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Isilda Pegado
A Esperança

Charles Péguy, escritor e filosofo do final do Séc. XIX e início do Séc. XX, Católico tardiamente convertido, publicou uma obra “O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude” – Poema sobre a Esperança, que é talvez a mais nobre e sublime escrita, pensamento e concepção das 3 grandes Virtudes. E que muito tem sido louvado ao longo dos tempos. Um texto e pensamento apaixonante, carregado de Fé e de profundos saberes.

Como sabemos, as 3 Virtudes são a Fé, a Esperança e a Caridade. E perante estas, Péguy, diz-nos (permitam a simplicidade deste meu escrito), que a é fácil de compreender por ser o desejo do transcendente, o sentido Religioso que cada homem tem dentro de si; a Caridade (Amor) é também ela uma Virtude evidente porque “temos pena” condoemo-nos com o outro, com os carenciados, com o sofrimento alheio, e por isso brota de nós com naturalidade. Contudo, diz Péguy, o que é verdadeiramente misterioso é a Esperança. Porque temos Esperança? Porque não nos ficamos apenas pelo que é palpável e evidente? Porque reconhecemos a Alegria que vem da Esperança? Haverá Esperança sem Fé e sem Amor?

Confrontados com os nossos dias podemos perguntar – Hoje há Esperança? As Guerras, a destruição da Família, o desprezo e ataque à Dignidade Humana, a cada Vida Humana, a “ditadura” do que é politicamente correto e que nos retira a Liberdade para educar os nossos filhos, para falar para pensar diferente… permitem a Esperança?

A Esperança não é uma construção ou um bem que se compre. É mesmo uma Graça e uma Virtude, que não deixa de estar sujeita às nossas opções, à nossa Liberdade. Isto é, eu posso negá-la. Posso viver numa luta constante contra a Esperança (tal como o posso fazer com a Fé ou com a Caridade), tanto mais que, o mundo que nos é dado viver tem todas os “desafios” que já enunciamos e tantos mais. E é nestes desafios que encontro, ou não, a Esperança. É um desafio à minha Liberdade.

No ano que agora termina fomos a 7 casamentos Católicos – amigos dos nossos filhos ou filhos de amigos nossos – é uma comoção ver o gosto com que os Noivos estão neste “passo”, com a preparação da Celebração, a Festa, os convidados, etc., etc. E no fim perguntamos – A este rapaz e a esta rapariga o que os move? Porque correm para este Futuro? Porque não ficam na sua individualidade, sem mais trabalho e encargos?

Porquê esta Alegria no passo que estão a dar perante os familiares e amigos?

Também assim, quando olhamos para os jovens casais que com dificuldades (na casa, na saúde, no trabalho…) ousam ter 2, 3, 4 ou mais filhos. Porquê? O que os faz ter tanta generosidade?

Na verdade, só uma palavra pode envolver todo este “salto no escuro” que damos com alegria, força e determinação – A Esperança.

Nem todas as Sociedades a vivem do mesmo modo, e mesmo no mundo Ocidental, que colheu esta Virtude do Cristianismo, está carregado de situações em que é ostensivamente negada a Esperança. Tem sido publicado e não é novidade, ouvir jovens a dizer – “não quero ter filhos, porque o mundo é demasiado hostil, inseguro, etc.” Que falta de Esperança! Ou, “trabalho apenas para a minha subsistência… pouco me importa a utilidade do que faço”. Que falta de Esperança!

A Esperança enquanto Graça, não é apenas um pensamento bom e belo de que tudo correrá bem. E mais do que isso, é também a fé e a Caridade (Amor) que geram uma iluminada forma de vida, com plenitude e sem medos, livre e profundamente enraizada na realidade (ciente das dificuldades).

A Virtude da Esperança tinha na tradição popular uma expressão muito sintomática – À mulher grávida dizia-se que estava “de Esperanças”. Isto é, tinha-lhe sido dado aquele filho, e com ele um mundo imenso se abria no seu horizonte. O amor todo está ali naquele filho e os pais estão reconhecidos a Deus por o tinha permitido ser.

Viver nesta abertura à Graça, neste desejo de ser abraçada pela Esperança é seguramente viver mais feliz, plenamente e melhor, sejam quais forem as dificuldades e circunstâncias que temos para gerir.

 

Isilda Pegado
Presidente da Federação Portuguesa pela Vida