Lisboa |
Missa exequial de Maria Luísa Paiva Boléo (1941-2024)
Maria Luísa tinha “a arte” de “simplificar, tornar acutilante e penetrante” a Palavra de Deus
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O Patriarca de Lisboa destacou a missão e a obra da catequista Maria Luísa Paiva Boléo, que colaborava com o secretariado diocesano da Catequese há mais de 60 anos e faleceu no dia 28 de abril, aos 82 anos. Segundo D. Rui Valério, Maria Luísa “viveu sempre na glória de Deus” e tinha “a arte” de “simplificar, tornar acutilante e penetrante” a Palavra de Deus.

“Maria Luísa escutou a voz de Deus, acolheu-a, para dela ser depois ressonância, para depois ser testemunha e missionária. Os ensinamentos, a partilha, o testemunho e tudo aquilo que era profecia emanada da nossa irmã não era apenas uma maravilhosa e magnífica ciência catequética, era mais do que isso: era Palavra de Deus. Uma Palavra de Deus que nos chegava, uma Palavra de Deus que nos era transmitida e que, sobretudo, nos tocava profundamente. Ninguém era indiferente pelo modo como ela fazia falar a Palavra de Deus. Fazia e era capaz de pôr a falar, para nós, a própria Palavra de Deus”, destacou D. Rui Valério, durante a homilia na Eucaristia exequial, na tarde do dia 1 de maio, na igreja paroquial de Casal de Cambra, na Vigararia da Amadora.

“À Maria Luísa nós devemos a graça de também podermos dizer: ‘Finalmente, ouvi a Palavra de Deus’, de tal maneira ela a traduzia. Era capaz de a encarnar, de a simplificar, de a tornar acutilante e penetrante. E sobretudo de lhe dar aquela capacidade que a Palavra de Deus tem de ter sempre: ou seja, a personalização. É uma Palavra dirigida a ti, é uma Palavra que fala a tua vida, a tua existência. Maria Luísa tinha esta arte de fazer da catequese lugar de sustento da Palavra de Deus e de mergulhar no seu mistério”, acrescentou.

 

Um novo céu e uma nova terra

Nascida em 1941, Maria Luísa Trincão de Paiva Boléo era natural da paróquia da Sé e começou a dar catequese aos 15 anos, em outubro de 1956, na paróquia de São João de Deus, em Lisboa. A entrada para o Secretariado Diocesano da Catequese de Lisboa aconteceu em outubro de 1961, onde ainda hoje mantinha colaboração. Faleceu a 28 de abril, aos 82 anos. “Em Cristo, saúdo a nossa irmã Maria Luísa, que desfruta já dessa nova condição de ter alcançado uma eternidade, a plenitude da vida que o Senhor ressuscitado comunica a todas e a todos aquelas e aqueles que Ele ama. Uma saudação de agradecimento ao Senhor pela obra que fez na e com a nossa irmã e através dela em benefício e em prol de toda a Igreja, particularmente de toda a Igreja em Portugal, concretamente de Lisboa, nomeadamente nessa dimensão tão vital, tão fundamental, como é a catequese”, observou o Patriarca, no início da celebração exequial.

Na sua homilia, D. Rui Valério começou por referir que Maria Luísa Paiva Boléo “testemunhou-nos que, verdadeiramente, viu, e via, um novo céu e uma nova terra”. “«Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra». Também a nossa irmã Maria Luísa, ao longo da sua vida, não cessou jamais de nos testemunhar como também ela viu um novo céu, via a nova terra. Via esse novo céu que, para ela, era a origem e a fonte de onde efetivamente emanava a nova Jerusalém, a Igreja. Para a nossa irmã, a Igreja não era apenas uma maravilhosa invenção ou obra humana. A Igreja afundava as suas raízes no próprio coração de Deus. Um coração que a fascinou desde tenra idade, que a atraiu e que, de certa forma, era esse coração como que uma fonte a que Maria Luísa sempre regressava, sempre voltava para recuperar para si força, alento e esperança para prosseguir na caminhada da sanidade”, lembrou.

Para o Patriarca, esta catequista “também testemunhou que via uma nova terra”. “O seu otimismo, a sua alegria, a sua capacidade de visualizar e vislumbrar a presença de Deus nos factos, artefactos e contra factos mais contrastantes da história humana. Quem ouvia as suas conferências, ou então quem acolhia as suas instruções, as suas ações de formação, não deixava de se surpreender da capacidade de encontrar fontes, princípios e gérmenes de uma nova esperança”, frisou.

 

Pureza de coração

Perante familiares, amigos e catequistas da diocese, além dos membros da equipa do Setor da Catequese de Lisboa, D. Rui Valério considerou ainda que a vida de Maria Luísa Paiva Boléo esteve sempre “inundada” de Cristo ressuscitado. “Hoje nós queremos, a partir do que ela nos deixou como testemunho, tentar chegar àquele ponto de acolher, de compreender, de onde emanava, de onde provinha, essa capacidade de ver. E a resposta só pode ser, antes de mais, porque ela própria estava inundada daquela nova vida que Cristo ressuscitado tinha adquirido e conquistado para si e para toda a humanidade, para todas e todos aqueles que, com Ele, ressuscitam. Quem está enriquecido, quem está preenchido, quem está caracterizado verdadeiramente por esta nova vida de Deus, esta nova vida que é uma vida de comunhão, que é uma vida de plenitude, não pode não ter um novo entendimento, um novo a olhar sobre o real, sobre as pessoas, sobre o mundo e sobre a história. E também sobre o céu e sobre a terra”, apontou, destacando depois a “pureza de coração” como “uma marca desta nossa irmã”.

“A pureza de coração significa uma alma plena, preenchida pela graça de Deus. A humildade com que a Maria Luísa nos partilhava a sua longa e profunda sabedoria, a humildade com que ela se colocava na catequese entre os seus pares, ou então até entre os seus discípulos, refletiu muito bem a grandeza, a profundidade desta pureza de coração”, referiu.

 

“Um grande obrigado”

Maria Luísa Paiva Boléo faleceu a 28 de abril, tal como São Luís Maria Grignion de Montfort, sacerdote francês fundador dos Padres Monfortinos – congregação a que o Patriarca pertence –, “que também partiu para a eternidade no dia 28 de abril, mas de 1716, em Saint-Laurent-sur-Sèvre”. “O que me tocou forte cá dentro foi que ele morreu exausto da missão e disse, no dia da sua morte, as palavras: ‘Cheguei à Meta’. É interessante que naquela noite de Domingo dia 28 de abril, a nossa irmã Maria Luísa, depois de uma vida de entrega, de doação, tivesse partido também ela para a Casa do Pai. Vi aqui uma coincidência da Providência”, observou D. Rui Valério.

A última palavra da homilia foi novamente de agradecimento à missão desta catequista e formadora de catequistas que marcou a catequese no nosso país. “Em nome do Patriarcado de Lisboa, mas também falando em nome do Senhor D. Joaquim [Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa] e de todos os outros meus irmãos Bispos, ou seja, de todas as dioceses de Portugal, só podemos aqui pronunciar uma palavra por tudo o que a Maria Luísa deu na implementação, no caminho, na promoção, no rosto, na dinâmica, na importância da catequese. Como dizia alguém: ‘Sem a Maria Luísa, sim, haveria catequese na mesma, mas não era a mesma coisa’. Então, vamos-lhe dar um grande obrigado e que ela, na glória de Deus onde sempre viveu, interceda pela catequese, pelos catequistas e pelos catequizandos de todos os tempos”, terminou o Patriarca de Lisboa.

Após a Eucaristia exequial, o funeral seguiu para o Cemitério de Caneças.

 
 

Vigília de oração

Na vigília de oração com o tema ‘Ser catequista: uma paixão’, que decorreu na noite do velório, a 30 de abril, o diretor do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa recordou “a primeira vez” que ouviu falar de Maria Luísa Paiva Boléo. “Não a conhecia. Tinha 10 anos e recebi um catecismo que se chamava ‘Eu sou o vosso Deus’. De vez em quando, nesse catecismo, aparecia o nome dessa senhora, que de facto não tinha um apelido muito comum. Recordo-me desse catecismo e sobretudo da experiência que tive na catequese nesse ano, não só porque o grupo era bom e a catequista também, mas lembro-me que foi um ano muito importante para todos os que estávamos na catequese, porque fizemos coisas diferentes e até preparámos catequeses novas. Portanto, tenho lembrança deste apelido, desta pessoa”, contou o padre Tiago Neto, durante a celebração que encheu a igreja paroquial de Caneças.

Este responsável sublinhou ainda a importância “daquele catecismo, com desenhos e a cores”, e destacou que conheceu Maria Luísa pessoalmente, “em contactos comuns e familiares”, durante o seu tempo de seminário, no chamado “ano pastoral”, realizado “na Portela”. “Depois então, praticamente desde há 17-18 anos, tenho trabalhado com ela na catequese. A Maria Luísa teve e tem uma grande importância na nossa catequese diocesana, e aquilo que ela nos ensinou continuará a soar nos nossos corações e na nossa vida para o futuro”, considerou o diretor do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa, na vigília de oração ‘Ser catequista: uma paixão’.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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