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Brotéria #10
Agostinho de Hipona, Sermões II – Os Evangelhos
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Trad. José António Gonçalves; introdução e notas Isidro Pereira Lamelas
Secretariado Nacional de Liturgia, 2023

 

O SNL prossegue a publicação dos Sermões de Santo Agostinho, reunindo agora, neste 2.º volume, os 128 sermões dedicados aos quatro Evangelhos e ordenados segundo a sequência do texto bíblico. Trata-se de um trabalho que merece ser destacado, no relativo deserto editorial que é, em Portugal, a publicação de obras da tradição cristã, sobretudo dos períodos patrístico e medieval, contrariado (quase) apenas pelos trabalhos de tradução e edição do professor Isidro Lamelas.

Mestre de retórica, amante e pai, discípulo maniqueu, catecúmeno católico, monge, presbítero, bispo... ao fecundo trabalho de linguagem que representa o corpus homilético de Agostinho não é indiferente o seu complexo percurso biográfico na busca da Verdade, ainda que estes textos pertençam já ao seu ministério como presbítero e bispo no norte de África. Encontramos aqui, quer breves homilias a comentar algum ponto suscitado pela leitura textual, quer autênticos comentários que, na prática atual, se situam mais próximos da catequese bíblica. Três são os âmbitos de familiaridade que estão em jogo neste exercício da palavra: a familiaridade com uma língua enquanto jogo e forma de vida; a familiaridade com os textos bíblicos; e a familiaridade com a comunidade ouvinte. Se cada uma destas dimensões é, já por si, algo difícil de conquistar, Agostinho alcança a proeza de reunir as três: daí a força significante do seu discurso.

Porque é um património textual que aqui encontramos: não temos acesso ao Agostinho pregador senão nos elementos enunciativos presentes no enunciado. Vale a pena citar algumas marcas de oralidade: «Se eu me afadigo em explicar-vos o que sinto, ajudai-me não só com a atenção própria de quem escuta, mas também com a sagacidade própria de quem pensa» [p. 807]. «Irmãos, reparais no que eu digo? Na verdade, não sei como o hei de dizer, mas sobretudo não sei é como o hei de calar» [p. 405]. «Junto do poço onde o Senhor cansado se sentou, mistérios realmente grandiosos aconteceram. Mas o tempo é curto para aprofundar tudo» (p. 509). «Tende pena de mim, pois que sentis a minha voz a fraquejar. Ajudai-me com o vosso sossego» (p. 814). «Oh se Ele me concedesse a graça de dizer o que quero!» [p. 872]. Encontramos nestas marcas, em comum, um desejo de comunicação e ensino próprio de quem se deixa fascinar pelo texto bíblico, e não de quem está apenas a pregar em virtude de uma função que lhe é atribuída ou de um papel que lhe é imposto.

Agostinho centra a sua atenção ao próprio texto e não às ideias ou doutrinas a ele habitualmente associadas. Busca a disseminação do sentido e não o seu centro (a mensagem “escondida”), realçando as dificuldades e paradoxos textuais como oportunidades de reflexão e aprofundamento, num trabalho de desejo do leitor e do prazer do texto. Permanecendo na passagem evangélica que deve comentar, Agostinho é também mestre de intertextualidade: os Salmos e Paulo são os interlocutores privilegiados para iluminar com a experiência crente o que de outro modo seria um exercício frio de dissecação textual. «As leituras divinas animam-nos, para não nos quebrantarmos com o desespero, e também nos atemorizam, para não nos pavonearmos com a soberba» [p. 879]. O trabalho das figuras é constante, assim como as sentenças breves, ótimas para a memorização pessoal de quem escuta: «Também as lágrimas são o sangue do coração» [p. 320]; «nós prestamos culto a Deus e Deus cultiva-nos a nós» [p. 382].

Não é aqui o momento de sintetizar nalgumas categorias a pluralidade de eixos presentes neste corpus. Uma certeza, porém: são as questões humanas fundamentais, do seu tempo como de hoje. Elenquemos algumas: a oração, nomeadamente a oração do pecador que, para Agostinho, é a condição que a luz da graça revela em nós, retirando-nos da ilusão da autossuficiência; o diálogo e a busca da unidade numa região em que os cristãos viviam dividido entre grupos cujos nomes, hoje, nos soam estranhos (maniqueus, pelagianos, arianos); finalmente, a riqueza, a pobreza e a partilha à luz do Evangelho. Sobre estas encontramos as sentenças mais incisivas: «Para que tu não julgues que fazes algo de extraordinário, lá porque repartes o pão com o pobre, quando isto mal atinge a milésima parte das tuas possibilidades» [p. 371]. Mas não é a riqueza a fonte do mal, e sim a avareza, mesmo no pobre que ambiciona ser rico ao invés do rico que com os seus bens alimenta a muitos. E não é na origem honesta dos bens que está a segurança: «guardas com ganância o que tens, a bem dizer, com uma boa consciência» [p. 559]. 

Alguns dos apelos lançados por Agostinho são perfeitamente atuais, dezasseis séculos depois, pedindo mais a escuta disponível do que o comentário. Citemos alguns, em forma de convite à leitura: «Haverá coisa pior do que os cuidados da vida que não deixam que se alcance a vida? Haverá coisa mais miserável que deixar escapar a vida por preocupar-se com ela? Haverá coisa mais infeliz que cair na morte, por se ter medo dela?» [p. 511]. «Se estamos a falar de Deus, que admiração há em não seres capaz de O compreender? Com efeito, se O compreendes, não se trata de Deus» [p. 677]. «Todos os dias os códices da palavra do Senhor estão postos à venda e o leitor também os lê. Compra-os para ti e lê-os tu, quando tiveres vagar, ou melhor, faz por ter vagar. É melhor ter vagar para isto, do que para frivolidades» (p. 661).

Agostinho trabalha, investe, interroga. Não faz arqueologia do passado – que sentido teria este texto para o seu autor ou comunidade –, mas acolhe o sentido que vem, que gera os crentes para uma vida nova. Não é do passado que estes Sermões nos falam, mas do futuro, da arte de projetar os discípulos para o Ressuscitado, Aquele que vem no rosto do Outro. «Não podes curar um doente, mas podes vestir o nu. Faz o que podes. Deus não te exige o que não podes» [p. 730]. Uma leitura contínua, vagarosa, destes Sermões permitirá mergulhar o leitor numa pedagogia da vida cristã; uma consulta regular, por ocasião de uma homilia ou sermão, permitirá ao orador alimentar-se de um discurso vivo e fecundo. Em ambos os casos, trata-se de um livro a cujo privilégio de encontrarmos publicado em Portugal deverá corresponder uma atenção agradecida.

 

Publicado em Brotéria 198-1 (2024): 113-115


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