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A difícil missão da Igreja junto dos mineiros na Diocese de Bukavu
Garimpeiros da miséria
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O contraste não podia ser maior. Os que esgravatam o solo à procura de minerais preciosos vivem na maior pobreza na República Democrática do Congo. Exploram a terra, mas são explorados pelos homens, os negociantes que lhes compram o fruto do trabalho com preços de miséria. A Igreja está empenhada em mudar esta situação…

 

Vivem longe das cidades, vivem longe de tudo. São como formigas que se confundem com a própria terra que vão esventrando em condições muito precárias e usando normalmente ferramentas rudimentares. A República Democrática do Congo é um país que esconde, no seu subsolo, enormes riquezas. Diamantes, ouro, coltan, cobalto e lítio são recursos naturais que abundam neste enorme país africano que o Papa Francisco visitou este ano, no início de Fevereiro. Mas o contraste não podia ser maior. Estes milhares de homens, muitas vezes também idosos e crianças, que esgravatam a terra à procura de alguma riqueza, vivem na maior miséria, na mais profunda pobreza. Muitos passam mesmo fome. A fragilidade em que se encontram leva-os normalmente a venderem por baixos preços tudo aquilo que encontram ao fim de muitas horas de trabalho minucioso e em condições deploráveis. Homens, mulheres, crianças e idosos. Ninguém escapa ao trabalho e ninguém parece escapar à fatalidade da pobreza. Toda a gente da comunidade trabalha para a mina. Uns escavam, outros separam, procurando assim ganhar o sustendo do dia-a-dia. Mas o sonho desaba quase sempre quando têm de vender o que conseguiram obter. Os comerciantes, os negociadores, aproveitam-se da condição de miséria destes garimpeiros para lhes pagar a preços baixos. Muito baixos. Para quem está desesperado, não há grande alternativa…

 

Uma cooperativa de mineiros

Mas a Igreja tem procurado alterar este estado de coisas. Começando por denunciar esta realidade dramática que ocorre também nas regiões onde a violência, a guerra e o terrorismo marcam presença. Kizito Bahati, que fundou uma cooperativa de mineiros na Diocese de Bukavu, é um dos rostos dos que não se conformam com esta situação. A cooperativa de mineração dos operadores artesanais, que é apoiada pela Igreja Católica, tem como objectivo precisamente defender os direitos destes trabalhadores. “Muitos deles não têm sequer um cêntimo”, explica o fundador da cooperativa à Fundação AIS. “Quando chega o comprador, vendem o que têm o mais depressa possível, para que eles e os seus filhos possam comer.” A agravar esta situação há ainda o facto de estes trabalhadores não terem consciência do valor real do que fazem, do que conseguem extrair da terra. Por isso, a associação é importante. E é isso que a Igreja tem procurado transmitir. O Padre Grégoire, responsável pela paróquia local, encoraja todos estes garimpeiros a aderirem à cooperativa. A ideia é simples. Recolher todos os minerais e vendê-los a apenas um comprador, conseguindo assim negociar por um preço mais justo. “Aqueles que precisam de dinheiro imediatamente podem receber um adiantamento da sua quota-parte quando deixam o seu mineral na cooperativa”, explica Bahati à Fundação AIS.

 

Pobre país rico…

A questão da exploração das riquezas naturais da República Democrática do Congo tem sido denunciada com frequência pela Igreja Católica, pois está na base da situação terrível em que se encontra o país, mergulhado em permanentes conflitos e vendo os seus recursos serem delapidados muitas vezes por grupos que defendem os seus interesses de armas na mão, sem que as autoridades consigam fazer-lhes frente. Ainda recentemente, a propósito da visita do Papa a este país africano, o Padre português Marcelo Oliveira referia à Fundação AIS este problema. “A questão da falta de segurança neste país é muito grande, seja na realidade da cidade, mas sobretudo no interior, na parte leste do país, com muitos ataques armados, muitos conflitos tribais e tudo isso com o interesse no subsolo. O Congo é um país riquíssimo em ouro, diamantes, cobalto, coltan, e tudo isso faz com que haja ataques para tentar fazer partir as populações e depois tomar posse das terras.” Uma realidade, lembrou ainda o sacerdote comboniano, que ocorre com a cumplicidade ou o interesse directo da comunidade internacional, em especial dos países vizinhos da República Democrática do Congo. “Quantas riquezas, quanta madeira, quanto ouro, quantos diamantes são levados sem serem pagos”, lamenta o sacerdote, para quem a situação terrível em que se encontram os que se dedicam à exploração dos recursos naturais não é indiferente. “São os pobres que trabalham, mas são os ricos que levam para fora do país toda a riqueza que podeis imaginar… ouro, diamantes, e sobretudo o coltan, tão procurado principalmente para as informáticas, e tudo isso sai deste país pela dita porta do cavalo.”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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