Brotéria |
Brotéria #13
Francisco Martins, A Bíblia tinha mesmo razão? As histórias de Israel e o Israel da história
<<
1/
>>
Imagem

(Lisboa: Temas e Debates, 2023)

 

Este livro do biblista P. Francisco Martins (FM) é um acontecimento científico marcadamente atual e de grande significado a nível internacional, e mais ainda no nosso espaço de mais reduzida produtividade neste âmbito. FM insere-se num diálogo intergeracional de leitores e leituras da Bíblia, prosseguido, de forma esforçada e frequentemente sofrida, ao longo de mais de dois séculos. Este A Bíblia tinha mesmo razão?, com a ênfase do “mesmo” e a forma interrogativa, tem por objetivo proceder a nova verificação dos dados relativamente às posições do já antigo livro A Bíblia tinha razão de Werner Keller. A definição específica de objetivos que o subtítulo supõe, As histórias de Israel e o Israel da História, traduz bem a vontade de assumir o máximo de amplitude e de perspetivas que configuram uma exigente historiografia do Israel dos tempos bíblicos, com os dados e instrumentos de trabalho hoje disponíveis. Também aqui a verificação e comparação de resultados se processa entre os dados da arqueologia e o teor das narrativas de modelo historiográfico que os autores bíblicos nos deixaram. O exame incide diretamente sobre o teor de historicidade que estes textos nos garantem. Sabemos como a questão da historicidade e a ressonância dos factos têm sido significativas para as expectativas de sentido e verdade, tanto na linguagem da Bíblia como no discurso religioso em geral. Na verdade, facto e sentido são conceitos que, nestes contextos, parecem apresentar-se numa condição epistemológica de mútua cumplicidade.

Entretanto, a arqueologia bíblica desenvolveu-se até ao ponto de poder apresentar propostas de síntese historiográfica capazes de estabelecer diálogo e comparação com as narrativas bíblicas. E isso permite apurar o sentido e o alcance destas. A tarefa que FM empreendeu e expôs com clareza e bastante pedagogia foi a de compulsar o imenso trabalho científico, que se expõe na variadíssima bibliografia por ele referida, e que cada vez mais se vai tornando acessível também por via das conferências e cursos que as universidades pioneiras em matéria de difusão científica online, tanto em Israel como no resto do mundo, têm à disposição do grande público.

 

 

 


Seguindo o fio condutor da história do mundo e de Israel, segundo o qual foram ordenados os livros da Bíblia, FM vai aferindo épocas e questões em que mais problemas se podem detetar entre a realidade dos factos que a arqueologia nos ajuda a definir e o modo como as narrativas bíblicas os registam, ponderando a realidade dos primeiros e a modalidade e as razões específicas das segundas. A maior concentração de problemas situa-se naturalmente nas zonas mais profundas, como são a época patriarcal, as origens de Israel, como as da sua relação com Egito e com o próprio território de Canaã, enquanto grupo que vem de fora em dinâmica de conquista ou, em alternativa, se desenvolve desde dentro em processos de progressiva diferenciação social, cultural e religiosa. Um tema que acaba por ser biblicamente muito relevante é o da origem da conceção matricial de Javé, com raízes nas regiões distantes situadas entre o nordeste da península do Sinai e o noroeste da península da Arábia, num ambiente cultural que sugere, tanto subtilezas de avanço civilizacional e cultural, como modelos de organização social de nomadismo. Os dados arqueológicos e os processos detetáveis nos textos sugerem intensos percursos de evolução intercultural, riqueza que condiz naturalmente com uma ideia tão importante como esta.

Um dos pontos mais sensíveis que têm sido objeto de intensas discussões entre os pontos de vista da arqueologia e o teor das narrativas históricas da Bíblia situa-se em torno das figuras de Saul, David e Salomão e daquilo que, na Bíblia, se apresenta como a época da monarquia única com a capital em Jerusalém, podendo dar-se que Saul seja uma imagem mais ou menos definida dos inícios da monarquia de Israel, o reino do Norte, representando David a mesma imagem embrionária para a monarquia de Judá, o reino do Sul. O fulgor bíblico do reinado e da figura de Salomão parece ficar, desta maneira, bastante esbatido numa imagem arqueológica de Jerusalém demasiado modesta para comportar tamanha grandeza. Daqui resulta que as monarquias de Israel e de Judá pareçam apresentar-se como duas entidades paralelas, possivelmente desde o princípio, mantendo, no entanto, laços de proximidade e alguma fraternidade social e cultural, que não impediu momentos de desentendimento e de guerra. Depois da destruição do reino de Israel pelos assírios em 721 a. C. e com os seus refugiados, Judá acolheu a herança patrimonial comum que os do Norte tinham mais desenvolvida e fez do nome de Israel o designativo de identidade histórica comum a todos os hebreus, definindo uma nova centralidade que deu origem a que, hoje, os herdeiros daquele património se chamem judeus e não israelitas.

Com doses eventualmente menos densas de comparação com os dados provenientes da arqueologia, FM sintetiza o resto do percurso dos livros históricos da Bíblia até às portas do Novo Testamento, oferecendo assim uma síntese atualizada e transparente da sua história. Face ao que hoje se percebe como sendo os factos arqueológicos, foi assim compulsada a realidade do Israel bíblico, comparada com o que transparece dos seus principais livros de narrativa historiográfica.

É evidente que as razões que a Bíblia tem não se limitam a esta gama de textos. Para além destes, numerosos outros livros se nos apresentam, carregados de razões específicas. A sua incidência em matéria de arqueologia é naturalmente menor. Esta verificação e pacificação epistemológica da dimensão histórica da Bíblia era absolutamente urgente. Por isso, o serviço prestado por FM é altamente significativo e útil; e é certamente de agradecer. Mas, enquanto sintetizava as razões que apresentou, outros domínios de razões da Bíblia andavam necessariamente no espírito do Autor, como núcleo possível para uma segunda síntese. A questão é pacífica, pois as suas tarefas académicas estão bem adequadas para produzir mais leituras bíblicas para o nosso espaço, deficitário como está em leituras de informação e de síntese.

 

José Augusto Ramos
Publicado em Brotéria 198-4/abril (2024): 421-422


A OPINIÃO DE
Guilherme d'Oliveira Martins
O poema chama-se “Missa das 10” e foi publicado no volume Pelicano (1987). Pode dizer-se...
ver [+]

Tony Neves
Cerca de 3 mil Espiritanos, espalhados por 63 países, nos cinco continentes, anunciam o Evangelho....
ver [+]

Tony Neves
Deixei Cabo Verde, terra da ‘morabeza’, já cheio da ‘sodade’ que tão bem nos cantava Cesária Évora.
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Talvez a mais surpreendente iniciativa do pontificado do Papa Francisco (onde as surpresas abundam)...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
EDIÇÕES ANTERIORES