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Pedro Vaz Patto
Uma dádiva e um sinal de esperança

Há temáticas sobre que tem falado o Papa Francisco de forma recorrente e que são da maior relevância, mas nem sempre têm o eco que seria devido.

Uma delas é a da crise demográfica, uma crise que suscita problemas de sustentabilidade de muitas sociedades (e já não apenas as europeias) cada vez mais evidentes e que exigem respostas ousadas que passam por uma mudança de mentalidades (um pouco à semelhança do que sucede com a crise climática, de que se fala muito mais).

O Papa voltou a falar sobre este assunto, no passado dia 10 de maio, no seu discurso dirigido aos “Estados Gerais da Natalidade”, um evento italiano que vai na quarta edição, depois de o ter feito também na edição anterior, há um ano.

A crise demográfica que hoje nos atinge é um bom exemplo de como muitas vezes importa resistir à cultura dominante sem a seguir acriticamente. Durante muito tempo, essa cultura dominante apontava de forma alarmista para os perigos do crescimento da população, como se os seres humanos representassem um problema e uma ameaça por si mesmos. Era aceite a tese de Thomas Malthus que, no final do século XVIII, alertava para o facto de a população tender a crescer numa proporção muito maior do que os recursos que permitem a sua subsistência. Nas décadas de sessenta a oitenta do século XX eram apresentados cenários desastrosos de fome para o ano 2000 (como o do célebre e influente livro de Paul Ehrlich, The Population Bomb). Afinal, o problema com que nos deparamos hoje não é o do excesso de população, mas o da queda abrupta dos nascimentos que não assegura a renovação das gerações. Um artigo do influente Wall Street Journal do passado dia 13 de maio tem por título: “Suddenly, there aren´t enough babies – The whole world is alarmed” (“De repente, não há bebés em número suficiente – O mundo inteiro está alarmado”).

O erro dessas teses e dessas previsões foi o de ignorar a riqueza que representa o ser humano (que não é apenas consumidor de recursos), de não confiar na sua inteligência e criatividade, as quais permitem multiplicar os recursos.

No seu discurso, o Papa Francisco afirma que a crise demográfica deve ser encarada com realismo, largueza de horizontes e coragem.

A propósito do realismo, alude às referidas teses, afirmando que sempre lhe impressionou o facto de elas encararem o ser humano como um problema, quando a vida humana não é um problema, mas uma dádiva.  Quanto à fome e à poluição, com veemência afirma que elas não são provocadas pelo nascimento de crianças, mas «pelas escolhas de quem pensa apenas em si próprio, pelo delírio de um materialismo desenfreado, cego e invasor, de um consumismo que, como um vírus maléfico, ataca na sua raiz a existência das pessoas e da sociedade»; ou seja, o «problema não é quantos somos no mundo, mas que mundo estamos a construir». E acrescenta de forma lapidar: «O número de nascimentos é o primeiro indicador da esperança de um povo. Sem crianças e jovens, um país perde o seu desejo de futuro».

É necessária largueza de horizontes (“lungimiranza”) no plano institucional, com políticas eficazes de longo prazo, que semeiem hoje o que será colhido amanhã pela próxima geração. As mães não devem ter de escolher entre o trabalho e o cuidado dos filhos. Os jovens devem poder realizar os seus sonhos legítimos, com um trabalho estável e o acesso a uma casa (vê-se que o Papa conhece bem a realidade de hoje em muitos países, como o nosso). Há que promover, no plano social, «uma cultura da generosidade e da solidariedade intergeracional, para rever hábitos e estilos de vida, renunciando ao que é supérfluo com o objetivo de dar aos mais jovens uma esperança para o amanhã, como sucede em muitas famílias».

O apelo à coragem é dirigido aos jovens (que podem desanimar perante todos os problemas que hoje enfrentam): «Não desistais, tende confiança, porque o amanhã não é algo de inelutável: construímo-lo juntos, e neste “juntos”, antes de tudo, encontramos o Senhor».

 

Pedro Vaz Patto
Foto: Vatican Media