Artigos |
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A última lição de Maria

Conta-nos São João que, junto à Cruz de Jesus, estava Maria, a Mãe de Cristo, que, nesse momento, foi constituída Mãe do apóstolo e, também, de todos os discípulos de seu divino Filho.

Talvez não nos choque que Jesus, do alto da Cruz, tenha pedido a Nossa Senhora que aceitasse mais esta missão, mas a mesma era muito humilhante para a que já era Mãe de Deus. Com efeito, para quem, sendo imaculada, gerou o próprio Deus, não era nada honroso aceitar como seus filhos, mesmo que adoptivos, os seus seguidores que, embora João estivesse presente, brilharam pela sua ausência naquele tão trágico momento.

Maria, depois de viver intensamente a paixão dolorosa do seu Filho, estaria decerto exausta e, por isso merecia ser de imediato levada para o Céu, onde já se encontravam São José, seu querido marido; seus pais, São Joaquim e Santa Ana; sua prima Santa Isabel e o seu filho São João Baptista; e tantos outros que, menos do que ela, mereceram a bem-aventurança celestial. Para o Céu seguia também, muito em breve, o seu Filho Jesus Cristo, cuja gloriosa ascensão aconteceu pouco depois da sua ressurreição.

Que sentido fazia continuar Maria na terra, tão só?! Como justificar a sua presença, ainda por cima em tempos difíceis, em que a Igreja era violentamente fustigada pelas perseguições dos judeus e dos romanos, interessados em fazer desaparecer da face da terra esta nova religião, que parecia ameaçar o seu império?!

Sim, é verdade, não faltavam razões de conveniência, de justiça e até de caridade que aconselhavam a assunção de Nossa Senhora ao Céu, de que é muito justamente Rainha e Senhora. Não obstante, foi-lhe pedido uma última e derradeira missão: uma nova maternidade em relação a todos os cristãos! Não era, de facto, um encargo fácil, nem sequer especialmente honroso, pois nem sequer ficava a governar a Igreja, nem à sua frente, mas ao seu humilde e silencioso serviço como, aliás, sempre fizera.

Os Evangelhos são omissos quanto ao modo como Maria cumpriu esta sua nova maternidade mas, ao relatar que, ao fim da tarde do dia da ressurreição de Jesus, todos os apóstolos, com a excepção de Judas Iscariotes, que já o não era, e de Tomé, se encontravam no cenáculo, permite supor que foi Nossa Senhora quem, discretamente, os foi chamar, de novo, para a missão que, ao contrário do que podiam pensar, não estava terminada, mas prestes a começar. Lucas, no seu segundo livro, refere esta presença discreta de Nossa Senhora, que cita em último lugar porque foi o que efectivamente escolheu para si, como sempre fazem as mães.

Mesmo depois, quando realizada a sua última missão terrena, Maria subiu finalmente aos céus, não deixou de exercer essa sua nova maternidade, de que tantas aparições, basílicas, igrejas, capelas e ermidas dão fé. Quantos motivos, portanto, para a honrar de forma muito especial neste seu mês de Maio, sobretudo rezando diariamente o santo rosário, como foi seu insistente pedido em Fátima.

 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
foto: Arlindo Homem