Por uma Igreja sinodal |
Relatório de síntese
2. Mistério, paradoxo, um belga e revisão de vida
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2.1.O número 2. Reunidos e enviados pela Trindade da Parte I - “O Rosto Sinodal da Igreja” está estruturado em três perspetivas: Convergências, Questões a aprofundar e Propostas.

 

Nas Convergências salienta-se a Igreja[1] como povo unido porque envolvido “num dinamismo de comunhão e de missão que nos faz passar do eu ao nós e nos coloca ao serviço do mundo”. Nesse sentido deseja-se que a Igreja seja “testemunho da fraternidade eclesial” e “sinal e instrumento” do Mistério do próprio Deus. Assim, assinala-se na Igreja uma “incompletude constitutiva”, porém, um propósito último de uma realidade completa e definitiva – “advento do Reino”. 

A este propósito, note-se que no âmago da experiência cristã aloja-se o paradoxo[2]. E com ele a tentação de o resolver. Essa natureza paradoxal do cristianismo declina-se nas múltiplas abordagens aos seus elementos essenciais. Da teologia, em sentido específico, a partir da fundamental formulação do Deus Uno e Trino; à cristologia, o Deus encarnado que confere ao Homem a capacidade de expressar o divino. Esse paradoxo revela-se, em particular, como resultado desses consensos que condensam o depósito basilar do cristianismo na pluralidade das formulações que acompanharam o desdobramento histórico da fé cristã e estiveram na origem de múltiplas perspetivas – eclesiologia (forma de organizar a ecclesia, quer dizer, a assembleia dos fiéis). Desalojar a experiência cristã do paradoxo, acrescentamos nós, fá-la-á permeável a ateísmos e autoritarismos vários.

O tópico Convergências conclui com a premissa de que é na unidade e comunhão trinitária que reside a fonte da “profundidade espiritual” e a “renovação da comunidade cristã”. A caridade fraterna aparece assim como a imagem mais expressiva da Trindade de Deus.

 

2.2. No que diz respeito às Questões a aprofundar destaca-se como vital, por um lado, a promoção de “visões antropológicas e espirituais capazes de integrar e não justapor a dimensão intelectual e a emotiva da experiência da fé”, valorizando a par dos contributos do pensamento teológico também as ciências humanas e sociais. É repetida duas vezes a expressão «discernimento eclesial» e faz-se menção ao modelo “ver, julgar, agir”.

É, assim, feita uma alusão ao método de revisão de vida preconizado por Joseph Léon Cardijn, padre belga e fundador da Juventude Operária Católica – pertencente à Acção Católica Rural, sendo um dos ramos da Acção Católica Portuguesa (1933-1974)[3] –, que se tornou um arauto em favor das classes operárias e da formação da juventude através deste método. A revisão de vida pretende ser um caminho de encontro com Cristo e um meio gerador de comunhão, que leve a que Cristo seja a luz orientadora do caminhar cristão tendo em vista a transformação da vida, pessoal e coletiva através do modelo “ver, julgar, agir”. Ver remete para a observação dos objetos e realidades que estão à nossa frente, vendo a realidade como ela é, tornando-nos sujeitos desse objeto. Julgar é o ato pelo qual se avalia algo, é um juízo sobre uma qualidade que se atribui a alguém ou algo e que o qualifica. Em concreto, o julgar assume uma determinada expressão do que se vê, procurando-se considerar as causas e as consequências de um facto; o agir pretende pôr em prática uma ação, tendo como propósito a resposta a necessidades concretas e à transformação da realidade.

 

2.3. O número 2. do Relatório culmina com a apresentação de três Propostas. À luz do método de revisão de vida poderíamos elencá-las como três ações: 1.) “experimentar e adaptar formas de discernimento na vida a Igreja, valorizando, de acordo com as culturas e os contextos, a riqueza das várias tradições espirituais”; 2.) apelo a que cada Igreja local “se dote de pessoais idóneas e preparadas para facilitar e acompanhar processos de discernimento eclesial”; 3.) “reconhecer melhor os carismas presentes na comunidade, confiar com sabedoria tarefas e ministérios”.

 

Por fim, este número refere o “rico património espiritual da Tradição” e tal reveste-se de particular importância e estímulo. De facto, a configuração das correntes de espiritualidade em Portugal[4] é devedora de inúmeras influências e dos contactos das correntes de espiritualidade europeias e muito particularmente espanholas. Hoje, dada a penetração de pessoas (leigos, sacerdotes, religiosos e religiosas) provenientes do continente africano e asiático na diocese de Lisboa, não haverá um «novo» património espiritual a brotar fruto da confluência das várias especificidades dessas espiritualidades?

 



[1] Toma-se a noção de «Igreja» como a assembleia dos crentes na sua acepção confessional em torno da Igreja Católica Apostólica Romana. Fazemos esta precisão dado que este número do documento também refere as «comunidades cristãs» e tal pode remeter para um âmbito mais vasto, nomeadamente incluindo outras denominações cristãs.

[2] Sérgio Ribeiro Pinto – Reflexões em torno das raízes cristãs da secularização. Eborensia 52 (2018), 97.

[3] António Matos Ferreira; Paulo F. de Oliveira Fontes – Acção Católica Portuguesa. In AZEVEDO, Carlos Moreira, dir. - Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. A-C. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000 (acessível aqui: https://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/13496  ).

[4] Maria de Lurdes C. Fernandes – Espiritualidade. In AZEVEDO, Carlos Moreira, dir. - Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. C-I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000 (acessível aqui: https://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/13495 ).

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