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P. Manuel Barbosa, scj
JMJ na Vida Consagrada

1. Quando falamos de VC (Vida Consagrada) na JMJ (Jornada Mundial da Juventude), pensamos em ações, iniciativas e projetos dos institutos de VC (congregações, ordens religiosas, sociedades de vida apostólica, institutos seculares, mosteiros de clausura…) no âmbito da JMJ. Isso situa-nos na dinâmica do FAZER. Mas se falarmos de JMJ na VC, julgo que nos colocamos na lógica do SER, nas implicações e desafios da JMJ na renovação da VC.

No domingo passado, alguns consagrados e consagradas foram visitar a sede da JMJ e pensar nos desafios da JMJ à VC. Da vasta presença consagrada no Patriarcado estavam 25 pessoas. Dois jovens, a Matilde e o Manuel, falaram da sua visão em relação a esta forma de existência cristã. Realço quatro desafios dessa partilha: fidelidade àquilo em que acreditam, afirmando a sua adesão a Cristo segundo os próprios carismas; saída da vida “conventual” fechada em si mesma para uma vida comunitária aberta, à semelhança de uma Igreja em saída, vivendo fraternalmente em missão; testemunho coerente e verdadeiro, sendo reconhecidos por aquilo que são e vivem em tantos campos e contextos de evangelização; radicalidade de vida, a partir das raízes das suas vidas, sem medo das exigências que a sua proposta contempla.

 

2. No mesmo sentido, vários documentos da Igreja contribuem para repensar a vida consagrada em contexto juvenil. O documento final do Sínodo dos Bispos sobre a fé, os jovens e o discernimento vocacional (2018) constitui uma referência obrigatória. Transcrevo o n.º 88 sobre a vida consagrada: «O dom da vida consagrada, tanto na sua forma contemplativa como ativa, que o Espírito suscita na Igreja, tem um particular valor profético enquanto é um jubiloso testemunho da gratuidade do amor. Quando as comunidades religiosas e as novas fundações vivem autenticamente a fraternidade, tornam-se escolas de comunhão, centros de oração e contemplação, lugares de testemunho de diálogo intergeracional e intercultural, bem como espaços para a evangelização e a caridade. A missão de muitos consagrados e consagradas, que cuidam dos últimos nas periferias do mundo, manifesta concretamente a dedicação duma Igreja em saída. Não obstante em certas regiões experimente a redução numérica e a fadiga do envelhecimento, contudo a vida consagrada continua a ser fecunda e criativa, inclusive através da corresponsabilização de muitos leigos que compartilham o espírito e a missão dos diferentes carismas. A Igreja e o mundo não podem prescindir deste dom vocacional, que constitui um grande recurso para o nosso tempo».

Aqui estão atitudes a renovar criativamente: testemunho e profecia, diálogo e comunhão, oração e contemplação, caridade e evangelização, felicidade e criatividade, fidelidade e gratuidade. Um autêntico manancial deste incisivo texto, a provocar a vida consagrada na dinâmica do ser e não apenas do fazer.

 

3. Depois da realização da JMJ, o que permanece são estas provocações, entre outras, reforçadas pelo processo sinodal em curso e pelo sentido peregrino em que a esperança mantém vivo o encontro alegre e renovado com Cristo vivo (jubileu 2025).

Nas jornadas pastorais dos bispos que decorreram esta semana em Fátima, para refletir sobre os desafios pastorais pós-jornadas, apontavam-se quatro provocações, que são para todos mas que podem incidir na realidade da vida consagrada: fugir à tentação de programar já muitos eventos para o futuro próximo, em vez de perceber primeiro o que o Espírito Santo nos pede através dos jovens; escutar a experiência espiritual das pessoas que viveram a preparação e a realização da JMJ; desafiar os jovens e com os jovens, a partir dessa experiência; acompanhar e potenciar dinamismos que se criaram no coração dos jovens.

Que renovação da JMJ na vida da Igreja e na vida consagrada? Uma reflexão a continuar, sem perdermos a rajada do Espírito que este processo provoca nas nossas vidas e comunidades.

 

P. Manuel Barbosa, scj

foto: Comunidade Sementes do Verbo