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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A grandeza da fraqueza do Coração de Jesus

Nestes tempos pós-modernos, o amor tornou-se uma palavra tão gasta que parece ter perdido a sua originária dignidade. Com efeito, a exaltação de todos os tipos de afectos levou a excessos deploráveis, que recordam a Roma pagã (Rm 1, 18-32). Se a paixão, sem a guia da razão, é cega, é inevitável que tropece e caia no precipício da devassidão.

É urgente resgatar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. Portugal tem especiais responsabilidades neste culto, porque a Basílica da Estrela, em Lisboa, é a primeira igreja do mundo dedicada ao Coração de Jesus. Também as aparições de Fátima contribuíram para a implementação destas devoções: a ‘Senhora mais brilhante do que o Sol’ pediu que não mais se ofendesse o Sagrado Coração de Jesus e propôs, para a conversão da Rússia, a consagração desse país ao seu Imaculado Coração.

O mês de Junho é, tradicionalmente, o mês do Sagrado Coração de Jesus: uma antiga devoção que manifesta a exigência do mandamento novo (Jo 15, 12), expressão genuína da verdadeira caridade, que atesta, mais do que qualquer outra condição, a autenticidade da fé cristã (Jo 13, 35).

Tempos houve em que se entendeu que era pouco masculina qualquer manifestação sensível de afecto. Reservavam-se para as mulheres as expressões mais carinhosas e aos homens pedia-se uma atitude reservada, se não mesmo distante, até para com os mais próximos parentes. Não era bem-visto um pai que trouxesse ao colo um filho pequeno, nem eram adequadas à virilidade certas manifestações de ternura. Como então se dizia, ‘um homem não chora’.

Felizmente, esses estereótipos estão já ultrapassados, embora seja conveniente não dissolver a maternidade e a paternidade numa ambígua parentalidade, como pretende a moderna ideologia de género. Ser pai é diferente de ser mãe e a mãe não é outro pai, nem este é outra mãe: os seus papéis, no seio da família, não são idênticos, mas complementares e devem conjugar-se em ordem à melhor educação e formação da personalidade dos filhos. Da mesma forma como mulheres e homens são iguais em natureza e dignidade, têm também a mesma capacidade afectiva, que devem saber expressar segundo a respectiva feminilidade e masculinidade.

Nos relatos evangélicos, Jesus manifesta-se de uma forma muito viril. Sobressai a sua masculinidade na forma como procedeu à expulsão dos vendilhões do templo (Jo 2, 13-22). Mas o filho de Maria é também exemplo de uma extraordinária delicadeza com os mais fracos, como a adúltera apanhada em flagrante (Jo 8, 3-11), ou as crianças (Mt 19, 13-15). É também de uma comovedora proximidade com os seus mais chegados seguidores: João, o discípulo que se identifica como o discípulo que o Senhor amava (Jo 19, 26), protagoniza um gesto de grande intimidade, que era tão intensa quanto pura, quando, na última Ceia, inclina a sua cabeça sobre o peito do Mestre (Jo 13, 23).

Não era só no círculo dos seus mais próximos colaboradores que Jesus cultivava relações de grande amizade. Tinha, para além do grupo dos doze apóstolos e mais de setenta discípulos, muitos amigos. Um deles, Lázaro, adoece e morre e, quando o Mestre, que desde sempre soube não apenas do seu falecimento como também da sua iminente ressurreição, se aproxima do seu túmulo, comove-se externamente. Chega a chorar o amigo falecido, até ao ponto de alguns comentarem: Vede como Ele o amava!  (Jo 11, 1-37).

Nesta confissão da ‘fraqueza’ do Coração de Jesus está, afinal, toda a sua grandeza. Um coração impassível à dor alheia, ou indiferente, é, afinal, um coração desumano ou, em termos bíblicos, morno (Ap 3, 15-16). Só um coração que sofre as dores alheias, porque as faz próprias, é um coração que sabe encontrar razões de tristeza e de alegria. Talvez por isso as lágrimas tanto podem ser de pesar, como de felicidade: chora-se de dor e de alegria! Só um coração, como o de Jesus, é capaz de sofrer e de se alegrar, porque sabe amar.            

 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada