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“Rejeitados e excluídos são ícones vivos de Cristo”
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O Papa Francisco presidiu à Missa de Domingo de Ramos, recordando os “muitos Cristos abandonados”. Após o internamento hospitalar, o Papa disse “não” ao trabalho clandestino e precário, apelou à “justiça social” e voltou a pedir uma “cultura de paz”.

 

1. “Cristo, abandonado, impele-nos a procurá-Lo e a amá-Lo nos abandonados”, disse, no passado Domingo, 2 de abril, o Papa Francisco, durante a homilia da Missa dos Ramos. Ao refletir sobre o Evangelho da paixão e morte de Cristo, Francisco recordou a estranheza que causa o sofrimento de Jesus abandonado até à morte, acrescentando que o sem-abrigo que, há umas semanas, morreu sozinho junto à colunata da Praça de São Pedro, era um “entre tantos Cristos abandonados”.

O Santo Padre lamentou que haja “povos inteiros explorados e deixados à própria sorte; pobres que vivem nas encruzilhadas das nossas estradas e cujo olhar não temos a coragem de fixar; migrantes, que já não são rostos, mas números; reclusos rejeitados, pessoas catalogadas como problemas”. E também “muitos Cristos abandonados invisíveis, escondidos, que são descartados de forma ‘elegante’: crianças por nascer, idosos deixados sozinhos (que podem ser o teu pai, a tua mãe, ou o avô e avó), doentes não visitados, pessoas portadoras de deficiência ignoradas, jovens que sentem dentro um grande vazio sem que ninguém escute verdadeiramente o seu grito de dor”. Um dia depois de receber alta hospitalar, Francisco sublinhou que “Jesus abandonado pede-nos para ter olhos e coração para os abandonados”. E porque “as pessoas rejeitadas e excluídas são ícones vivos de Cristo”, implorou a graça de Deus para que “a sua voz não se perca no silêncio ensurdecedor da indiferença”.

O Papa Francisco participou na celebração desde o início da procissão dos ramos e presidiu à Missa, sentado num cadeirão junto ao altar. O celebrante foi o cardeal Leonardo Sandri, vice-decano do Colégio Cardinalício. No final da Missa, que juntou 60 mil pessoas na Praça de São Pedro, o Papa rezou o Angelus e dirigiu uma bênção especial à Caravana da Paz que, por aqueles dias tinha partido de Itália para a Ucrânia, com ajudas e bens de primeira necessidade. “Unamo-nos a este gesto com a oração, que será mais intensa nos dias da Semana Santa”, concluiu.

 

2. O Papa deixou o Hospital Gemelli no sábado de manhã, 1 de abril, após vários dias de internamento devido a uma infeção respiratória. Visivelmente bem disposto, Francisco falou com jornalistas e populares que estavam à porta do hospital, à sua espera, e ainda deu autógrafos. “Ainda estou vivo, não tive medo”, declarou o Santo Padre, de 86 anos, que, à saída do hospital, viveu um momento de grande emoção quando abençoou um casal cuja filha faleceu.

Na véspera da sua alta, o Papa Francisco tinha visitado as crianças da ala de oncologia, oferecendo terços, ovos de chocolate e cópias de um livro sobre o nascimento de Jesus. A visita demorou cerca de 30 minutos e Francisco batizou ainda um bebé, Miguel Angel, com apenas algumas semanas de vida.

Agora, o Papa está de regresso ao Vaticano e vai presidir às celebrações da Semana Santa.

 

3. “Vejo aqui crianças e lembro-me da expressão de um homem com quase 60 anos que, face ao inverno demográfico italiano, afirmou: ‘Quem vai pagar a minha pensão? Não serão os cachorrinhos que as pessoas têm em vez dos filhos!’”. Quem o diz é o Papa Francisco, preocupado com o futuro das novas gerações e a falência dos serviços de previdência. Numa audiência, realizada segunda-feira de manhã, dia 3 de abril, com os responsáveis italianos do Instituto Nacional da Segurança Social, o Santo Padre considerou que “a sociedade parece ter perdido o seu horizonte de futuro: instalou-se no presente e pouco lhe interessa o que pode acontecer às gerações vindouras. ‘Eu cá faço a minha parte, eles que se arranjem’. Assim, não dá”, afirmou.

O Papa sublinhou que “um forte vínculo entre as gerações é o pressuposto para que a Segurança Social funcione” e explicou que a vida social se deve suportar em “redes comunitárias de apoio”, pois o bem comum “passa pelo trabalho diário de milhões de pessoas que compartilham o princípio da solidariedade entre os trabalhadores”. Neste contexto, Francisco lançou três apelos. “O primeiro apelo é um não ao trabalho clandestino”. O segundo apelo do Papa é um “não ao abuso do trabalho precário”. Por fim, o terceiro apelo “é um sim ao trabalho digno, que é sempre livre, criativo, participativo e solidário”.

Em jeito conclusivo, o Santo Padre reconheceu que “precisamos de políticos sábios, guiados pelo critério da fraternidade e que saibam discernir entre as estações da vida, evitando desperdiçar os recursos e deixar as gerações futuras em sérias dificuldades”.

 

4. O Papa mostra-se preocupado com o avanço da extrema-direita em vários pontos do mundo. Em entrevista ao canal argentino C5N, Francisco diz que é preciso “justiça social” para travar o avanço da extrema-direita. “Se quiser discutir com um político, um pensador de extrema-direita, fale sobre justiça social, fale horizontalmente”, sublinhou, considerando que esta ideologia “recompõe-se sempre, é centrípeta, não é centrífuga”, mas não cria para fora “possibilidades de reforma”.

O Papa criticou ainda que líderes com quatro “divórcios políticos” se apresentem aos cidadãos como “salvadores da pátria”, por considerar que a filiação política ou religiosa devem ser “uma paixão, que se tem dentro”.

 

5. “Desenvolvamos uma cultura de paz. Cultura de paz”, pediu Francisco, na edição de abril de ‘O Vídeo do Papa’. No 11 de abril, completam-se 60 anos da publicação da encíclica ‘Pacem in Terris’, do Papa João XXIII, que tem como subtítulo ‘Sobre a paz entre os povos que deve ser fundada na verdade, na justiça, no amor e na liberdade’. No vídeo deste mês, o Papa Francisco renova esta mensagem, destacando “que a guerra é uma loucura, está para além da razão”. “Qualquer guerra, qualquer confronto armado, acaba por ser uma derrota para todos”, frisou.

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