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Pe. Alexandre Palma
Inteligência Artificial: o regresso do mistério?

Segundo alguns, a humanidade mudará nos próximos 20 anos mais do que nos passados 200. Não se tratam apenas de modificações nas suas formas sociais. Tratam-se de transformações na própria forma de se ser humano e, inevitável consequência, no entendimento que temos acerca de nós próprios. Não poderei atestar a veracidade de tal profecia. Nem sequer estou certo de que nesse futuro tal possa ser consensualmente reconhecido. Por um lado, parece-me que pouco haverá nisto de radicalmente novo. Com efeito, há milhares de anos que nos adaptamos a diferentes desafios, razão fundamental do sucesso da nossa espécie. Nem sequer o entendimento acerca do que seja o ser humano foi alguma vez estático. Mas, por outro lado, reconheço que se um mundo em transformação não é, para nós, humanos, novidade absoluta, a velocidade com que isso agora acontece poderá sê-lo. As transformações do passado verificavam-se a uma velocidade que dava tempo para nos adaptarmos ao novo e de o integrarmos nas nossas formas de viva. Ora, a evolução acelerou, seguindo agora um crescimento exponencial (como, por exemplo, postula, no campo da computação, a lei de Moore). Talvez aqui, sim, esteja algo de verdadeiramente novo.

Estas previsões, umas vezes mais tremendistas outras menos, relacionam-se, quase sempre, com análises do actual desenvolvimento tecnológico. Há qualquer coisa de fascinante e, ao mesmo tempo, de terrível em todas estas inovações. Talvez seja este misto de sonho e medo que torna a ficção científica um género literário sedutor para tantos leitores. Nos últimos anos, a inteligência artificial ocupou o centro do palco nestes debates sobre o nosso futuro tecnológico. A isso não será alheio, muito pelo contrário, o facto deste avanço ter saltado dos livros de ficção científica e das conjecturas dos tecnólogos para os nossos bolsos, impactando de forma crescente em cada vez mais áreas das nossas vidas. A recente disseminação de instrumentos de diálogo baseados em inteligência artificial (os chamados chatbox) tornou evidente a todos o que os peritos já há muito vinham afirmando: a inteligência artificial já está presente nos nossos quotidianos. Mesmo quando não a vemos, ela está presente nos cuidados de saúde e no comércio, na indústria e na banca, nos transportes e na agricultura, na educação e na segurança, no entretenimento e na ciência.

O leitor mais atento terá notado como descrevi a nossa relação com estas tecnologias, como a inteligência artificial, com categorias clássicas dos estudos de religião. Foi o teólogo luterano Rudolph Otto (1869-1937) quem descreveu a experiência humana do sagrado como «mysterium tremendum et fascinans – mistério terrível e fascinante». Haverá, pois, algo de profundamente irónico nesta tecnologização da condição humana. Muito embora se nos apresente como vanguarda de um futuro radicalmente novo, ela faz regressar, sem disso se dar conta, dinâmicas fundamentais e antigas da nossa humanidade. Para além do assinalado medo e fascínio que elas acendem em nós, vejo emergir uma nova classe sacerdotal: a dos cientistas de computação. São estes que, em nosso nome, dialogam com o algoritmo como outrora apenas os sacerdotes dialogavam com a divindade. São estes que sabem como funcionam estas novas ferramentas tal como outrora somente os ministros do sagrado conheciam os humores das divindades. Mas também neste novo mundo da inteligência artificial não há apenas conhecimento, há também ignorância consciente. Na verdade, a complexificação dos sistemas de inteligência artificial tem ampliado o fenómeno da caixa negra (blackbox). Tal sucede, sobretudo, com a auto-aprendizagem destes dispositivos (o que no jargão da área se chamará de «deep learning»). Estes sistemas, dotados de uma rede neuronal própria, desenvolvem de forma autónoma os seus próprios processos de inteligência. É-nos cada vez mais difícil compreender perfeitamente como tal ocorre, isto é, como eles transformam dados (inputs) em resultados (outputs). O que se passa nesse intervalo será, para nós, um mistério que cresce. Mas isto já não nos devia surpreender. Independentemente de qual seja a revolução tecnológica, o mistério é mesmo assim: não desaparece, apenas se desloca. E a nós, manda a sabedoria e ensina a teologia, só nos resta viver com ele.

 

Pe. Alexandre Palma