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Brotéria #6
Onde descanso o olhar, escrever um ícone
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A madeira, coberta de tela e gesso, é o berço. As tintas, feitas através de pigmentos naturais extraídos de diferentes tipos de terras, de plantas e de pedras, vão-se transformando e elaborando ao longo de todo o processo da escrita do Ícone. Misturando os pigmentos com o ovo e o vinho, a tinta é feita para o momento, tal como qualquer refeição que é cozinhada demoradamente. O ouro é colocado sustendo a respiração, não vá um sopro fazer com que a folha de ouro se eleve, perdendo-se entre partículas. Depois, o ouro é brunido a pedra ágata.

Escrever um ícone é um processo demorado, pausado, vivido no silêncio, oração e em deserto. Dizem tratar-se de escrita e não de pintura por ser palavra viva tudo aquilo que é representado. A figura vai-se representando, com fé, com esperança e em diálogo contínuo entre quem escreve e quem é descrito. Vai-se lendo e meditando sobre a sua história. A inscrição do olhar da figura é muito importante, pois é este que medeia a presença da imagem. Trabalhar esse olhar é um processo que parece implicar uma espécie de magia. A expressão do rosto deverá ser serena, sem manifestação de emoções, para não influenciar a oração de quem o contempla.

Um ícone é também reflexo da vida de quem o representa, pelo que, se a missão do ícone é representar beleza, serenidade, harmonia, reflexos de Deus, a vida do iconógrafo deverá ter essas características como fórmulas naturais para viver adequadamente. O iconógrafo deverá viver integrado e em contemplação com todos os reinos sobre os quais o próprio ícone é elaborado: animal (o ovo), vegetal (o vinho, alguns pigmentos e a madeira) e mineral (outros pigmentos). Desta forma, deverá sentir-se em união com o todo e nunca separado dele, tentando cuidar e contemplar toda a criação de forma harmoniosa e ativa. Deverá também ter o cuidado de purificar, tanto os pensamentos que alimenta e emoções, como as imagens que observa, de forma a manter um coração e um olhar mais puros. O jejum também deverá acompanhar os seus dias, tentando cuidar o corpo e elevar o espírito.

Escrever um ícone é um percurso que se vai percorrendo, como peregrino, com tropeços e recomeços constantes, desajustes e ajustes vibrantes. Mas assim é a verdadeira vida, consciente de que somos humanos, que estamos sempre a caminho e com processos internos para descodificar e curar.

A Iconografia tem o poder de abrir a consciência, de aquietar a mente e o coração, transformando o interior de quem se dedica à escrita e à contemplação dos ícones, permitindo alcançar a tão desejada paz interior. O ícone é porta e janela para o céu; é lugar de respiração, de paz, de harmonia, de beleza, onde cada um pode descansar o coração e o olhar, contemplando e deixando-se contemplar.

 

Tânia Oliveira Pires

Publicado em Brotéria 197-2/3 (2023): 211-212

 

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