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Brotéria #7
A Vida de Maria, de Rainer Maria Rilke
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Publicada em 1913, pela Editora Insel, em Leipzig, a Vida de Maria do poeta Rainer Maria Rilke não é tanto um livro de poemas quanto um livro de ícones, de imagens não de ver, mas de tocar, de entrar-se nelas e de se deixar atravessar por elas – quadros e retábulos que traçam um vertical destino, e querem dar fruto, gerar qualquer coisa a partir de dentro.

Desde 1900 que Rilke alimentava o desejo de dedicar um ciclo de poemas à vida de Maria, num projeto em conjunto com o seu amigo e artista plástico Heinrich Vogeler (a quem acabará por dedicar a obra). Mas só em 1912, durante a sua estadia no Castelo de Duíno, vê regressar essas imagens, recebendo-as dos livros que a biblioteca do castelo lhe oferece: o Flos Sanctorum de Pedro de Ribadaneira, os evangelhos apócrifos, e, sobretudo, fontes do cristianismo oriental – o Manual de Pintura do monge Dionísio do Monte Athos e o Paterikon de Kiev –, que deixam marcas evidentes, desde logo na epígrafe que Rilke escolhe para a sua obra: ζάλην ἔνδοθεν ἔχων (zálēn éndothen ékhōn). Esta frase (literalmente: «trazendo uma tempestade no interior») é um dos versos do hino Akathistos, hino mariano do rito bizantino, traduzido de modo surpreendente por Maria Teresa Dias Furtado: «tendo um espaço no seu interior». Mais ou menos afastado do seu sentido grego, este convite oferece uma via de leitura para este ciclo de poemas. A Vida de Maria deve ler-se «tendo um espaço no seu interior». Todo o ciclo procura abrir-nos um espaço, ou uma tempestade, para a Vida de Maria (que Vida é a de Maria senão a Vida que acolheu no seu interior?).

Na «Apresentação de Maria no Templo», segundo poema do livro, Rilke reitera esta condição inicial: «Para entender como ela era nessa altura / tens de primeiro um espaço evocar / onde as colunas estão dentro de ti» [p. 19]. «Para entender», ou, poderia dizer-se, para acolher, é necessário evocar um espaço, ver erguer-se dentro de nós o templo em que Maria será apresentada. O poema não cria uma cena para se visualizar – ele inscreve nas entranhas a imagem, como um selo ou uma semente. Engravida-nos. E este espaço interior, este espaço grávido, irradia. O olhar divino de Rilke, no poema dedicado à «Visitação», verá a barriga grávida de Maria preencher todo o espaço em volta. Ao caminhar ao encontro da sua prima Isabel, «[...] respirava o ar purificado // no cimo das montanhas da Judeia. Não aquele país, / mas a sua própria plenitude se estendia em seu redor [...]» [p. 29]. A grávida vê a sua própria plenitude estender-se em seu redor. Poética da fecundidade, do brilho fecundo daquele que não retém «no espaço interior / do peito as coisas da realidade / para as atormentar» [p. 37]. O espaço interior, o espaço grávido, não é lugar fechado nem de posse.      

Os temas não são de Rilke – a «Apresentação de Maria no Templo», a «Natividade de Maria», a «Visitação». Todos estes motivos se podem encontrar na tradição pictórica, no Flos Sanctorum, nas fontes orientais. Mas são só dele os pormenores, a concentração do olhar, a potência das imagens. Como um mestre-pintor, Rilke abdica da originalidade temática, e compõe poemas “em segunda ou terceira mão”, dedicando a sua palavra ao esplendor e ao rigor da composição, à densificação das imagens. Talvez por isso, à palavra “poeta”, Rilke sempre tenha preferido o nome de “vidente”. Vidente não como o que vê o invisível, mas como o que encontra o ponto de concentração e de fulgor do visível, e aí decide concentrar o olhar, a alma, o corpo inteiro – como o que faz nascer nos outros a imagem pregnante.

Este livro de ícones, Vida de Maria, está cheio destes pontos fulgurantes: «o mugido de uma vaca obscura», que faz as vezes dos coros dos Anjos, n’ «A Natividade de Maria» [p. 15]; a aproximação do rosto do Anjo ao rosto de Maria, no poema «Anunciação» [p. 25], única razão para o sobressalto da jovem mulher; o gesto tão humilde de José que, ao ver dissipar-se a sua dúvida, «começou a tirar lentamente a boina grossa. E depois o seu louvor entoou» [p. 53]; a mão de Cristo, «em breve eterna, no ombro feminino» da sua Mãe, na «Consolação de Maria pelo Ressuscitado» [p. 67]. Ícones que nos veem visitar, nesta tradução de Maria Teresa Dias Furtado, publicada primeiramente na Portugália Editora, em 2008, e agora reeditada pela Flanêur. Mantém-se o rigoroso prefácio da tradutora (ficando, no entanto, de fora as trocas epistolares de Rilke, constantes da primeira edição da Portugália, e importantes para uma melhor compreensão da génese do livro), e acompanham-se novamente os poemas com várias obras da tradição pictórica ocidental, melhorando, consideravelmente, a qualidade da sua reprodução, e trocando alguns dos exemplos da Portugália Editora por pinturas que oferecem às palavras renovada respiração, num livrinho que se maneja e transporta leve, leve, como as coisas importantes.

Pequeno livro de ícones, A Vida de Maria vem pôr-nos de esperanças, com «o milagre no [nosso] corpo realizado». Devemos lê-lo «tendo um espaço no interior». Porque «hás-de ver, Ele enche de alegria toda a ânsia» [p. 43].

 

João Maria Carvalho
Publicado em Brotéria 197-4 (2023): 360-361

 

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