Artigos |
Guilherme d'Oliveira Martins
Maria João Sande Lemos (1938-2024).

Se há exemplo de ativismo cívico e religioso e para o impulso permanente em prol da solidariedade, da dignidade humana e das boas causas é o de Maria João Sande Lemos. Conheci-a, por razões familiares, antes de nos encontrarmos no então PPD, sempre com o mesmo espírito de entrega total. Alfreda Ferreira da Fonseca, companheira no Centro de Reflexão Cristã, disse com acerto que era “Um vulcão de criatividade militante nas causas da justiça em Portugal ou em África, na luta contra as discriminações nomeadamente das mulheres na sociedade ou na Igreja”. E lembro especialmente nesses tempos recuados a presença constante e fraternal de António Sande Lemos, seu marido, ele também exemplo de generosidade, de entrega e de ânimo militante. Ao longo de décadas, fomo-nos encontrando em muitas circunstâncias e causas comuns.

A Maria João era alguém que visava o futuro e que não regateava esforços na defesa apaixonada das suas ideias. Foi sempre uma amiga. Muitas vezes, deparou-se com incompreensões, mas nunca desistia, ia em frente. A sua coerência e determinação eram sempre mais fortes do que os contratempos, servidas por uma coragem e por uma vontade inabaláveis. Tudo o que abraçava era encarado com um grande entusiasmo. Os primeiros tempos da construção da democracia contaram com o seu compromisso, ao lado de Francisco Sá Carneiro, Joaquim Magalhães Mota e Francisco Balsemão, nas Mulheres Sociais-democratas, nas estruturas laborais e sindicais, na UGT. O seu amor por África levou-a à defesa da Paz e da Democracia em Angola e Moçambique (sua terra natal). Como afirmou: “Um dos maiores desafios enfrentados pelas sociedades africanas que buscam a democracia, como sistema de governação participativo é a formação e consolidação do espaço da sociedade civil”. E mais do que palavras eram os factos que prevaleciam.

Na defesa dos direitos humanos, trabalhou, desde muito cedo, na Comissão da Condição Feminina e depois na Comissão para a Igualdade dos Direitos da Mulheres, tendo integrado as delegações de Portugal à Conferência das Nações Unidas para a Década da Mulher em Copenhaga (1980) e nas Conferências de Bagdad (1984) e de Pequim (1995). Com Ana Vicente e Leonor Xavier, saudosas amigas, participou ativamente no Movimento “Nós Somos Igreja”, sempre na primeira linha da reflexão e da mobilização de vontades. Como referiu em nota a direção do Centro de Reflexão Cristã: “Sempre viveu e lutou pelas causas em que acreditava”. Todos  nos lembramos do entusiasmo que punha na defesa dos seus argumentos.Com grande determinação, sempre esteve atenta à reforma da Igreja e à necessidade de uma participação efetiva do Povo de Deus nesse compromisso, na linha das Constituições do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes e Lumen Gentium. Os sinais no sentido de reconhecer em todas as consequências o papel insubstituível da mulher, levaram, aliás, o Papa Francisco a pedir para que tenham de ser reconhecidas em cada cultura a dignidade das mulheres e a riqueza do seu contributo, de modo a que cessem as discriminações de que são vítimas ainda em várias partes do mundo. É preciso tirar consequências e Maria João não cessava de insistir neste tema, que deveria exigir mais audácia, reconhecendo que os passos que vão sendo dados, designadamente do Sínodo em curso são essenciais. No entanto, há um longo caminho a percorrer.

O exemplo que nos deixa obriga a fazer de uma prática de persistência e de responsabilidade a consagração do exemplo que nos é dado nos Evangelhos por Marta e Maria. Todos somos chamados à coragem. Em cada passo da sua vida, nos pequenos gestos, a Maria João Sande Lemos representou bem a presença das duas fases da vida que nos são apontadas nesse extraordinário episódio da Boa Nova, naturalmente completado pela descoberta do sepulcro vazio pelas mulheres, após a morte de Jesus. Foram, de facto, as mulheres as primeiras testemunhas da Ressurreição. Que melhor demonstração para essa fé inabalável que Maria João sempre defendeu e que não poderemos esquecer? 

Guilherme d’Oliveira Martins
Foto: CRC - Centro de Reflexão Cristã