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Brotéria #5
A POESIA
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Um amigo que também escreve poesia, perguntou-me: “Não sentes um certo pudor

em dizer que és poeta?”

Entendi o que queria dizer. A minha primeira formação foi em artes plásticas e

também eu, apesar de trabalhar todos os dias e fazer regularmente exposições, tive durante anos pudor em dizer-me artista.

A criação artística e poética foi muitas vezes usada como metáfora da criação divina, e isso envolveu-a numa aura tão densa que agora nos soa pretensioso dizer “sou poeta”, “sou artista”. Mas nada é mais humano que a criatividade. Sinto-me hoje mais leve e até mais criativo porque me libertei do peso que lhes associava, porque pousei os pés no chão.

Como um poeta pode ser muitas coisas e tem o poder de se recriar, pergunto-me que poeta quero ser. E para quê.

Sinto a necessidade de trazer a poesia para uma dimensão humana, mortal,

vulnerável, falível. Poesia é modéstia. Poucas atividades artísticas exigem tão pouco. Para escrever um poema, basta uma caneta e um papel, qualquer caneta e qualquer papel. O que estiver mais à mão. E acredito que os temas sobre os quais escrevemos também devem ser os que estão mais à mão. Os que nos são familiares.

Escrevo com as palavras com que falo, as mais quotidianas, as de deitar a trazer. E

uso apenas as necessárias, porque todas as palavras são demasiado caras, não só as caras. As palavras são um recurso precioso, como o tempo e a atenção.

 

O poema é o caminho mais curto

que não seja um atalho.

 

Um poema não permite batota. Exige total verdade, ainda que essa verdade só

exista por momentos, ou apenas dentro da nossa consciência, sem espelho aparente no mundo. Verdades fluidas são verdades de qualidade, ao contrário das eternas e imutáveis, que exigem que estejamos sempre a modelar a realidade, dobrando-a como uma barra de ferro.

Quero clareza e transparência. Trazer a poesia para junto de mim, sentar-me com ela à mesa, contar-lhe os meus dias. Dizer-lhe que a dignidade existe em tudo, e que também há interesse no que não paramos para ver.

Convido toda a gente para esta mesa. Não escrevo (apenas) para poetas, mas para quem nunca antes leu um poema, quem nem sabia que a poesia era para si.

Apoio-me numa tradição com milhares de anos para trabalhar os temas do meu tempo e do meu mundo e transmitir os seus valores.

E porque nem sempre as palavras me foram suficientes, ambiciono que a minha escrita dê a quem a lê palavras e ideias em que se possa reconhecer.

 

André Tecedeiro,
Publicado em Brotéria 197-1/julho (2023): 85-86

 

______________


A edição de julho da revista Brotéria está disponível para encomenda no site www.broteria.org/pt/loja_revista?id=183.

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