Entrevistas |
75 anos do falecimento do Padre Cruz
“Da oração para a missão”
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Autoras da mais recente biografia do Padre Cruz, Ana Catarina André e Sara Capelo apresentam a vida de Francisco Rodrigues da Cruz, um homem “corajoso”, “intemporal pela sua personalidade”, que “tem muito a dizer às pessoas, hoje”. “O Padre Cruz percebia e sabia que sem rezar a missão dele não ia acontecer”, garantem.

 

Quando pensamos no Padre Cruz, vemos um homem velhinho, curvado, de batina preta. O livro ‘Padre Cruz. O Santo do Povo’ surpreende e tem na capa uma imagem quase desconhecida, dele em novo. O que torna o Padre Cruz intemporal?

Sara Capelo: Nós tivemos um debate sobre a imagem a colocar, porque achávamos que faria sentido ter uma imagem dele velhinho, porque as pessoas identificavam e reconheciam. Mas a editora quis dar este dado de surpresa e ficámos surpreendidas com este homem mais jovem. Não fazíamos ideia que figura era esta, o que ele viveu nestes seus primeiros anos e foi muito interessante recuarmos até ao século XIX. Mas o que faz a intemporalidade dele é a sua personalidade. Foi um homem que desde muito novo teve a intenção de sair para o mundo.

Ana Catarina André: Há um espírito nele, um espírito jovem, que não se acomoda, que procura sempre corresponder àquilo que era a missão dele, que, no fundo, era evangelizar. Isso nunca se perde ao longo da vida. Mesmo quando está muito doente, já no fim da vida, ele arranja formas de chegar as pessoas e começa a escrever mais artigos nos jornais, além das preleções na Emissora Nacional. É uma figura que tem muito a dizer às pessoas, hoje. Há uma série de traços que tem muito a dizer aos cristãos, hoje. Aliás, é muito interessante porque se ligam muito também com o Papa Francisco, na atenção aos mais pobres, aos presos, aos que estão na margem da sociedade. Ele fazia tão bem esta ponte com toda a gente, porque tanto almoçava em casa de uma família abastada, como nessa mesma tarde estava a visitar os bairros pobres.

Sara Capelo: Em relação aos pobres, ele até tinha uma espécie de prioridade. Mesmo estando em casa dos ricos, ele dava prioridade em falar com os empregados e só depois é que falava com os donos da casa. Ele não fazia diferenciação e via as pessoas enquanto pessoas. Isso é muito interessante.

 

Quem foi este homem, de meados do século XIX, que recusou ser Cónego da Sé de Lisboa para continuar a ajudar os pobres?

Ana Catarina André: Ele tem, desde cedo, o desejo da vida consagrada e de ser padre. Vai fazendo o percurso e, depois de ter estudado em Lisboa, vai estudar Teologia para Coimbra, a seguir vai para o Seminário de Santarém e vai construindo o seu percurso com estes traços de renúncia. Ele foi confessor de dois Patriarcas [D. António Mendes Belo e D. Manuel Gonçalves Cerejeira] e, a dada altura, em 1925, o Mendes Belo quer fazê-lo Cónego da Sé, que é uma distinção, porque ele já começava a ser reconhecido – muita gente já via nele traços de santidade. O Padre Cruz escreve-lhe uma carta a agradecer o convite, mas a dizer que o lugar dele é a itinerância. Recusa, para dizer que quer continuar a percorrer o país e a atender os mais pobres e frágeis. Portanto, a coragem é outro traço da sua personalidade.

Sara Capelo: A paróquia dele era o país! Ele ia onde o chamavam, porque sentia que a função dele era salvar almas. E as almas não tinham que ficar restritas a Lisboa. A que horas fosse da noite, ele era capaz de se ‘enfiar’ num comboio para ir ter com alguém ao Porto e na manhã seguinte já estava outra vez em Lisboa para partir para o Algarve…

 

Uma das novidades trazida pelo livro é a ligação do Padre Cruz a Fátima…

Ana Catarina André: É muito curioso que, apesar de ele ser discreto e da sua disponibilidade para a missão, acaba por estar presente em alguns momentos chave da história da Igreja portuguesa e da própria história do país, mas também com a história de Fátima. O Padre Cruz está em Fátima quando a Irmã Lúcia vai fazer a Primeira Comunhão. Nessa altura, ninguém sabia quem ia ser aquela criança. Após conversar com Lúcia, é ele, aliás, que diz ao pároco – que não queria que ela fizesse a Primeira Comunhão, porque ainda era nova –, que ela estava preparada. Eles acabam por se cruzar mais tarde, após as aparições de maio de 1917. Há relatos sobre isso, sobre as conversas que o Padre Cruz teve com os três pastorinhos. A leitura que fazemos, de todas as fontes que conseguimos encontrar, é que o Padre Cruz acaba por contribuir bastante para abrir Fátima ao mundo e não só junto da hierarquia da Igreja. Há um relato curioso de um jornalista que diz que depois de uma conversa do Padre Cruz com o D. António Mendes Belo, que o Patriarca terá dito: ‘Estou a tentar certificar-me que Nossa Senhora quer salvar outra vez Portugal’. Nota-se ali uma influência. Ao mesmo tempo, ele organiza grupos de peregrinação para irem a Fátima e vai espalhando a devoção a Nossa Senhora de Fátima pelo país.

Sara Capelo: O livro traz uma grande novidade em relação à questão de Fátima. Os livros e as obras anteriores não exploravam esta ligação de modo tão profundo como este livro faz. Quando ele em julho, logo a seguir às aparições, vai a Ourém conhecer estes três meninos, estamos a falar de uma altura em que de facto, na Igreja, a grande maioria das pessoas estava bastante descrente em relação ao que eles diziam. Dizem ao Francisco [Marto] que o Padre Cruz é capaz de ler as almas das pessoas, ao que ele responde: ‘Então, saberá que dizemos a verdade’. O Padre Cruz identificou-se com os miúdos, acreditou no que eles diziam e fez disso de uma espécie de carreira. Falou com o Mendes Belo várias vezes e ajudou a dar verdade ao fenómeno de Fátima.

 

Que ensinamentos os sacerdotes podem beber do Padre Cruz?

Ana Catarina André: Na apresentação do livro, o padre Dário Pedroso sublinhou o espírito orante do Padre Cruz. Mas com muita naturalidade. Ou seja, ele rezava várias vezes ao dia, nos caminhos e viagens rezava o terço, mas ‘sempre nesta ligação ao Pai’ – e estou a roubar a expressão do padre Dário. Portanto, da oração para a missão, o perceber e saber que sem rezar a missão dele não ia acontecer. Por outro lado, como é que essa relação alimentava a vida dele neste sentido de disponibilidade para ir onde fosse e estar com quem fosse preciso e para não ter barreiras no contacto com os outros. Ele não era obrigado a ir aos bairros pobres de Lisboa e a meter-se no meio da lama. Nos diálogos que existem, nota-se muita naturalidade e muita humildade e discrição. Ele não atribuía a si as coisas, não se vangloriava do que fazia e dizia sempre que é obra de Deus.

Sara Capelo: Eu somaria também a simplicidade. Estivesse onde estivesse, as pessoas compreendiam-no. Estamos a falar de uma altura em que a Missa era celebrada de costas, em latim, e as pessoas faziam quilómetros para ir ver e ouvir este padre. No final da vida, já com dificuldades, sem dentes, era difícil compreendê-lo e, no entanto, havia qualquer coisa nele, na forma simples como ele se expressava. Estamos a falar de alguém que teve formação universitária em Teologia, foi professor no seminário, e que se podia ter mantido neste estado de alguma superioridade intelectual em relação às pessoas e não foi isso que ele fez. O Padre Cruz falava de um modo tão simples que conseguia chegar a qualquer um.

 

Há alguma história do Padre Cruz que vos tenha marcado?

Ana Catarina André: Há uma história que gosto especialmente, que tem a ver com o desprendimento. É muito simples: ele está no Cais do Sodré, para apanhar o comboio para Belém e tinha no bolso o dinheiro à conta para o bilhete. Aparece um pobre, que lhe pede uma esmola e o Padre Cruz dá-lhe o dinheiro e vai a pé os seis quilómetros.

Sara Capelo: Um dia, no interior do país, dão-lhe um envelope com muito dinheiro, mas enganaram-se no envelope e quando foram atrás dele pedir para trocar, o Padre Cruz responde: ‘Eu já o dei…’. Tão depressa entrava por um bolso, como saía pelo outro.

 

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A característica do Padre Cruz que mais surpreendeu

“Numa perspetiva de crente, o que me toca mais é o sentido de missão do Padre Cruz. Talvez por rezar tanto, ele sabia bem o que andava a fazer. E demonstrava uma grande capacidade de discernir isto, o que é essencial, onde é que tinha de estar, o que era preciso fazer. Isso é uma coisa que a mim sempre me interpelou bastante.”

Ana Catarina André (à esq.)

 

“Há um heroísmo no Padre Cruz que não tínhamos noção, nomeadamente durante da Primeira República, que foi um tempo difícil para a Igreja. Imaginei-o muitas vezes de batina, mas com uma capa de super-homem, porque ele passou este período elevado sobre todas as situações e todas as pessoas. Ele não foge e anda com a batina enfiada nas calças, para não ser reconhecido como padre, mas rapidamente deixa de andar escondido e continua a fazer o que sempre fez. Acho que esse heroísmo é muito curioso e muito marcante.”

Sara Capelo

 

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Porquê o livro? E porquê o Padre Cruz?

“O Padre Cruz caiu na minha vida sem eu esperar. Sou uma jornalista que tem feito trabalhos na área religiosa, mas admito que não sabia muito sobre a sua vida. Em 2020, os jesuítas pediram-me para escrever um texto para o site Ponto SJ sobre o Padre Cruz e percebi que há imensas histórias deste homem para contar. Uns tempos depois, recebi um contacto da editora para escrever a biografia do Padre Cruz, porque o processo de beatificação estava numa nova fase, mas também porque as biografias que existiam eram muito próximas dos anos em que ele morreu. A ideia era fazer uma pesquisa que fosse mais além daquilo que já se sabia e apresentar o Padre Cruz com uma linguagem dos nossos dias, mais atual, com um olhar do século XXI. Achei o desafio interessante, percebi que não ia dar conta da tarefa sozinha e tornou-se natural chamar a Sara [Capelo], porque já tínhamos escrito juntas e tinha resultado bem.”

Ana Catarina André

 

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“Tentar imitar o Padre Cruz”

O 75.º aniversário de falecimento do Padre Cruz foi assinalado no passado Domingo, dia 1 de outubro, com a Missa na capela do Cemitério de Benfica, em Lisboa, presidida pelo vice-postulador da Causa do Padre Cruz, padre Dário Pedroso, sj. “Temos a convicção de que este homem ‘santo’, este sacerdote tão generoso, de tanta oração e caridade, está no Céu. Para cada um de nós, é uma alegria pensar nele, rezar-lhe, pedir-lhe a sua interceção, mas sobretudo tentar imitá-lo, tentar ser como ele foi, em casa, na família, no trabalho, na escola, com os amigos”, convidou o sacerdote jesuíta, lembrando ainda “a vida de oração do Padre Cruz”. “Precisamos todos de rezar mais”, sublinhou.

Antes e após a celebração, o jazigo da Companhia de Jesus onde estão os restos mortais do Padre Cruz esteve aberto, para visita e oração. E foram muitos os que quiseram estar junto do Servo de Deus que faleceu em 1 de outubro de 1948, aos 89 anos.

Recorde-se que o processo de canonização do Padre Cruz está em curso, encontrando-se neste momento em Roma, após a sessão de conclusão do processo diocesano supletivo, que teve lugar no dia 17 de dezembro de 2020, na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. “Tudo pode acontecer”, salientou o vice-postulador da Causa, na Missa que assinalou os 75 anos do falecimento do ‘santo’ Padre Cruz.

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