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Sacerdote fala sobre a violência contra os cristãos no Burquina Fasso
“O mal não terá a última palavra”
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Voluntários têm de proteger as igrejas, as enfermeiras católicas disfarçam-se de muçulmanas para poderem ir às aldeias tratar dos doentes, as raparigas cristãs têm de ir para a escola com o rosto coberto, para não serem raptadas. Os cristãos estão sob uma ameaça real de grupos jihadistas no Burquina Fasso. É preciso muita coragem para resistir, como explicou o Padre Wenceslau Belem num evento organizado recentemente em Madrid pela Fundação AIS. Palavras que ganham agora um novo vigor com o lançamento, dia 22 de Junho, do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo…

 

“Desde os primeiros ataques em 2015, os Cristãos já não podem exercer livremente o seu direito à liberdade religiosa.” As palavras do Pe. Wenceslau Belem na catedral de Almudena, em Madrid, não podiam ser mais explícitas e têm agora um sentido ainda mais agudo após o lançamento, dia 22 de Junho, na Assembleia da República, em Lisboa, do Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade religiosa no Mundo. Convidado em Fevereiro para uma vigília de oração organizada pelo secretariado espanhol da AIS, este sacerdote falou de um país em que os cristãos vivem amordaçados, sem liberdade, sujeitos a uma violência brutal por parte de grupos jihadistas que querem impor o Islão como a única religião e que, aos poucos, vão submetendo a sociedade às suas regras, às suas imposições. Importa escutá-lo de novo. “Desde que o terror começou, mais de 2 mil escolas foram encerradas. Atacam escolas modernas transformando-as em escolas corânicas; atacam igrejas católicas matando ou raptando cristãos, especialmente catequistas, padres e outros leigos empenhados; e querem impor o uso de véus de rosto inteiro a todas as mulheres, independentemente da religião. Muitas raparigas cristãs têm de ir à escola com o véu para evitarem ser marcadas, caluniadas, espancadas ou mesmo raptadas...” A ameaça não podia ser mais explícita. É a tal ponto que, contou o Pe. Wenceslau Belem, perante uma audiência atenta, “aos Domingos e dias de festa, a polícia, os militares ou voluntários, cercam as igrejas para que possamos rezar e celebrar a Santa Missa sem perigo”.

 

Histórias de terror

Todo o seu depoimento foi assim, descrevendo um país que caiu nas malhas do terror jihadista que já galgou fronteiras e que acontece também no Mali, Níger ou Benim, por exemplo. A maioria da população do Burquina Fasso é muçulmana, cerca de 60%. Os católicos são menos de metade [cerca de 19%], e cada vez mais são forçados a assistir à Missa através da rádio, pois o acesso às igrejas, às paróquias pode ser já quase impossível. “Agora, com a rádio diocesana transmitimos a Missa e damos catequese”, explicou o Pe. Wenceslau. “Hoje em dia, no Burquina, há mais de 4.600 escolas encerradas, muitas paróquias fechadas e mais de 1.700.000 deslocados internos”, acrescentou. Contrariar a ameaça jihadista requer coragem e até imaginação. É o caso das enfermeiras que se fazem passar por muçulmanas para continuarem a acompanhar os seus doentes, as pessoas que precisam de cuidados médicos e que estão, tantas vezes, sem quaisquer recursos nas suas aldeias. “Quando vemos enfermeiras católicas que se confiam à misericórdia de Deus, se disfarçam de muçulmanas e vão às aldeias, atravessando zonas perigosas, passando por terroristas para salvar vidas, para cuidar de pessoas doentes que não puderam fugir, é encorajador e dizemos que é Deus quem salva”, disse também o Pe. Wenceslau.

 

Igreja viveiro de mártires

O testemunho deste sacerdote ficou marcado também pela história do Padre Jacques Yaro Zerbo, assassinado no dia 2 de Janeiro deste ano. Morreu quando se dirigia para uma aldeia para o funeral de um catequista. “No caminho, os terroristas detiveram-no. Conhecendo-o e sabendo que devido à sua fé católica ele não se deixava intimidar, levaram-no a poucos metros da capela da aldeia, mataram-no a tiro e foram-se embora com o seu carro. Os cristãos ouviram o barulho, foram ver e descobriram que era o Pe. Jacques Zerbo.” Tal como com este sacerdote, que “deu a vida por permanecer fiel a Cristo”, a Igreja do Burkina Faso começa a ser um viveiro de mártires. E alguns deles foram lembrados na Catedral de Almudena, em Madrid. “Em Março de 2019, o Pe. Joel Yougbare, pároco de Djibo na Diocese de Dori, foi raptado e não temos notícias dele até hoje; em Maio do mesmo ano, o vigário paroquial Simeon Yampa e outros cinco paroquianos foram assassinados durante uma Missa dominical. Em 2021, outro sacerdote, Rodrigues Sanou, e um sacerdote missionário espanhol, Antonio Cesar Fernandez, também foram mortos. Outros paroquianos foram raptados, alguns foram libertados, outros não.” Todos eles são hoje recordados com saudade, mas também na certeza de que as suas vidas não foram em vão. O Pe. Wenceslau Belem agradeceu a ajuda que a Fundação AIS tem dado à Igreja perseguida do seu país e deixou a certeza de que os cristãos do Burquina Fasso vão resistir à violência e ao terrorismo com a única arma possível: a oração e o espírito de paz. “Obrigado à Ajuda à Igreja que Sofre. Estamos convencidos de que o mal não terá a última palavra. Continuaremos com esperança a lutar contra o terrorismo com a nossa única ‘Kalashnikov’, a nossa arma invisível, mas muito eficaz: a oração.”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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