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“Não é tolerável que o Mediterrâneo se torne um túmulo”
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O Papa Francisco fez o balanço da sua visita a Marselha. Na semana em que foram divulgados os temas para as duas próximas JMJ, o Papa sublinhou que “é dever de todos acolher quem bate à nossa porta”, condenou o “trágico descarte da vida humana” e evocou os “muitos irmãos e irmãs afogados no medo”.

 

1. O Papa Francisco dedicou a audiência-geral de quarta-feira, 27 de setembro, à sua deslocação a Marselha, na semana passada, para os ‘Rencontres Méditerranéennes’, e voltou a insistir na defesa do Mediterrâneo como espaço de “comunicação”. “Não é tolerável que se torne um túmulo, nem mesmo um lugar de conflito. Não. O Mar Mediterrâneo é o que existe de mais oposto ao choque entre civilizações, à guerra, ao tráfico de seres humanos. É exatamente o oposto: o Mediterrâneo coloca em comunicação a África, a Ásia e a Europa; o norte e o sul, o oriente e o ocidente; povos e culturas, povos e línguas, filosofias e religiões”, lembrou.

Na opinião do Papa, do encontro de Marselha “surgiu um olhar sobre o Mediterrâneo simplesmente humano, não ideológico, não estratégico, não politicamente correto nem instrumental”. “Ao mesmo tempo surgiu um olhar de esperança”, reforçou. Francisco insiste que o Mediterrâneo tem de ser um local de esperança, que “não pode nem deve volatilizar-se”. “Não, pelo contrário, deve organizar-se, concretizar-se em ações de longo, médio e curto prazo”, prosseguiu. Na perspetiva do Papa, isso “significa trabalhar para que as pessoas, com plena dignidade, possam escolher emigrar ou não emigrar”. “O Mediterrâneo deve ser uma mensagem de esperança”, rematou.

 

2. O Papa Francisco já escolheu os temas das duas próximas Jornadas Mundiais da Juventude, que vão ser celebradas nas Igrejas particulares em 2023 e 2024, anunciou o Vaticano. Na Solenidade de Cristo Rei, este ano a 20 de novembro, o tema será ‘Alegres na esperança’ (inspirado na passagem bíblica “Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração”). Para 2024 foi escolhida a passagem ‘Aqueles que esperam no Senhor caminham sem se cansar’.

Em comunicado, o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida explica que os temas escolhidos “cadenciam o caminho de preparação para o Jubileu dos Jovens, no contexto do Jubileu de 2025 ‘Peregrinos de esperança’”, e constituem um convite do Papa para que os jovens aprofundem “o significado da esperança cristã” e deem testemunho alegre da sua fé.

 

3. “Cada um devia ter o direito de migrar ou permanecer”, lembrou o Papa, no final do Angelus. A propósito do Dia Mundial do Migrante e Refugiado, que a Igreja assinalou no passado Domingo, 24 de setembro, Francisco lamentou que o direito de migrar se tenha tornado, para muitos, “uma obrigação, quando deveria haver um direito a não migrar para permanecer na própria terra”.

O Santo Padre considera necessário garantir a todos “a possibilidade de viver uma vida digna na sociedade em que se encontra”, mas reconhece que face a tantas misérias, guerras e crises climáticas, muitas pessoas se vêm obrigadas a fugir. “Por isso, somos todos chamados a criar comunidades prontas e abertas a acolher, promover, acompanhar e integrar os que batem às nossas portas”, afirmou.

 

4. O Papa celebrou a Missa em Marselha, França, num estádio com mais de 60 mil pessoas. “Deus torna possível aquilo que parece impossível e gera vida mesmo na esterilidade”, referiu, na tarde de dia 23 de setembro. Na homilia da Missa que celebrou no Estádio Vélodrome, Francisco convidou os fiéis a interrogarem-se se acreditam, de facto, que Deus age, de forma escondida e imprevisível, na história e “também nas nossas sociedades marcadas pelo secularismo mundano e por uma certa indiferença religiosa”. No coração de Marselha, a segunda maior cidade francesa, o Papa alertou para os riscos de uma vida mecânica e insensível aos dramas de quem sofre e definiu como “doenças” da sociedade europeia “o cinismo, o desencanto, a resignação, a incerteza e a melancolia”. Ou seja, “paixões tristes de uma vida sem saltos de alegria”. O Santo Padre considerou que as cidades metropolitanas e muitos países europeus como a França, onde convivem diferentes culturas e religiões, “são um grande desafio contra as exasperações do individualismo, contra os egoísmos e os fechamentos que produzem solidões e sofrimentos” e convidou a aprender de Jesus e a “sentir sobressaltos por quem vive ao nosso lado”.

Neste dia, da parte da manhã, durante a sessão de encerramento dos ‘Encontros Mediterrânicos’, o Papa interrogou: “Quem olha com compaixão para além da própria margem a fim de ouvir os gritos de dor que se levantam do Norte de África e do Médio Oriente?”. Perante o presidente Macron, outras autoridades francesas e bispos dos países banhados pelo Mediterrâneo, Francisco lamentou a quantidade de gente que “vive imersa na violência e padece situações de injustiça e perseguição”, incluindo “tantos cristãos, muitas vezes obrigados a abandonar as suas terras ou a habitá-las sem ver reconhecidos os seus direitos, sem gozar de plena cidadania”. E, referindo-se aos milhares de migrantes, lançou o apelo: “Por favor, empenhemo-nos para que quantos fazem parte da sociedade se possam tornar cidadãos de pleno direito”.

 

5. No primeiro dia em Marselha, o Papa alertou para a situação dramática dos migrantes, convidando a não fechar os olhos e ficar “indiferentes” perante as mortes que “ensanguentam” o Mediterrâneo. “Não nos habituemos a considerar os naufrágios como meras notícias de jornal, nem os mortos no mar como números: são nomes e apelidos, são rostos e histórias, são vidas despedaçadas e sonhos desfeitos”, pediu Francisco, no dia 22 de setembro. Reunido junto ao Memorial dedicado à tragédia dos que morreram no mar, o Papa evocou os “muitos irmãos e irmãs afogados no medo, juntamente com as esperanças que traziam no coração”. “Perante um drama assim não servem palavras, mas factos; e, antes ainda, serve humanidade: silêncio, pranto, compaixão e oração”, rezou o Santo Padre, acompanhado por líderes de outras religiões.

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