Lisboa |
Bairro da Serafina prepara-se para receber o Papa Francisco
A rezar por “uma visita que será única”
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É a periferia que o Papa Francisco quer visitar em Lisboa, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. A Serafina prepara-se para receber o Santo Padre e será “uma coisa única”, segundo o pároco. Até lá, até esse dia 4 de agosto, o trabalho continua a ser “atender todas as pessoas, sem escolher ninguém e dando preferência aos mais pobres”.

 

Pároco da Serafina há 45 anos, foi com “surpresa” que o cónego Crespo soube que o Papa Francisco quer visitar o ‘seu’ bairro, durante a visita a Portugal para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023. “O primeiro sentimento foi de surpresa, de me sentir, de certa forma, também indigno de ter tão preciosa visita. Porque ter a visita do Papa é uma coisa única, que nunca mais irá acontecer, certamente, neste bairro, neste centro social, nesta paróquia”, manifesta o sacerdote, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

O padre Crespo garante mesmo que nunca tinha pensado ser possível ter o Papa no bairro, junto da sua gente. “Nunca me tinha passado pela cabeça esta possibilidade. Sinceramente, não estava minimamente à espera, porque entre tantas instituições que existem, por esse país fora, o ter escolhido o Bairro da Serafina e da Liberdade… Se calhar, foi mais pelo facto de ser uma periferia da cidade de Lisboa, que tem uma resposta às necessidades e carências da população deste bairro. Terá sido isso que foi escolhido, não sei, não tenho a mínima ideia…”, confessa.

Apesar da notícia inesperada, o sacerdote sublinha que procura ter como lema de vida “nunca aparecer”. “Gosto mais de trabalhar, de trabalhar no silêncio, no segredo, e ‘por amor…’, como diz o meu lema sacerdotal”, explica. Aliás, esta é a única paróquia do país que tem como padroeiro São Vicente de Paulo. “Ele trabalhou no silêncio e eu procuro fazer a mesma coisa: atender todas as pessoas que nos vêm bater à porta diariamente, abrindo as portas a todos, sem escolher ninguém e dando preferência aos mais pobres”, acrescenta.

 

Coração a bater mais forte

O padre Crespo, de 82 anos, diz que apenas soube da notícia da visita do Papa à Serafina na véspera da apresentação pública do programa oficial da visita de Francisco a Portugal, no passado dia 6 de junho. Contudo, cerca de 15 dias antes da divulgação, um episódio deixou-o com “a pulga atrás do ouvido” e “o coração a bater mais forte”. “Houve uma coisa que aconteceu, que me pareceu haver qualquer coisa no ar. O D. Américo [Aguiar, presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023] telefona-me e pergunta se pode celebrar aqui a Missa, às 18h30. Era um dia de semana e aparece-me com o Núncio Apostólico, com uma data de padres de Lisboa, mais um padre que veio de Roma. Chegou também a polícia ao bairro e toda a gente ficou a olhar e a perguntar o que estava a acontecer. Foi uma movimentação enorme”, conta. Após a Missa, a comitiva foi “ver as várias instalações, o auditório, a igreja e a zona envolvente”. “Depois, despediram-se e foram-se embora”, refere. “Isto foi 15 dias antes do anúncio do programa oficial da visita do Papa a Portugal. Ficámos sempre na expectativa do que é que seria e para que foi esta visita, mas nunca imaginei tal coisa. Claro que fiquei com a pulga atrás do ouvido e com o coração a bater mais forte”, confidencia.

 

Entusiasmo de todos

Nestes dias que se têm seguido à notícia que o Papa Francisco vai visitar a Serafina, o pároco manifesta que os contactos têm sido muitos. “Toda a gente pergunta, toda a gente quer oferecer coisas, toda a gente está muito entusiasmada”, frisa. “Aqui, a minha gente, diz: ‘Ah, o senhor padre merece a visita do Papa pelo trabalho que tem feito’. Eu digo-lhes que nós temos é de continuar a estar ao serviço, com muita calma, com muita tranquilidade. Mas as pessoas ficaram todas entusiasmadíssimas, com muita alegria, a começar já a imaginar e a pensar o que vão preparar. Já recebemos muitos emails e telefonemas, com ofertas, propostas, pedidos”, revela.

Questionado se já pensou, ou já rezou, o que quer dizer ao Papa Francisco na manhã do dia 4 de agosto, o cónego Francisco Pereira Crespo assume alguma preocupação. “Isso é outra coisa que me está a preocupar, o que vou dizer ou o que vou apresentar. Da organização disseram-me para estarmos sossegados e tranquilos, que depois fazemos uma reunião para preparar tudo. Estou na expectativa para saber o que vai acontecer. Uma coisa é ajoelhar-me e dizer ao Papa que sou padre e o pároco daqui; outra é o que terei de dizer oficialmente. Mas vamos aguardar”, realça.

 

Tudo à disposição

Os espaços do Centro Social e Paroquial de São Vicente de Paulo estão ao dispor da JMJ Lisboa 2023. “Todos os nossos espaços estão disponíveis para acolher jovens, sejam de Espanha, do Opus Dei – que vão cá ficar – ou de outros grupos. Até um grupo de deficientes vai ficar aqui, precisamente porque temos espaço para poder acolher 15 a 20 deficientes, coisa que, se calhar, não encontram noutro lado”, observa o pároco.

O Papa vai visitar a Serafina no contexto da Jornada Mundial da Juventude e os jovens desta paróquia têm-se preparado para o encontro. “Temos vindo a fazer um trabalho com os jovens. Continuamos a rezar e a formar para este acontecimento, e temos um grupo de jovens inscritos para a participação na Jornada. O nosso COP [Comité Organizador Paroquial] tem também trabalhado imenso! Está tudo à disposição e estamos entusiasmadíssimos para que tudo corra da melhor maneira. E que o Papa possa vir”, deseja o padre Crespo, o sacerdote que está há 45 anos na Serafina e que na manhã do dia 4 de agosto espera receber o Papa Francisco no ‘seu’ bairro.

 

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Chegou oficialmente à Serafina a 23 de fevereiro de 1979. Esta visita do Papa é um presente de Deus, um carinho de Deus, à sua missão de mais de quatro décadas junto dos mais pobres?

Diante do Senhor, já Lhe disse muitas vezes: ‘Obrigado!’. Agora, que isto seja uma prenda e uma resposta ao meu trabalho, penso que só Deus me poderá responder. Eu, de facto, já agradeci ao Senhor este acontecimento, e este dom, de o Papa vir aqui, à Serafina. As pessoas dizem: ‘Sim, é um prémio pelo seu trabalho’, mas, humildemente, digo que não quero aqui nenhuma estátua da minha pessoa, quero é que o trabalho fique realizado e que as pessoas continuem aquilo que eu comecei e o façam progredir cada vez mais. Não é a visita do Papa que me diz que é uma prenda que o Senhor me quer dar. Não! A prenda, espero recebê-la um dia, no Céu, se for digno.

 

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Um bairro a rezar pela recuperação do Papa

O Papa Francisco foi operado a uma hérnia na zona abdominal, no passado dia 7 de junho. Desde então, toda a Paróquia de São Vicente de Paulo e os bairros da Serafina e da Liberdade têm rezado pelo Santo Padre. “E muito”, salienta o pároco. “Rezamos todos os dias o nosso terço pelo Papa e, depois da notícia da sua operação, aumentou a nossa preocupação e a nossa oração”, garante o cónego Francisco Crespo.

O sacerdote diz que acompanham “diariamente” as notícias que chegam do Vaticano, “das melhoras do Papa”, sabendo que “até ao dia 18 de junho a sua agenda está cancelada”. “A partir daí, dizem que vai retomar o seu trabalho, devagarinho, e como depois faltará ainda mais de um mês até à JMJ, pode ser que ele se recomponha, forte como é, e a juntar ao desejo grande que tem de vir a Portugal e à Jornada”, projeta o pároco. “Se o Papa não vier – porque o programa foi encurtado ou porque não pode mesmo vir –, ficamos tristes porque já aguardávamos este grande acontecimento. Mas se não acontecer, é porque o Senhor não quis. A partir daí, temos de aceitar a vontade de Deus”, assume, realisticamente, o padre Crespo. Mas o foco de “toda a Igreja de Lisboa e de Portugal” é que a vinda do Papa ao nosso País seja possível. “Tal como o mundo inteiro está numa expectativa, muito mais nós, aqui, no nosso pequeno mundo, estamos também na expectativa, aguardando a ação do Senhor na vida do Papa Francisco para que ele recupere a sua saúde”, deseja o pároco da Serafina.

 

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“A caridade é uma forma de encontrar Jesus Cristo”

A Paróquia de São Vicente de Paulo fica localizada entre dois bairros periféricos da cidade de Lisboa, o da Serafina e o da Liberdade. Foi constituída paróquia autónoma a 25 de março de 1959, pelo Cardeal Cerejeira, e tem como pároco, desde 1979, o cónego Francisco Pereira Crespo, que tinha começado a colaborar nesta zona do Patriarcado uns anos antes. Sempre com o lema: a caridade é evangelizadora. “O Papa, em todos os discursos, em tudo o que fala, praticamente todos os dias, é virado para a caridade. O convite dele é sempre para nos virarmos para os pobres, para os necessitados, para os carenciados. Desde o princípio da minha vida sacerdotal que procuro entregar-me aos outros e encontrar forma de evangelizar não somente pela palavra, nem pela liturgia – que também são importantíssimas – mas também, e sobretudo, pela caridade”, explica o pároco, garantindo que toda a ação sociocaritativa “tem repercussão na vida litúrgica”. “Seja através dos trabalhadores que tenho na instituição, seja através da prática e da vivência cristã, como também de muitas festas e ocasiões, a população sabe que aqui não há simplesmente o dar o pão e a sopa, mas também evangelização. A caridade é uma forma de encontrar Jesus Cristo. Sempre quis que as pessoas vissem no pobre, na criança, no deficiente, no idoso, seja em quem for, a Pessoa de Jesus Cristo”, aponta.

No bairro, a paróquia procurar “dar resposta a situações gravíssimas”. “Se não existisse a nossa ação sociocaritativa, isto estava completamente abandonado. Nós sentimos e vimos – e até mesmo o próprio poder civil nota – que o bairro está completamente alterado. Embora, infelizmente, continue a haver os vícios, sobretudo a droga, que nem sempre é acompanhada pela resposta habitacional”, explica o pároco, deixando a garantia: “Não há ninguém, seja um idoso, deficiente ou doente, que venha bater aqui à porta que não tenha uma resposta”.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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