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Brotéria #3
Do fundo do cálice
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Do fundo do cálice, da autoria de Joaquim Félix de Carvalho, publicado, em março de 2022, pela UCP, é uma reflexão inspiradora em torno da conceção e criação de dois cálices esculpidos em prata dourada (um de 2012 e outro de 2014), destinados a um espaço de reduzidas dimensões, como é a Capela da Árvore da Vida, situada no interior do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo, em Braga.

Aberto o livro, é anunciado discretamente ao leitor que as páginas destapam um caminho concêntrico cujo início (prefácio) e o fim (posfácio) estão nas mãos de dois arquitetos portugueses. Mas a inauguração inquietante e estreita, que lhe dá o centro, repousará sobre um olhar vindo de fora, de um estranho: um escultor nascido em 1937, natural da Noruega.

Seria somente concêntrico se o caminho provocado pelo escultor escandinavo Asbjørn Andresen não anunciasse o escândalo da comunhão e o despertar da profundidade. Já o seria se o texto fosse compreendido a partir do seu meio. Mas talvez o percurso desta publicação denuncie uma forma mais tensa e deslumbrante do que o concêntrico: prevê-se, então, a forma de um cálice, cujo centro entre a copa e a base estaria numa nova e, sempre, atualizada aliança.

Duas perguntas de fundo se poderiam descrever: quem pode beber deste cálice? E de que modo o centro do cálice (a aliança sendo nova será sempre atual) alinha o encontro entre os seus extremos, a copa (que “recolhe e guarda o mistério”) e a base (como o tempo da terra)? O autor dirá que será a partir de um encontro tardio, demorado e indefeso.

Foi numa estadia inesperada, entre setembro e as vésperas de Natal de 2010, que se originou o primeiro encontro que daria forma ao primeiro cálice, o Calix Mundi (ano 2012).

De um lado, a vontade dos arquitetos Cerejeira Fontes em contribuir com maior detalhe e precisão para a Capela da Árvore da Vida; do outro, o escultor Asbjørn Andresen, habituado às coisas cruas e indomáveis da terra como são a pedra, o bronze, a madeira e a água. Houve ali uma demora áspera e exasperante que, superficialmente, se justificaria com o rótulo de artista, mas ele mesmo, o artista e escultor, dir-nos-á o essencial para chegar ao centro: «a subtração até ao essencial demora mais; o simples é preciso esperá-lo, apresenta-se somente aos expectantes humildes» [pág.58].

Também o segundo encontro – que daria forma a um não aguardado cálice e que viria a ganhar o nome de Cálice da Peregrinação (2014) – aconteceria de forma improvisada e desconcertada.

Já despontada a primavera, Rui Sousa (um aluno do Seminário) convida o mesmo escultor a traçar e a talhar aquele que poderia ser o cálice da sua ordenação sacerdotal. Com assentimento e descontentamento, Asbjørn Andresen tem uma conversa franca e dura com outros seminaristas de Braga que partilhavam da mesma pretensão: já não um cálice, mas vários.

É-lhes dito de forma aberta: “vejo que sois muito possessivos e que abusais dos pronomes de posse”.

Há uma pobreza que se encontra na marcha e na errância. Será necessário perder e perder-se. Não dispôr de lugar para consentir. Como o próprio Senhor, diria eu, anuncia a Paixão num trilho, caminho ou percurso que o levará a Jerusalém.

E assim se inaugura o modo como se pega no cálice, tomando-o não como seu.

Julgo que esta publicação é sensível à profundidade da palavra e ao desconcerto demorado das imagens que nos revelam uma estranheza, que rompe com a forma habitual e tradicional de um cálice: como o vemos, como nele pegamos e como dele bebemos.

Aqui, os cálices ligados ao mistério da vida de Cristo não deixam de acompanhar os nossos próprios mistérios. E a forma inaugura-se.

Talvez um novo modo de estar em casa, já não sobre a areia (por causa da chuva, dos ventos e das enchentes), mas sobre uma nova rocha, a rocha do tempo presente: uma madeira não pregada (a capela da Árvore da Vida) que dirige o olhar para as alfaias feitas de prata irregular não polida.

 

E, se assim for a nova forma, poderemos beber do cálice.

 

Nuno Branco SJ
Adaptação da recensão publicada em Brotéria 196-1 (2023): 132-133

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