Lisboa |
Pontifical nos 850 anos da chegada a Lisboa das relíquias de São Vicente
“Relíquias assumem a força profética de nos desinstalar”
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O Patriarca de Lisboa acredita que as relíquias do diácono e mártir São Vicente ajudam a Igreja diocesana a fazer-se “ao largo missionário para toda a nossa amada Lisboa”. D. Rui Valério presidiu, na Sé, ao Solene Pontifical nos 850 anos da chegada a Lisboa das relíquias do padroeiro principal da diocese.

 

Apontando que, “em Cristo, Vicente morreu e agora vive no eterno e glorioso encanto da comunhão com Deus”, o Patriarca de Lisboa convidou os cristãos à missão, tendo como exemplo o padroeiro principal da diocese. “Se no passado São Vicente se impelia a si próprio a fazer da abertura e aproximação a Jesus Cristo, uma essência de vida, e na força dessa abertura e aproximação liderava o Povo de Deus para o fazer sair dos confins das suas rotinas e ir ao encontro dos irmãos, dos necessitados, enfim do mundo, também hoje, para nós, estas relíquias assumem a força profética de nos desinstalar, de nos impelir a agir como ele, a subir para a nau da evangelização e a fazermo-nos ao largo missionário para toda a nossa amada Lisboa. Que não haja quem não receba o pão da palavra; o calor da proximidade, o apoio da compreensão. Esse foi também o gesto inaugural do tempo novo da redenção, vivido e executado por Maria Santíssima, quando “se pôs a caminho e se dirigiu à pressa para a montanha” (Lc 1, 39)”, lembrou D. Rui Valério, na Missa que assinalou, na manhã do passado dia 16 de setembro, os 850 anos (1173-2023) da chegada a Lisboa das relíquias de São Vicente.

Na Sé Patriarcal de Lisboa, na presença do Núncio Apostólico, D. Ivo Scapolo, o novo Patriarca convidou a ter como horizonte a “vida eterna”. “A contemplação de um Vicente cristificado faz emergir nos interstícios e na normalidade da vida uma outra realidade, um além que acolhemos e vamos ao encontro, porque é esse horizonte que confere sentido à história do ser humano e a todas as histórias, vividas ou não vividas, construídas ou destruídas, ganhas ou perdidas…”, referiu D. Rui Valério, prosseguindo: “Captando então a força da passagem que brota do mistério de Cristo, nós com São Vicente e como ele, a vemos aplicada à vida para, na companhia de Nicodemos, descobrir que há uma vida outra além da terrena, é a vida eterna; ou quando nos aproximarmos, com a Samaritana, de poços onde homens e mulheres procuram saciar a sede de infinito, encontramos uma outra água, a água viva que jorra sem cessar; ou quando entrarmos em templos feitos de pedra e tijolo, despertarmos para o verdadeiro templo que é o Corpo do Senhor, a Sua Igreja. Ou, mesmo, quando te reencontres, sentires a centelha que te mostra quem és, imagem viva de Deus, e, ao cruzares-te com alguém, ouvirás os ecos da Palavra ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo’ (Mt 25, 34-36). São Vicente, rogai por nós, protegei Lisboa!”.

 

Chama de esperança

As relíquias de São Vicente chegaram a Lisboa no dia 15 de setembro de 1173 e ficaram depositadas na Igreja de Santa Justa. No dia seguinte, 16 de setembro de 1173, foram transladadas para a capela-mor da Sé. No dia em que se cumpriam oito séculos e meio desta data, o 18.º Patriarca de Lisboa, que sucedeu neste mês a D. Manuel Clemente, sublinhou que “toda a liturgia celebra a Páscoa redentora de Jesus Cristo, a sua morte e ressurreição”. “Assim, também hoje, solenemente aqui presentes perante as Relíquias de São Vicente que há oitocentos e cinquenta anos aportaram a Lisboa, é a Páscoa do Senhor que verdadeiramente celebramos, e é o seu abundante manancial de luz que nos há de aproximar do fascinante mistério da vinda até nós de membros corpóreos de um Mártir. A sua chegada trouxe uma chama de esperança à alma de um povo que, precisamente na dádiva desse advento não só se sentiu mais protegido, como se reconheceu abençoado pela presença de uma referência para a vida. Aquele Mártir fez-se presente, tornou-se um companheiro de viagem”, assinalou.

 

Ressurreição, vida eterna, caridade

Perante “as venerandas relíquias de São Vicente”, como assinalou, D. Rui Valério reforçou que “elas próprias são um testemunho vivo da fé na Ressurreição; constituem um fortalecimento da esperança na vida eterna; e interpelam-nos a um renovado ardor para a caridade e para o serviço ao próximo”. Sobre o primeiro ponto, o “testemunho vivo de fé na Ressurreição”, disse que isso “resulta, essencialmente, da razão de a sua vida e obra terem sido, ao mesmo tempo, testemunhas e participação incessante na morte e ressurreição de Jesus Cristo”. Sobre o segundo contexto, destacou que as relíquias, “contrariamente ao que seria de supor, não são nem memória da terra, nem estão associadas à sepultura, mas, paradoxalmente, fazem-se vocativas de céu, suscitam referências de eternidade e de intemporalidade”. Por último, em relação à caridade e ao serviço ao próximo, o Patriarca de Lisboa lembrou palavras do Santo Padre: “São Vicente sempre abdicou de viver para si, de centrar-se sobre si próprio; a sua vida foi realmente um êxodo para Deus, para os outros, e podemos dizê-lo hoje com gratidão, também para nós, Patriarcado de Lisboa. Outrora, nesse longínquo e ao mesmo tempo próximo século IV, nessa distante e tão vizinha Saragoça, o Diácono vivia, pela diaconia e pelo serviço, não somente para os pobres e famintos, mas vivia nos pobres e nos famintos; pois, quando se vive em Cristo, também os irmãos e as suas condições, as suas alegrias e angústias, se tornam nossa morada. Neste sentido, fala o Papa Francisco, quando refere que todo o pastor deve trazer em si o cheiro das ovelhas. Ora, esse cheiro só se transporta, se no coração habitarem os irmãos. O Mártir morria em Cristo e em Cristo viveu e vive; hoje está connosco… e tudo por esse movimento transbordante de amor”.

 

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Indulgência Plenária no Ano Vicentino

O Papa Francisco concedeu a Indulgência Plenária durante o ano jubilar vicentino (15 de setembro de 2023 a 16 de setembro de 2024), “nas condições determinadas pela Igreja”, refere uma nota da Vigararia Geral do Patriarcado de Lisboa.

Segundo um Decreto da Penitenciaria Apostólica, da Santa Sé, com data de 27 de julho, para “aumentar a religiosidade dos fiéis e a salvação das almas”, o Papa concede “a Indulgência Plenária sob as habituais condições (Confissão Sacramental, Comunhão Eucarística e Oração segundo as intenções do Sumo Pontífice) a receber com proveito pelos cristãos fiéis verdadeiramente penitentes e movidos pela caridade, que ainda possam aplicar a modo de sufrágio pelas almas dos fiéis retidas no Purgatório, se visitarem a igreja catedral de Lisboa num quadro de peregrinação e aí participarem devotamente nos ritos jubilares ou, ao menos, perante as relíquias do Mártir Vicente durante um espaço de tempo razoável dedicarem-se a piedosas reflexões que devem ser concluídas com a Oração Dominical, o Símbolo da Fé e as invocações da Virgem Santa Maria e do Mártir São Vicente”.

 O texto refere que “os idosos, os enfermos e todos os que não podem sair de casa por grave motivo poderão obter igualmente a Indulgência Plenária depois de assumida a detestação de qualquer pecado e a intenção de cumprir, logo que tenha sido permitido, as três habituais condições, se diante de alguma imagem jubilar se tenham unido espiritualmente às celebrações jubilares, uma vez oferecidas ao Deus misericordioso as suas preces e dores ou os incómodos da própria vida”. A Penitenciaria termina pedindo “empenhadamente que o penitenciário arquidiocesano, o clero da Catedral, párocos e sacerdotes dotados das faculdades adequadas para acolher confissões, com espírito pronto e generoso se ofereçam à celebração da Penitência e administrem muitas vezes a Sagrada Comunhão aos enfermos”.


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Fotografias disponíveis em:


Pontifical nos 850 anos da chegada a Lisboa das relíquias de São Vicente 

 

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Comemorações dos 850 anos da chegada das relíquias de São Vicente a Lisboa: Cardeal Tolentino destaca importância de São Vicente na história da Lisboa

 

O cardeal Tolentino Mendonça evocou em Lisboa a importância da figura de São Vicente (séculos III-IV), padroeiro da cidade, falando na abertura das celebrações dos 850 anos da chegada a Lisboa das relíquias do diácono e mártir, no passado dia 15 de setembro.

“Um acontecimento como o que aqui se evoca desafia-nos a assumir o risco de estender o olhar para lá do imediatismo e confrontar-nos com aquilo de que somos herdeiros”, disse o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação (Santa Sé), numa conferência intitulada ‘São Vicente, uma herança para a Lisboa do futuro’, que decorreu na sala do arquivo dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

O colaborador do Papa considerou que a chegada das relíquias de São Vicente, em 1173, simbolizou a “cristianização definitiva da cidade”, oferecendo-lhe um “sustento espiritual e ético”. “Para quem se inscreve na tradição cristã, a história e os símbolos são cruciais”, indicou o cardeal e poeta, antes de afirmar que a relíquia representa “um modo novo de olhar a vida e a morte, uma ética da existência”.

“São Vicente foi traslado para Lisboa para apoiar os cidadãos nesta última conquista, a construção de uma fortaleza de alma, que nos ajude na fidelidade aos próprios sonhos e no sonho de Deus para a humanidade”, prosseguiu.

A chegada das relíquias, indicou D. José Tolentino Mendonça, colocou Lisboa “no mapa das grandes cidades europeias”, face ao reconhecimento internacional do mártir, nas comunidades católicas. O responsável católico aludiu à necessidade de “mediadores” entre gerações, que “passem o testemunho”, falando numa “crise de transmissão”.

“Diálogo, inclusão, negociação, coesão são também declinação de uma herança com 850 anos”, observou.

A intervenção citou o discurso proferido pelo Papa no Centro Cultural de Belém, a 2 de agosto, no qual falou de Lisboa como “cidade do encontro”, “cidade do Oceano”, “capital mais ocidental da Europa” e “capital do futuro”. “Se olharmos com atenção, o símbolo de Lisboa não faz dela uma capital do passado, mas uma protagonista do futuro”, disse D. José Tolentino Mendonça.

O colaborador do Papa evocou “todas as formas de martírio”, que afetam a humanidade, convidando a aplicar, hoje, o “amplo património espiritual e social” da herança de São Vicente, como “transladadores de futuro”. Aquela nau transporta, através do oceano, um estranho que nós acolhemos, mostrando que a nossa identidade não se constrói na lógica da indiferença ao outro, mas na abertura, na hospitalidade e no diálogo”.

 

Câmara Municipal de Lisboa

Na abertura da conferência, Carlos Moedas, presidente da CML, sublinhou que o brasão da cidade ostenta as insígnias de São Vicente – o barco e os corvos –, falando da viagem das relíquias do mártir como símbolo das “raízes da Lisboa portuguesa”.

“Estes 850 anos levam-nos a pensar sobre o que é uma cidade”, assinalou o autarca, que destacou o sentido de “comunidade” e “partilha”, na memória de “eventos comuns”.

A cerimónia contou com a presença de responsáveis católicos e da CML, incluindo o novo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, além do presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, e do ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva.

 

Cabido da Sé

Em representação do Cabido da Sé, o cónego José Manuel Santos Ferreira agradeceu a presença do cardeal Tolentino Mendonça e o empenho da CML nesta cerimónia.

“Lisboa não pode esquecer São Vicente, para não esquecer a sua história”, sustentou.

Vicente, um jovem diácono da Igreja de Saragoça, morreu mártir em Valência, Espanha, no ano de 304, durante a perseguição aos cristãos ordenada pelo imperador Diocleciano.

 

Novo Patriarca

D. Rui Valério disse aos jornalistas que este ano jubilar vai mobilizar o Patriarcado, no rescaldo da JMJ, como “projeto de missão”. “É um momento a assinalar, também por esta acutilância que nos traz, no sentido de os jovens de hoje – como para os de outrora – verem em São Vicente um companheiro de viagem, um desafio a ir, a sair”, observou o Patriarca de Lisboa.

 

Direção Municipal de Cultura da CML

Hélia Silva, da Direção Municipal de Cultura da CML, assinalou o entusiasmo de todos os envolvidos no programa de comemorações, pensado para “a família toda”.

“Eu acho que a maior parte das pessoas não sabe que muitas igrejas têm imagens de São Vicente”, relata a responsável.

texto e fotos por Agência Ecclesia

 

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Conferência na íntegra

A conferência do cardeal Tolentino, intitulada ‘São Vicente, uma herança para a Lisboa do futuro’, está disponível, em texto e em vídeo, no site do Patriarcado.

 

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