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Isabel Figueiredo
A consciência dos limites
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Para tudo há um limite. Estejamos a falar da nossa vida pessoal, estejamos a refletir sobre a vida comunitária, profissional ou social. E assim como todos sentimos que tinha sido atingido um limite para com a falta de atenção, de cuidado e de proteção, para com a indiferença quase generalizada em relação à situação das crianças abusadas – e esse limite chegou, graças a Deus – há também um limite para a crítica agressiva, constante e amplificada, nos mais diferentes fóruns, a propósito dos abusos de menores no contexto da vida da Igreja.

Não podemos continuar a correr permanentemente atrás da procura de acusados e de situações escondidas, sem nunca deixar uma mínima margem para a confiança e o desejo verdadeiro que as pessoas merecem e têm, sejam padres, leigos ou bispos, de corrigir o que está errado, de encontrar culpados, de erradicar o drama dos abusos.

 

Também não podemos ignorar uma questão seríssima, isto é, a questão da presunção da inocência, algo que nos coloca no patamar da justiça, que todos desejamos considerar como um direito que a ninguém deve ser negado. Agarrado a este direito, convém não esquecer que existe o direito da recuperação, da superação de situações provadas e condenadas. Só assim se entende que, por exemplo, famílias sinalizadas como incapazes de cuidar dos seus menores, possam vir a recuperar a custódia dos filhos. Mesmo que depois se venha a verificar o erro trágico que foi ter tomado essa decisão.

Mas voltando à questão da presunção da inocência. Esta é uma condição que vive paredes meias com a prova da acusação. E conseguir-se encontrar a verdade entre estas duas realidades, é sempre um trabalho difícil e exigente, principalmente quando falamos de abusos de menores em contexto da vida da Igreja, porque à humanidade de cada um, se acrescenta justificadamente, uma consciência da presença de Deus, proclamada ou vivida, na pessoa do abusador.

 

A Igreja decidiu abrir a porta dos abusos, fechada e escondida durante séculos. Fê-lo porque assim foi ordenado por Pedro, o Vigário de Cristo na terra. Fê-lo porque pressionada pela justiça de homens que ousaram não calar o que sabiam. Fê-lo demasiado tarde. Sim. Mas fez. E a verdade é que ao abrir esta porta, também encontrou o caminho de dar voz e espaço à suspeita.

De um modo muito concreto, o facto de termos permitido que a sociedade portuguesa criasse a expectativa de que, a partir de um estudo sustentado por testemunhos anónimos fosse possível chegar a uma culpa provada, tornou-se algo muito difícil e doloroso. Que exige que este seja o tempo da procura das provas. Não por desrespeito pelas vítimas que tiveram a coragem de partilhar o seu sofrimento, mas pelo respeito que todos merecem em situações de suspeita.

E assim como somos chamados a continuar a acreditar na sociedade livre e democrática que defendemos, em todas as estruturas que a constituem, a sociedade portuguesa precisa de acreditar na vontade expressa de que a Igreja quer a tolerância zero e a transparência total, que o Papa Francisco anunciou e determinou que acontecesse em todo o mundo.

 

Agora é o tempo do silêncio, do resguardo da dor e do sofrimento de todos. É o tempo para as comissões diocesanas de proteção de menores trabalharem no cruzamento dos dados, na procura da verdade. Há padres afastados do exercício do seu ministério, sem culpa formada, dispostos a este duríssimo tempo de prova, porque a Igreja assim lhes pede.

Também esta realidade nos exige a capacidade de tornar claro que há limites que não se devem ultrapassar. Um deles foi claramente a contínua e excessiva exposição do sofrimento das vítimas. Em situações que nada têm a ver com o contexto da vida da Igreja, são várias as queixas de adultos que passaram a recordar diariamente situações de abuso vividas na infância e que, perante o mediatismo criado desde o passado dia 13 de fevereiro, se sentem novamente vítimas de um passado já esquecido.

A consciência dos limites resguarda a verdade, a liberdade, a compaixão e a bondade que tornam possível vivermos em paz.  A confiança permite vivermos uns com os outros. Os abusos de menores são um drama que destrói a verdade, a compaixão, a liberdade, a paz, a confiança. Aconteçam numa casa de família, numa escola, num pavilhão desportivo, num acampamento, numa sacristia.

Lutar contra este drama é uma urgência pessoal e coletiva que nos exige a procura da verdade. Com o resguardo da dor e do sofrimento de todos.

 

Isabel Figueiredo
Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais
Membro da Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis do Patriarcado de Lisboa

 


* texto publicado originalmente na Agência Ecclesia

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