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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
JMJ, o desafio da conversão cristã

O nosso país e, mais concretamente, o Patriarcado de Lisboa é, este ano, o anfitrião das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ). Este grande acontecimento, não apenas eclesial mas mundial, é uma acrescida responsabilidade para todos os portugueses e, de modo especial, para os cristãos da capital, aos quais compete a graça e a honra de receberem o Vigário de Cristo, na pessoa do Papa Francisco, que por segunda vez visita o nosso país, bem como todos os Cardeais, Bispos, presbíteros, religiosos e leigos que vão participar nas Jornadas.

No Oriente, há dois mil anos, o dever de receber os peregrinos era sagrado, talvez porque as viagens, que se faziam a pé ou a cavalo, eram mais demoradas. Como não havia muitas hospedarias, em geral eram os habitantes das localidades que deviam acolher os transeuntes, recebendo-os em suas casas. Quando Maria e José foram a Belém, não foram acolhidos na pousada e, como também não lograram que nenhuma casa os aceitasse, Nossa Senhora teve de dar à luz num estábulo, reclinando Jesus numa manjedoura (Lc 2, 7).

Se todos os discípulos de Cristo estão chamados, por razão da sua fé, a acolherem os peregrinos, de um modo especial o estamos nós, portugueses, devido à nossa História, tão rica em encontros com gentes de todo o mundo. Com efeito, foram os nossos antepassados que partiram nas naus que abriram o caminho marítimo para a Índia, descobriram o imenso Brasil e fizeram a primeira viagem de circum-navegação.

Se os descobrimentos tiveram também uma motivação política e comercial, a verdadeira razão era, no entanto, missionária: ir ao encontro dos cristãos que se supunha existirem na Índia e evangelizar todos os povos. Por isso, as caravelas não levavam as insígnias do nosso país, como seria de esperar se de uma empresa nacional se tratasse, mas a Cruz de Cristo, de que os navegantes se sabiam, enquanto cristãos, portadores. Não em vão a Cruz é também, juntamente com o ícone mariano, o símbolo das Jornadas Mundiais da Juventude.

Talvez não seja exagerado pensar que as JMJ são, de certo modo, um retorno da epopeia da fé protagonizada por esses portugueses, no esteio de São Francisco Xavier e de tantos outros missionários, muitos deles mártires em terras de além-mar. Não vamos, portanto, receber estranhos, mas irmãos na fé, peregrinos que procuram, na nossa terra, a origem da crença que, como eles e com eles, professamos.

Com esses peregrinos, talvez venham também alguns jovens que ainda não tiveram a graça de descobrirem Cristo que, no entanto, já os encontrou e quer trazer até junto de nós, para que aqui, nesta Terra de Santa Maria, conheçam que Jesus não é uma figura do passado, mas alguém que vive na Igreja. Para os Saulos deste encontro mundial de jovens, Lisboa deverá ser a sua estrada de Damasco, para que se convertam em outros Paulos e levem a todo o mundo, com a coragem do intrépido doutor das gentes, a boa nova do Evangelho.

Foi este sonho missionário que levou São João Paulo II a promover estas Jornadas que, desde então, têm dado abundantes frutos apostólicos. Não apenas as conversões dos ateus que se descobrem crentes, nem dos agnósticos que passam a conhecer o que antes ignoravam, mas também dos que já acreditam em Deus e que precisam de se aperceber que é na fé cristã que está “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), ou dos cristãos não-católicos que regressam à Igreja, que tem em Pedro a sua cabeça visível, e que conserva, segundo o Concílio Vaticano II, na sua divina integridade, o depósito da fé.

A conversão dos ateus, dos agnósticos, dos crentes não cristãos e dos cristãos não-católicos pressupõe, em primeiro lugar, a nossa conversão, porque só se o nosso testemunho for coerente, poderemos ser testemunhas credíveis de Jesus Cristo. Só se formos verdadeiramente católicos, poderemos receber, como nossos irmãos, os peregrinos da JMJ. Só a verdade da nossa caridade operativa pode fazer patente ao mundo que Cristo vive e é, verdadeiramente, o Salvador do mundo! (Jo 4, 42).

 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
FOTO: Duarte Mourão Nunes | JMJ Lisboa 2023