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Homilia do Patriarca de Lisboa nas Ordenações Sacerdotais
“Se fordes próximos conseguireis aproximar o mundo de Deus, e Deus do mundo”
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1. A beleza do cristianismo oferece-nos a graça de olhar o mundo para ver melhor e mais profundamente de quanto emerge nos horizontes do imediato, do que está próximo. A sacramentalidade da Igreja, não estrutura apenas a identidade com que se revela ou a missão de que se reveste, a servir o Reino de Deus e a humanidade, mas configura, também, a própria vida dos filhos que regenera, comprometidos com a construção da história, implementando a vida do Evangelho no hoje que celebramos.

Quanto é belo e maravilhoso testemunhar, neste dia festivo, a densidade que o percurso histórico e espiritual dos nossos irmãos António, Pedro e Lourenço, nos revela enquanto membros duma Igreja viva.

As suas histórias de vida são a encarnação do primado de Deus: foi Ele que, antes ainda de os ter formado, os escolheu; foi Ele que os consagrou, ainda antes de terem vindo à existência. Tanto na eleição, como no chamamento e na consagração, manifesta-se a força e o mistério de uma história onde Deus é, efetiva e indiscutivelmente, o primeiro no amor. Ele não nos ama a partir de premissas mais ou menos redundantes e convincentes que Lhe possamos demonstrar; não funda o seu amor, por nós, a partir do que somos ou fazemos. Referir o primado de Deus, ao jeito d Profeta Jeremias, consiste na deslumbrante primazia do amor. “No princípio é o Amor”. O amor que elege, que plasma, que sonha e confere pertença a Alguém, que é misericórdia. Referir hoje, na esteia da Palavra, o primado do Senhor, coloca-nos na certeza de que o amor precede o próprio ser e que, por isso, o primeiro testemunho que, enquanto seres amados, damos agora e oferecemos ao mundo, é este: Deus é amor e, porque ama, dá vida e traz à existência. Todo o ser humano, fundamentalmente, é uma epifania do amor criador de Deus.

Caros irmãos, nunca, mas nunca descurem esta mensagem desconcertante que o Profeta apregoa: a existência é o principal sacramento da bondade amorosa do Pai; viver, e não transmitir a força transbordante e criativa de Deus é, no fundo, uma não-existência.

Toda a consagração sacerdotal reflete, pois, a maravilhosa parábola da fonte criadora da vida, que é o amor. E nós somos chamados a amar, mas também a cultivar-nos na sabedoria do Calvário, onde o amor gera e fecunda a vida nova da plenitude. Vida abundante, vida de fé, de esperança, vida de comunhão, de participação e de missão.

 

2. Num dos seus cânticos mais penetrantes, S. João da Cruz celebra a “cristalina fonte” que, com a água transbordante do amor, a tudo confere vida, tudo regenera e faz renascer.

Caros ordinandos, deixai-vos inebriar dessa sublime água que brota da cristalina fonte, e sereis não só o rosto de Jesus, mas o seu próprio coração a dar, hoje, uma nova vida, às vidas cansadas e gastas; a transformar as ruínas e os escombros em promessas de redenção com a esperança que irradiais; a traçar, para os caminhos enganadores da humanidade, horizontes e metas de plenitude.

Sois hoje o testemunho vivo de Deus que nunca cessa nem desiste de tomar a iniciativa, de levar a salvação ao mundo e de conduzir o mundo para a plena comunhão consigo. Maravilhemo-nos porque o amor, revelado em Cristo, não é um mero sentimento, mas uma vivência plena de obras de verdade e bondade.

Assim, a vossa própria resposta ao chamamento do Alto, também ela foi fecundada no amor de Deus, que o Espírito Santo derramou nos vossos corações. Ao amor responde-se com amor. O vosso ‘sim’, hoje proferido, em cada dia da vossa vida se renovará pelo amor e no amor. Renova-se no amor a tudo fazer apenas para a glória de Deus e para a salvação do mundo; confirma-se no zelo em servir o santo povo de Deus; mostra-se na alegria da vossa dádiva incondicional a Cristo e testemunha-se no brilho de esperança que resplandece em tudo quanto fazeis.

As sementes lançadas nos corações dos homens no quotidiano do vosso ministério sacerdotal darão frutos de santidade e entrega total ao Senhor e de serviço aos irmãos. O segredo da evangelização reside em anunciar, oferecer e partilhar o Evangelho com a dádiva da vida e oferta de razões para viver. Das sementes lançadas germina a união a Cristo e a plena configuração a Ele.

 

3. São João Batista, gerado no seio estéril de uma mãe idosa, será sempre um paradigma do primado da Graça de Deus. Como escrevia São Paulo, reconhecendo que a sua eleição para apóstolo, não era decisão “dos homens, nem (fora) feita por meio de homem algum, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos” (Gl 1, 1), só na comunicação de Deus nós “recebemos a graça de sermos Apóstolos” e consagrados para levar à obediência da fé todos os gentios” (Rm 1, 5).

Caros irmãos, vós hoje encarnais e testemunhais a força da gratuidade; não foram e não são os méritos de personalidade ou de carater que justificam o chamamento ao sacerdócio, como nenhuma iniciativa humana é motivo para o que simplesmente brota de Deus. São João Batista, iluminado pela luz da Graça, tornou-se ele próprio, com a sua parábola de vida, o principal meio de anúncio. Figura primordial na passagem da antiga para a nova aliança, foi a história que o Espírito realizou em João Batista que o constituiu Precursor do Messias, o tornou Voz que clama no deserto “preparai o caminho do Senhor” (cf Mc 1, 2); foi a força da Graça que o inspirou a ser Profeta do Cordeiro que tira os pecados do mundo, que o constituiu desafio lançado aos pecadores para a conversão e, por fim, o abençoou com a glória do martírio. Na vida, cultivai, por isso, o primado da Graça de Deus. Como amava dizer Santo Agostinho: “É certo que nós também trabalhamos, mas não fazemos mais do que cooperar com Deus que trabalha, porque a sua misericórdia nos precedeu. Precedeu-nos para sermos curados e continua a acompanhar-nos para que, uma vez curados, sejamos vivificados. Precede-nos para que sejamos chamados, segue-nos para que sejamos glorificados, precede-nos para que vivamos segundo a piedade, segue-nos para que vivamos para sempre com Ele, porque sem Ele nada podemos fazer».[1]

Contemplai Nossa Senhora, a theotókos, a cheia de graça que, na plenitude do dom de Deus, viveu a maravilhosa condição de Senhora do sim, recebeu a graça da disponibilidade total e foi toda para o Senhor. “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Somente a comunicação da graça de Deus nos conduz à saciedade no banquete do cumprimento da vontade do Pai; foi neste registo que Jesus disse «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra.» (Jo 4, 34): nenhuma outra força gera em nós resiliências ou capacidades superlativas para o cumprimento dos desígnios do Pai e da obra de Cristo, senão a Graça do Alto, que se torna um dom em nós.

Só uma vida sacerdotal, que se nutre da abundância da auto comunicação de Deus, fará dos padres autênticos mediadores que, na esteia do Sumo e Eterno Sacerdote, oferecem Cristo e Vida plena. E ao Pai, remetem a sua própria vida participada com a comunhão de todo o santo povo, que os acompanha na peregrinação da esperança.

Mediadores! Todo o padre é mediador, numa dupla concretização: como intérprete e como ponte.

 

4. Intérprete é uma assumida dimensão essencial da sua condição sacerdotal; ao invés de Zacarias, bloqueado nos labirintos dos seus preconceitos, o padre realiza a vontade de Deus em ordem ao mundo e à história. No desabrochar e desenvolvimento do seu magistério, coloca ao alcance da humanidade o sentido da sabedoria e dos desígnios que irrompem nos ícones da existência, do mundo e da igreja; intérprete, na criação de junções entre a mensagem revelada e consagrada na Palavra viva e a disponibilidade obediencial. O desafio é assumir a dignidade de profetas para serem mediadores da luz que brota do plano divino para iluminar a vida do próprio profeta, e estender-se ao mundo que o rodeia. Ser intérprete não é apenas uma vertente, ao lado de outras, da rica e totalizante identidade do sacerdote, mas constitui a orientação que concretiza a sua missão. Interpretar é colocar ao alcance de muitos um dado, de ordem divina, existencialmente relevante, que resulta na potenciação seja do próprio dado, que se revela, seja do homem que vem salvo e resgatado das trevas do mal. É ao intérprete que incumbe a enorme responsabilidade de colocar ao alcance de todos os passos suscetíveis, possíveis e necessários de serem feitos. Passos de conversão, mas também de nova configuração de vida. E, por isso, não apresenta apenas os passos, também indica o caminho, que é e será sempre e só Cristo. O Pastor mostra Cristo, que é Caminho, mas também ensina que o Evangelho nos forma nos passos e ritmos que necessitamos fazer; dá-nos as medidas, os padrões das passadas. O Pastor, enquanto intérprete, é chamado a indicar o Caminho e a propor o Evangelho como estrutura do andamento na estrada da santidade.

 

5. E são pontes. Pontes de proximidade que ligam mais intensamente todas as margens. O mundo anseia aprofundar, até mesmo reatar a sua ligação a Deus. Por isso, apenas padres que cultivem proximidade estarão em condições de aproximar outros, só quem cultiva acolhimento promove aproximação de quem quer ser abraçado pela ternura dos braços de Deus.

Caros ordinandos, o Papa Francisco sublinha amorosamente a necessidade de os pastores trazerem o cheiro das ovelhas. Que maravilhosa forma de exultar a proximidade do padre com o povo! Se fordes próximos conseguireis aproximar o mundo de Deus, e Deus do mundo. Mas também os homens entre eles, irmãos e filhos do mesmo Pai.

 

Mosteiro dos Jerónimos, 23 de junho de 2024
† RUI, Patriarca de Lisboa

 

Ordenações Presbiterais 2024

 


[1] Santo Agostinho, Nat. Et Grat.31

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