Por uma Igreja sinodal |
Sínodo
O Documento da Etapa Continental da Europa (Parte I)
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A Assembleia Continental da Europa realizou-se em Praga, de 5 a 12 de Fevereiro, e reuniu delegados dos 39 membros do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), 140 delegados em modo presencial mais 269 por via digital, juntamente com mais 42 convidados em representação da Secretaria Geral do Sínodo, da Comissão permanente da CCEE e de várias instituições eclesiais que exercem missão no continente europeu.

 

Os trabalhos da Assembleia realizaram-se num ambiente de escuta orante e partilha a partir das ressonâncias trazidas das Igrejas locais como recepção do Documento de trabalho para a etapa continental. Estas foram apresentadas em plenário e trabalhadas em grupos (presenciais e remotos), e os resultados foram depois debatidos, de novo, em plenário. Ressaltou a forte experiência jubilosa de pertença à Igreja, num caminhar juntos, sem escamotear as tensões e interrogações, problemas e dificuldades que se colocam à Igreja na Europa, mas fortalecida nos imensos tesouros que a Igreja neste continente transporta, desde as grandes tradições latina e orientais, e também as das Igrejas do Norte e do Sul.

O documento final surge como um resumo dos trabalhos: reproduz as principais intuições e consensos partilhados, mas também as divergências e tensões que emergiram. Não apresenta soluções nem interpretações teológicas, nem pretende ser expressão de qualquer posição definitiva ou de indicação estratégica operativa da Igreja na Europa a respeito de quaisquer assuntos cujo discernimento se realizará em etapas sucessivas do processo sinodal.

O mesmo documento começa por apresentar alguns traços mais significativos do contexto  em que se move a Igreja na Europa: a guerra na Ucrânia e instabilidade no leste europeu; a crise e feridas profundas pelos abusos e sua gestão pelas autoridades eclesiásticas; o processo sinodal, marcado pela diversidade e tensões, acentuadas por anos de oposição de blocos ocidente/leste, norte/sul, países de tradição católica/países de minoria católica ou mesmo cristã, mas também por uma grande variedade dentro desses blocos; pluralismo confessional e iniciativas ecuménicas a florescer; secularização e diálogo cultural (questões como a inteligência artificial ou a identidade de género); migrações e refugiados. Rematando esta apresentação sublinha-se a quantidade de mártires europeus cuja memória constitui um fecundo património espiritual, e a centralidade da escuta orante da Palavra de Deus.

 

De seguida, o documento final apresenta sete intuições sobre as quais se deve fundar o caminho para uma Igreja sinodal em perspectiva europeia:

1. A dimensão espiritual da sinodalidade, como conversão contínua a Cristo. A união dos discípulos a Cristo por acção do Espírito Santo, tanto na vida pessoal ao estilo quenótico de Jesus, quanto na dimensão comunitária de caminhar juntos e discernir em conjunto, é o caminho a perocorrer por cada cristão e cada comunidade cristã.

2. A redescoberta da comum dignidade baptismal e suas implicações. É no baptismo em Cristo que todo e cada baptizado recebe a vocação à santidade e à edificação da Igreja, tomando parte activa e irrenunciável. Esta redescoberta pede passos concretos na procura de reconhecer e favorecer a dignidade e vocação da mulher e dos jovens. 

3. O vínculo intrínseco entre sinodalidade e missão. A sinodalidade é uma caminho comum a vários níveis, um novo estilo de ser Igreja missionária e constitui o vértice da participação na missão divina. Um Igreja missionária, de discípulos missionários, escuta, olha as feridas existenciais das pessoas, da humanidade e da criação (a guerra, as feridas pessoais, a crise ambiental, a pandemia, os abusos, todas as formas de violência, exclusão e humilhação), e age para as superar. A Igreja não se fecha ao diálogo, mas vive em saída das suas seguranças e coloca-se em discussão, abrindo espaços de experimentação e outras soluções, se necessárias.

4. O diálogo como estilo de vida da Igreja. Aquele assenta num sólido fundamento trinitário e eclesiológico, que deve plasmar todas as relações na Igreja: dentro de e entre Igrejas locais (na riqueza de diferentes tradições); nas relações ecuménicas e interreligiosas (mais desenvolvidas nas zonas de minoria católica, seja com as Igrejas protestantes e ortodoxa, seja com o judaísmo e islamismo); com a sociedade (e a secularização, em diálogo com o mundo sem cair na mundanidade); com os que vivem feridos ou nas margens.

5. O compromisso pela superação de preconceitos e reconciliação da memória. É essencial o reconhecimento das feridas causadas pelos abusos e por formas sistémicas de perpetuação e encobrimento, e assumir com determinação os processos de mudança. Também é preciso escutar e discernir tudo o que diz respeito ao acompanhamento dos pobres, dos marginalizados, dos que se sentem excluídos ou segregados, dos que perfilham diferentes identidades de género, os divorciados recasados, os migrantes, as pessoas doentes ou com deficiência. Estes assuntos fizeram emergir diferenças de visão e opinião, também quanto ao sentimento de necessidade de reformas ou medo delas, por vezes com acusações recíprocas entre Igrejas locais ou grupos eclesiais. Mas sempre ressaltou o apelo à conversão e à purificação da memória, também quanto a posições teológicas e pastorais rígidas, para melhor responder aos desafios da missão contemporânea.

6. A atenção prioritária às famílias, às mulheres e aos jovens. Esta atenção é requerida pela própria condição da família como célula fundamental da sociedade e primeiro lugar da transmissão e amadurecimento da fé, assumida pelas principais confissões religiosas reconhecidas pelos Estados europeus. De igual modo se reclama um maior espaço para a participação da mulher em lugares essenciais da vida da Igreja, a partir da sua condição baptismal, dos seus carismas e talentos. Igual atenção é requerida quanto à presença efectiva de jovens na vida da Igreja, não apenas o futuro mas já o presente da mesma.

7. A adopção do método sinodal em todos os processos eclesiais. Este método permite que cada um seja escutado e promove a saída de si e das certezas prévias por meio da escuta pessoal e profunda da Palavra de Deus, da oração comunitária e da conversão, que favorece a escuta do outro e do Espírito Santo. Por meio de formação em teologia da sinodalidade, e da prática reiterada do método sinodal nos diferentes processos eclesiais, avançar-se-á numa sinodalidade estrutural capaz de tornar a Igreja menos clerical, fria e burocrática.

(continua…)

texto pelo Pe. José Miguel Pereira; foto por CCEE
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