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Pedro Vaz Patto
Abertura à vida e ao acolhimento

Finalmente, depois de uma persistente negação, ou indiferença, perante a gravidade do problema, vai-se reforçando, em responsáveis políticos e na sociedade em geral, a consciência do drama da queda da natalidade, que atinge particularmente os povos europeus.

 

Diante desta situação, há quem olhe para a imigração de povos de outros continentes como solução imediata e incontornável. Serão esses imigrantes a garantir aquela população jovem e ativa de que carece a Europa. Essa possibilidade tem levado a descurar a importância do incremento da nacionalidade, incremento que não deixa de implicar renúncias a um conforto a que as últimas gerações europeias, ao contrário de anteriores, se veem habituando.

 

Contra essa possível solução, insurge-se quem nela vê uma ameaça para a coesão e homogeneidade das nações europeias, e até para a sobrevivência da sua cultura de matriz cristã. A expressão mais nítida dessa tendência verifica-se na política do governo húngaro, que pretende conjugar fortes apoios à natalidade com as também fortes restrições ao acolhimento de imigrantes, em especial os de cultura muçulmana.

No seu discurso, do passado dia 12 de maio, aos “Estados Gerais da Natalidade” de Itália, o Papa Francisco associa a queda da natalidade às dificuldades das novas gerações de acesso ao emprego justamente remunerado e à habitação, mas, sobretudo, ao egoísmo, ao cansaço moral e à tristeza e associa o incremento da natalidade (a generatividade) à alegria e à esperança. Desse modo, afasta a referida contraposição entre o incremento da natalidade e o acolhimento de imigrantes (acolhimento que encara à luz do princípio do destino universal dos bens, como forma de superar a pobreza). Afirma ele nesse discurso:

 

«Não podemos aceitar que a nossa sociedade deixe de ser generativa e degenere na tristeza. Quando não há generatividade surge a tristeza. É um mal-estar horrível, cinzento. Não podemos aceitar passivamente que tantos jovens tenham dificuldade em realizar o seu sonho de família e sejam obrigados a baixar o nível das expectativas, contentando-se com substitutos privados e medíocres: ganhar dinheiro, apostar na carreira, viajar, preservar ciosamente o tempo livre... (…). É este o estado de espírito de uma sociedade não generativa: um cansaço interior que anestesia os grandes desejos e carateriza a nossa sociedade como sociedade do cansaço! Voltemos a dar alento aos desejos de felicidade dos jovens! (…)  Cada um de nós experimenta qual é o índice da sua felicidade: quando nos sentimos cheios de algo que gera esperança e aquece a alma, é espontâneo partilhá-lo com os outros. Pelo contrário, quando estamos tristes, cinzentos, defendemo-nos, fechamo-nos e vemos tudo como uma ameaça. Eis, a natalidade e o acolhimento nunca devem ser opostos, pois são duas faces da mesma moeda, revelam-nos o grau de felicidade que há na sociedade. Uma comunidade feliz desenvolve naturalmente os desejos de gerar, integrar, acolher, ao passo que uma sociedade infeliz se reduz a uma soma de indivíduos que procuram defender a todo o custo o que têm. (…)»

 

Confiar apenas na imigração de jovens para assegurar o futuro de sociedades envelhecidas mão será certamente a melhor solução. Há que pensar, desde logo, no longo prazo e na tendência de no futuro também esses jovens imigrantes adotarem os hábitos consumistas das sociedades europeias, com o que isso implica de redução da natalidade.

 

E também é verdade que pode ser posta em risco a harmonia de uma sociedade onde só os anciãos, e não os jovens, são depositários da cultura que a identifica. O Papa São João Paulo II, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 2001, aludiu, a este respeito, à importância de preservar a “fisionomia cultural” de um território, afirmando que  «pode considerar-se uma diretriz razoável a de garantir a determinado território um certo “ equilíbrio cultural “, conexo com a cultura que de modo prevalente o marcou; um equilíbrio que, com abertura às minorias e no respeito dos seus direitos fundamentais, consinta a permanência e desenvolvimento duma determinada “fisionomia cultural”, ou seja, daquele património fundamental de língua, tradições e valores que estão geralmente ligados à experiência da nação e ao sentido da ”pátria”» (n. 14). Mas tal não significa a recusa do acolhimento de imigrantes. Afirma também São João Paulo II nessa mensagem que devem ser conjugadas as razões da identidade e do diálogo de culturas. «Se verdadeiramente uma cultura é vital, não tem motivos para temer o seu desaparecimento» (n. 15).

 

Algo de semelhante afirma o Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti: «As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas, para que o mundo não fique mais pobre»; «(…) porém, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades» (n. 134); «uma sã abertura não ameaça a identidade, porque ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades, segundo modalidades próprias» (n. 148). Isto é assim porque «toda a cultura saudável é por natureza aberta e acolhedora, não estática» (n. 146).

A respeito da cultura cristã da Europa, que alguns veem ameaçada por qualquer abertura à imigração, afirmou o Papa Francisco num seu discurso de 17 de fevereiro de 2017: «Considerando que a primeira ameaça à cultura cristã da Europa vem precisamente do seio da Europa, o fechamento em si mesmos ou na própria cultura nunca é a solução para voltar a dar esperança e realizar uma renovação social e cultural. Uma cultura consolida-se através da abertura e do confronto com as outras culturas, desde que haja uma consciência clara e madura dos próprios princípios e valores». É esta consciência que tem faltado à Europa – poderemos acrescentar. E que a hostilidade para com os imigrantes não vem reforçar, antes pelo contrário, porque nega a substância desses princípios e valores.

Em suma e em conclusão: Uma comunidade feliz e cristã está aberta à vida e também ao acolhimento.