Lisboa |
D. Rui Valério
Mensagem à amada Igreja de Lisboa
<<
1/
>>
Imagem

1. Obrigado, Lisboa, capital da juventude e cidade da esperança, por teres iluminado de alegria o céu do mundo e fortalecido de amor o coração de todos os que acreditam na Vida. Para sempre os teus dias serão Jornadas de encontro e a tua história de horizontes onde todos têm lugar.

Como a terra depois de arada permanece em silêncio para que a força transbordante das sementes nela lançadas fecunde e cresça, também este é, para nós, o tempo do silêncio para que os grãos de vida e esperança, que a Jornada Mundial da Juventude derramou em nossos corações, germinem e tragam fruto abundante de humildade, de santidade e de serviço missionário que sonha chegar a todos.

2. Por isso, apenas três sentimentos tomam conta do meu coração na circunstância do chamamento deste pobre e humilde servo do Senhor para Patriarca de Lisboa.

O primeiro está contido nas palavras temor e tremor: A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para este humilde servo e, embora conhecendo a dimensão e natureza dos seus limites, o chamou à grandiosa missão de servir a Igreja de Lisboa. Uma Barca imensa repleta de vida, de serviço, de santidade e de história missionária… uma grandiosidade a contrastar com a pequenez dos meus remos.

Enche-me de esperança, contudo, a certeza de que Cristo e o Espírito, com Maria, são os verdadeiros guias e protagonistas da Igreja; a graça e a força de Deus, a substância de toda a ação pastoral; o Evangelho de Jesus, a real matéria da missão. Por isso, confio que, através da minha fragilidade e pequenez, possam chegar a todos a força e a graça do Senhor. Nunca, como nesta hora, ressoam vigorosamente as palavras de São Paulo “quando sou fraco, então é que sou forte”.

Assim, com temor e tremor, ciente da minha fragilidade, mas por amor a Cristo e à sua Igreja, na mais estrita fidelidade ao Santo Padre e em espírito de obediência, na graça de Deus e na alegria do Espírito, digo com Nossa Senhora “Sim, faça-se segundo a Vossa Palavra”.

O segundo sentimento decorre da minha intenção de escutar: “Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho” (Hb 1, 1-3), na prontidão e alegria dos jovens, nos gestos e palavras do Papa Francisco, na disponibilidade e serviço de tanta instituição e na generosidade de muitas pessoas. Aqui, em Lisboa, Deus falou e tocou o coração e a vida da nossa amada Igreja, na qual estão todos e todos dela fazem parte. Estamos convocados a escutar-nos reciprocamente, permanecendo e caminhando juntos, ao bom jeito de sinodalidade, para escutar a voz de Deus na Palavra que Ele dirigiu a cada um de nós. Assim, a escuta é ponto estruturante do nosso programa, como o é o exemplo dos apóstolos pobres, despojados e desprendidos de tudo, mas cheios do Espírito Santo que os configurava a Cristo vivo e que, com Maria Santíssima, os capacitava para incendiarem de amor o coração da humanidade, escancarando o horizonte de vida de cada pessoa à luz da eternidade.

Assumiremos como prática o gesto próprio do Bom Pastor que deixou as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que se perdera. Para Jesus Cristo, não é lícito deixar ninguém para trás. E um dos modos mais pertinentes para manter viva a chama e a mística da Jornada Mundial da Juventude é não deslocar o foco dos jovens. Assim, no horizonte de vida e ação da nossa Igreja está bem presente quanto afirmava São Paulo VI acerca da Igreja ter de ser missionária sob pena de não ser e, analogamente, o Papa Francisco, ainda mais concreto, que sem jovens a Igreja simplesmente morre. Para os jovens e com os jovens, somos chamados a ser Igreja missionária e em saída, levando no coração o ardor de chegar a todos.

O terceiro sentimento é de alegria no serviço. Na presença do Senhor, de quem recebeu o maravilhoso dom da esperança e da vida nova e o mandato missionário de o levar aos recantos mais escondidos da interioridade de cada um de nós, bem como aos quatro cantos do mundo inteiro, a Igreja de Lisboa estará à altura da confiança que Cristo Jesus uma vez mais lhe confiou.

3. Igreja abençoada por infinitas graças que, no decorrer dos séculos, mas sobretudo no dealbar de épocas, têm configurado o rosto de uma Igreja aberta, corajosa, que não vira costas a nenhum desafio e que faz do serviço a Cristo e ao Evangelho a fonte da sua alegria. Firme na fé e segura no caminho do amor, sabe que é barca guiada e protegida por Cristo, pela Santíssima Virgem, São Vicente e Santo António, com sacerdotes, diáconos, religiosos(as) e leigos(as) conscientes de que são hoje, como noutras eras, chamados a estar dentro e nos lugares de charneira.

Assim, a Igreja de Lisboa, missionária e evangelizadora, tem no Tejo e no mar que a banha essa faceta, cantada por Pessoa na obra Mensagem: “E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma / E faz a febre em mim de navegar / Só encontrará de Deus na eterna calma / O porto sempre por achar.”

4. Agradeço ao Senhor a sua confiança. Agradeço à Santa Igreja: o encorajamento do Santo Padre, o apoio do Senhor Núncio Apostólico e o estímulo e amizade do Senhor D. Manuel Clemente, a quem saúdo reconhecendo, grato, o exemplo de Bom Pastor que nos ensina a dar a vida pelo povo de Deus, para que esse mesmo povo tenha vida em abundância.

5. Saúdo os Senhores Bispos Auxiliares, D. Joaquim Mendes e D. Américo Aguiar, como irmão ao serviço do Senhor e da sua Igreja, disposto a um verdadeiro espírito de colaboração para fazer da ação pastoral um itinerário de configuração a Cristo. Toca-me, particularmente, a profundidade espiritual da vossa vida e o carácter eclesial da vossa missão.

Saúdo o Presbitério de Lisboa e todos os sacerdotes que aqui vivem e trabalham. Pronto a caminhar convosco, é com gratidão e alegria que vejo em vós o rosto da dedicação total a Cristo e à Igreja. A vossa vida de comunhão com o Senhor edifica-me e estimula-me a servir todos com coragem e generosidade pastoral.

Saúdo os diáconos permanentes, expressão viva do serviço e da caridade da Igreja que, no Patriarcado de Lisboa, são ainda o rosto atual do nosso amado Padroeiro, São Vicente: caminharemos juntos e juntos servimos o Senhor e os irmãos.

Saúdo os(as) religiosos(as) e consagrados(as), louvando o Senhor por ter feito de Lisboa um oásis para a vida de oração, contemplação e ação de tantas ordens, congregações, institutos e estilos de vida, cujo eixo está na dádiva total a Cristo.

Saúdo os leigos, na luz sinodal que nos impele a caminhar juntos para realizar a plenitude da vocação da Igreja, como Corpo de Cristo. Na mudança de época que vivemos, pertence-vos a vós a determinante responsabilidade da Evangelização do mundo e da cultura nas suas mais variadas vertentes, e de configurar o rosto sinodal do Povo de Deus.

Saúdo os jovens, agradecendo, desde já, o dom da comparência na Jornada Mundial da Juventude e a dádiva da alegria e do entusiasmo com que iluminaram de esperança o céu da humanidade. Agora sois os depositários de um dinamismo de vida e esperança que juntos iremos expandir para manter vivo.

Saúdo os irmãos e irmãs vítimas de abusos por membros da Igreja, meus irmãos; partilho da vossa dor e, juntos, vamos prosseguir, com esperança, no caminho da cura total do vosso e nosso sofrimento, da tolerância zero.

Saúdo todas as mulheres e homens de boa vontade, com afeto e disponibilidade para dialogar, ciente de que todos somos chamados a construir o bem e a servir a casa comum onde nos é dado coabitar pacífica e harmoniosamente.

Saúdo, enfim, as ilustres entidades oficiais, detentoras da honrosa vocação de servir a comunidade; em espírito de cooperação conjugaremos esforços para promover a dignidade de cada pessoa e responder a todos os desafios humanistas.

 

In Manibus Tuis

+ Rui Valério

A OPINIÃO DE
Tony Neves
O Gabão acolheu-me de braços e coração abertos, numa visita que foi estreia absoluta neste país da África central.
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Impressiona como foi festejada a aprovação, por larga e transversal maioria de deputados e senadores,...
ver [+]

Guilherme d'Oliveira Martins
Há anos, Umberto Eco perguntava: o que faria Tomás de Aquino se vivesse nos dias de hoje? Aperceber-se-ia...
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Já lá vai o tempo em que por muitos cantos das nossas cidades e vilas se viam bandeiras azuis e amarelas...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
EDIÇÕES ANTERIORES