Catequese |
Diretório para a catequese
A catequese ao serviço da inculturação da fé
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Os novos cenários culturais em que estamos mergulhados requerem uma necessária inculturação da fé. Sob o ponto de vista da situação cultural das nossas sociedades, a inculturação da fé adquire novos traços. Tradicionalmente, por inculturação compreende-se a troca recíproca entre uma cultura enraizada e a fé cristã. Nas culturas estáveis e ancestrais, esta troca sinalizava um conjunto de valores e práticas a purificar ou conducentes ao anúncio do querigma cristão. O trabalho de inculturação da fé valorizava as “sementes do Verbo” presentes nas culturas, não deixando nunca de anunciar a novidade radical do Evangelho de Jesus Cristo e o seu permanente convite à conversão. O Diretório para a catequese define inculturação como «um caminho profundo, global e progressivo» de entrada do Evangelho no coração das pessoas e das culturas (cf. DC nº 395).  

Atualmente, se bem que se possam e devam assinalar as especificidades próprias de cada povo e cultura local, a universalização de determinados padrões culturais, com especial incidência nas transformações profundas ao nível da antropologia, biologia, educação, desenvolvimento científico e técnico, para as quais aponta o capítulo do Diretório referente aos «cenários culturais contemporâneos», recentra o exercício da inculturação da fé nos novos areópagos culturais. Na linguagem do Papa Francisco, a inculturação da fé corresponde a uma concretização da saída missionária da Igreja em direção às periferias existenciais: «as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e da ausência de fé, as do pensamento, e de todas as formas de miséria» (Mensagem do Papa Francisco por ocasião do XXXV meeting para a amizade entre os povos).

O capítulo XI do Diretório, intitulado «A catequese ao serviço da inculturação da fé», começa por destacar a importância dos itinerários catequéticos no serviço de inculturação da fé, que cada Igreja particular é chamada a desenvolver no seu contexto concreto, e do contributo que cada uma pode dar ao conjunto da Igreja universal, como expressão da fecundidade do Espírito (cf. DC nº 394).

 

A catequese, pela sua natureza específica, é chamada a realizar um trabalho de inculturação que leve o Evangelho ao íntimo das pessoas e das culturas. Porque está diretamente ligada à vida das pessoas nas suas diversas etapas de crescimento e situações existenciais, a catequese pode realizar um imprescindível labor hermenêutico de interação entre a pessoa e o Evangelho e, por isso mesmo, conducente à sua finalidade «de ser educação na fé e para a fé» (cf. DC nº 396).

O Diretório faz eco da relação estreita entre inculturação e novos cenários culturais quando constata a ausência dos pressupostos culturais que outrora garantiam a transmissão do Evangelho, entre os quais a família e a própria sociedade embebida de um espírito cristão. A centralidade dada pela cultura atual à liberdade e responsabilidade do indivíduo leva a que os processos de transmissão da fé tenham particular atenção ao «processo de receção pessoal da fé» a fim de que se possa compreender melhor o modo como se processa o ato de fé e, por isso, a própria proposição do Evangelho (cf. DC nº 396).

No que diz respeito à inculturação da fé, o Diretório aponta as seguintes indicações metodológicas para a catequese (DC nº 397):

a) conhecer em profundidade a cultura das pessoas, estimulando dinâmicas relacionais marcadas por reciprocidades que favorecem uma nova compreensão do Evangelho;

b) reconhecer que o Evangelho possui uma dimensão cultural própria, mediante a qual se inseriu nas diversas culturas ao longo dos séculos;

c) comunicar a verdadeira conversão que o Evangelho, enquanto força transformadora e regeneradora, realiza nas culturas;

d) fazer compreender que o Evangelho já está presente em germe nas culturas e, todavia, transcende-as e não se esgota nelas;

e) estar atenta a que, na nova expressão do Evangelho segundo a cultura evangelizada, não falte a integridade dos conteúdos da fé, fator de comunhão eclesial.

 

Estas indicações traduzem o modo segundo o qual a catequese deve ser capaz de evitar os riscos de todo e qualquer tipo de manipulação e justaposição na relação entre fé e cultura. A recuperação de um número do anterior Diretório consigna o procedimento adequado a seguir na catequese: « esforçar-se por escutar, na cultura dos povos, o eco (presságio, invocação, sinal…) da Palavra de Deus; discernir aquilo que é autêntico valor evangélico ou que, pelo menos, está aberto ao Evangelho, daquilo que não é; purificar o que está sob o sinal do pecado (paixões, estruturas do mal…) ou da fragilidade humana; inserir-se na vida das pessoas, estimulando uma atitude de conversão radical a Deus, de diálogo com os outros e de paciente amadurecimento interior» (DC nº 398, cf. DGC nº 204)

Na linha de diversos documentos sobre a Evangelização, tais como a Redemptoris missio e a Evangelii gaudium, o Diretório assinala que a missão de inculturação da fé é tarefa de todo o Povo de Deus, não só porque em virtude do Batismo se tornou discípulo missionário, mas também porque os gestos e sinais com que vive a fé manifesta um sentido da fé encarnado na cultura (DC nº 399; cf. EG nº 120).

Adquirem especial relevo no exercício de inculturação da fé os Catecismos locais porque «neles, a Igreja comunica o Evangelho de maneira acessível à pessoa porque a encontra no lugar onde ela vive, na sua cultura e no seu mundo.» (DC nº 399) Tendo como referência o Catecismo da Igreja Católica, os Catecismos locais (diocesanos, regionais ou nacionais) estão atentos a algumas dimensões do processo catequético, têm em conta as problemáticas do contexto e contêm sugestões para ajudar à preparação de itinerários catequéticos. (DC nº 403)

Sob este ponto de vista, convém clarificar que os chamados catecismos que utilizamos na catequese das crianças e adolescentes não se deveriam identificar como tal. O Diretório estabelece uma distinção entre o Catecismo local como texto oficial da Igreja e outros instrumentos utilizados na pedagogia catequética, tais como textos didáticos e manuais tanto para os catequistas como para os catequizandos. Os materiais da catequese da infância e adolescência enquadram-se neste segundo âmbito. O novo itinerário de iniciação à vida cristã e os materiais que dele resultarão constituem um louvável esforço de inculturação da fé.

texto pelo P. Tiago Neto, diretor do Sector da Catequese de Lisboa
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