para D. Alexandre, cada momento da existência era um troço do caminho rumo à plena consciência do valor inalienável de cada mulher e de cada homem.

 

6. O Evangelho é uma intrépida palavra em torno do milagre da existência e das maravilhas que têm lugar no coração humano. Olhando ao seu povo e à sua terra, com a sua história e belezas, D. Alexandre, com olhar penetrante e sentido iluminado, sempre vislumbrou a presença das maravilhas que abrem à fé e conduzem a Jesus Cristo. São esses os verdadeiros milagres. O principal é o amor; o amor fraterno vivido de homem para homem, de pessoa para pessoa. Que extraordinário deslumbramento! Os mesmos seres humanos que produzem tanta ambiguidade, que causam tanto sofrimento e incerteza, são os mesmos que detêm um coração onde reina o amor; porventura o próprio amor de Deus que não só aproxima e une as pessoas, mas que é capaz de perdão, de reconciliação e, portanto, de recriar uma nova vida, um novo mundo.

Caros irmãos, foi este novo mundo a florir do amor que D. Alexandre sonhou, inaugurou e instituiu. Com a edificação do seu exemplo e a intercessão de Maria e de São Francisco de Assis, sintamo-nos convocados a prosseguir o rumo que nos indicou. Amen!

 

Basílica da Estrela, 4 de outubro de 2024
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