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António Bagão Félix
A Boa Nova do Presépio

Vivemos em tempo de arrebatamento profano da cada vez mais estendida época natalícia. Luzes e cores, compras e prendas, consumo e consumidos, árvores de Natal em todas as versões de fantasia, e formato, pais-natais globalizados, bolos-rei e rainha (sem a fava que agora só a há em forma de impostos e taxas), votos festivos sinceros e mecânicos.

Há umas semanas estive em Tóquio e fiquei surpreendido com o esplendor do Natal japonês, desde as iluminações às árvores natalícias e às músicas tradicionais da época. Em suma, o Natal é cada vez mais um natal global para comprar, vender, divertir, comer, ilusionar. Mesmo assim, tem um sentido que me agrada. É o da força da sua associação urbi et orbi ao verdadeiro Natal cristão, ainda que por via laicizada. E também o de proporcionar momentos de maior fraternidade e solidariedade e de realçar a centralidade da família. E, já agora, de nos proporcionar um suave regresso memorial aos sonhos de criança.

Mas, para um cristão, o Natal é, em primeiro lugar, o aniversário de Jesus. Por isso, a Luz do Natal deve superar o Natal de todas as luzes. O Natal significa a melhor prenda que alguma vez a humanidade recebeu: a Encarnação divina, o Menino Jesus! Anuncio-vos uma grande alegria (Lc 2,10) é a mensagem que nós celebramos no Natal e que foi recebido pelos pastores, os mais pobres entre os pobres: a da vitória da vida sobre a morte.

Por isso, simbolizo o Natal na minha casa e na família com um presépio. Este ano com a companhia que o Papa Francisco nos proporcionou com a sua carta apostólica ‘Admirabile Signum’ (“Sinal admirável”), que aprofunda o significado e o valor do presépio como representação simbólica do nascimento de Jesus. Um texto que foi divulgado na pequena localidade italiana de Greccio, onde há precisamente 800 anos São Francisco de Assis montou o primeiro presépio do mundo, formado e vivido pelos que com ele estavam presentes, assim iniciando uma tradição de rica e memorável espiritualidade familiar e popular. O Papa escreve que o presépio permanece até hoje “como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé”. Exorta os cristãos a armarem o Presépio nas suas casas, nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças para que revivamos jubilosamente “a história sucedida em Belém”. E, em forma de pergunta e resposta, o Papa Francisco resume magistralmente a essência do presépio: “por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove?”. “Antes de mais nada, porque manifesta a ternura de Deus”.

Escreve Sua Santidade que “Jesus nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial”. Como também está escrito na 2ª Carta de São Paulo aos Coríntios (8:9), Cristo “sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza”. É esta pobreza-riqueza que o presépio simboliza e nos impele a transmitir aos filhos e aos netos. Como de uma maneira tão bela, o Francisco evoca “pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração”.

Caso ainda não o tenha feito, exorto o leitor a ler esta tão afectuosa Carta Apostólica. Uma Carta que evoca um Deus que “dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças”. Uma Carta que nos conduz numa viagem através de todas figuras e os símbolos do Presépio do Menino: a figura do Menino Jesus, na sua “fraqueza e fragilidade”; a de Maria, “uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a quantos vêm visitá-lo”, e a de José, “o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família”. Mas também os pastores como as primeiras testemunhas do essencial e “que não conhecem outra abundância a não ser a do coração” e os Reis Magos que “ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo”, os animais, as ovelhas, o céu estrelado na escuridão, o silêncio da noite, as montanhas, os riachos, e até o simbolismo da manjedoura que exprime “a falta das coisas necessárias a um recém-nascido”. Aliás, a palavra presépio deriva do latim ‘praesepium’ que significa precisamente manjedoura.

Por fim, Francisco deixa votos de que a prática do presépio “nunca desapareça” e se possa mesmo “redescobrir e revitalizar”.

Um Santo Natal!

 

António Bagão Félix

(Texto escrito com a grafia anterior ao AO90)