Entrevistas |
Padre Fernando Sampaio, diretor da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa - Parte 2
“É cada vez mais responsabilidade do doente e da sua família pedir a assistência espiritual religiosa”
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O diretor da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa apelou a que “as comunidades cristãs estejam sempre atentas aos seus doentes” e não apenas no Dia Mundial do Doente. “É preciso não esquecer que há sempre doentes e não apenas num dia do ano”, lembra. Na segunda parte da entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Fernando Sampaio destaca ainda a Mensagem do Papa Francisco para este dia e sublinha que é “a relacionalidade” que “leva ao cuidar”.

 

O que gostaria de dizer a um católico que dá entrada no hospital?

Os voluntários, quando vão visitar os doentes, vão apenas por indicação. Nós damos-lhes os nomes e os lugares onde estão os doentes que eles devem ir visitar. Já não há visita geral. É da Lei e isso impõe-se na medida em que há outras religiões que também vêm, ou devem vir, prestar assistência aos seus doentes.

Nós aprovámos alguns documentos para a capelania do Hospital de Santa Maria, a nível da administração, que têm a ver com a estruturação da capelania de forma plural. Por vezes, os doentes católicos vêm para o hospital e não pedem a assistência espiritual religiosa e depois reclamam que ninguém passou. É cada vez mais responsabilidade do doente e da sua família pedir a assistência espiritual. Cada vez mais! Uma das coisas que queremos implantar aqui, e é urgente – e para isso precisamos da ajuda de todos os profissionais –, é quando o doente vem para o hospital, internado, é-lhe dada a informação da existência do serviço de assistência espiritual, dos seus direitos e ele deve dar o seu desejo de ter ou não ter a assistência espiritual. É uma forma de consentir ou não a assistência espiritual religiosa.

 

Neste Domingo, dia 11 de fevereiro, a Igreja celebra o Dia Mundial do Doente. De que forma as paróquias podem viver e assinalar este dia?

É muito bonito assinalar este dia, juntar os doentes e celebrar com os doentes; mas é preciso não esquecer que há sempre doentes e não apenas num dia do ano. É necessário que as comunidades cristãs estejam sempre atentas aos seus doentes e não apenas no Dia Mundial do Doente. É importante juntá-los para os fazer sentir que são pertença da comunidade. Essa, aliás, deve ser uma preocupação permanente na paróquia, nas comunidades cristãs, através da organização da Pastoral da Saúde, para que, desse modo, a comunidade se torne presente aos diversos doentes e os doentes também sintam a presença da comunidade através das visitas dos grupos da Pastoral da Saúde.

Já se faz muita coisa nas paróquias, com visitadores, com a Legião de Maria, com os ministros extraordinários da comunhão, mas é necessário fazê-lo de forma mais organizada, mais estruturada. Há diferentes grupos, mas eles não estão organizados, não estão coordenados, e por vezes fazem coisas paralelas e podiam rentabilizar muito mais e trabalhar em rede.

 

As paróquias que sintam esse desejo de criar um grupo de Pastoral da Saúde podem contactar o Setor da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa?

Em muitas paróquias já há Pastoral da Saúde organizada. E há paróquias onde a Pastoral da Saúde trabalha muito bem, extraordinariamente bem. Mas é necessário que estas experiências que existem sejam duplicadas, triplicadas, quadruplicadas… portanto, contactem connosco, através do e-mail saude@patriarcado-lisboa.pt, que nós temos todas as ferramentas para ajudar e auxiliar à fundação e a organização da Pastoral da Saúde na paróquia.

 

Tal como tem acontecido nos últimos anos, neste Dia Mundial do Doente o Patriarca de Lisboa vai celebrar a Missa num hospital, no caso no Hospital Pulido Valente. É importante este sinal que a Igreja dá todos os anos?

É um sinal que a Igreja se preocupa e tem no seu coração os doentes. Nós não nos podemos esquecer daqueles que estão frágeis, que estão doentes, que estão sós. Não podemos descartá-los, como diz o Papa. A comunidade cristã tem de ser hospedaria do Bom Samaritano. Nesse sentido, a presença do Senhor Patriarca, a presença do nosso Pastor, é muito importante. Ele vai, naturalmente, dar a Santa Unção a alguns doentes e isso é importante até para nos recordar este sacramento de cura – a minha mãe costumava chamar-lhe ‘o sacramento das melhoras’. Achei muito bonito, quando ouvi, pela primeira vez, ela dizer isso. A minha mãe tinha estado doente e foi depois da Santa Unção que ela começou a melhorar – isso aconteceu duas vezes, numa doença grave que ela teve.

Por outro lado, é ao olhar para os nossos irmãos frágeis, para os nossos irmãos doentes, que nós fazemos aquilo que o Papa diz [na Mensagem para o Dia Mundial do Doente 2024] de cuidar das relações. E nesse sentido o nosso Pastor é aquele que primeiro deve cuidar das relações.

 

A Mensagem do Papa Francisco para o 32.º Dia Mundial do Doente tem como tema ‘«Não é conveniente que o homem esteja só». Cuidar do doente, cuidando das relações’. O que destaca desta mensagem do Santo Padre?

É uma mensagem muito bonita, muito curtinha. O Papa pega num ponto fundamental: partindo de um ponto – do Livro do Génesis, quando diz ‘«Não é conveniente que o homem esteja só» – que, à partida, é estranho, ele refere que, na realidade, a nossa condição humana tem esta característica de ser relacional. Nós somos, por excelência, pessoas de relação. A relacionalidade é uma dimensão fundamental da nossa existência. Nós somos frágeis e a fragilidade muito mais exige esta relacionalidade, que leva ao cuidar. Há muitos períodos da nossa vida em que precisamos dos outros: logo quando nascemos, mas também precisamos de ser cuidados em crianças, em adolescentes, em jovens. Precisamos de ser cuidados quanto temos algum problema de saúde que nos fragiliza; precisamos de ser cuidados quando envelhecemos. É a característica da fragilidade que nos leva a esta necessidade de cuidar e ser cuidado.

Por outro lado, uma das coisas muito bonitas é que o cuidar nos humaniza, torna-nos muito mais humanos, aproxima-nos muito mais do outro. A nossa fragilidade, a nossa vulnerabilidade e até a nossa mortalidade, longe de ser um problema, é um recurso, porque nos aproxima uns dos outros e produz em nós a comunhão. O Papa pega na parábola do Bom Samaritano, da necessidade de ir ao encontro do outro, de se aproximar do outro, e nós aproximamo-nos da ferida, da vulnerabilidade. É isso que nos fortalece e que vai fortalecer o outro, e chamá-lo novamente a que ele seja verdadeiramente pessoa.

Face ao individualismo que caracteriza a nossa sociedade e que leva a que as pessoas se isolem, a mensagem do Papa dá conta que nós, na raiz, devemos ter o movimento contrário, que é de aproximação e não de afastamento. Na nossa cidade, nas zonas mais velhas da nossa cidade, há idosos que vivem sós, que não têm ninguém, que, por vezes, não podem descer de um terceiro andar sem elevador e não têm quem lhes faça as compras, quem lhes faça chegar os medicamentos. Têm dificuldades graves. Na sociedade civil, há mobilização para ajudar estes idosos, e as comunidades cristãs têm de estar presentes também. E quem diz nas zonas mais velhas da cidade, diz nas zonas mais isoladas, diz também em muitas outras aldeias onde é necessário ir ao encontro daqueles que estão mais sós. As comunidades cristãos não se podem fechar.

 

A primeira parte da entrevista pode ser lida AQUI

 

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