Por uma Igreja sinodal |
Sínodo 2021-2014
Síntese da CEP para a Assembleia Continental em Praga (5-12 setembro 2023)
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1. Seguindo as orientações do Documento para a Etapa Continental (DEC) do Sínodo dos Bispos 2021-2024, as Dioceses de Portugal foram convidadas a prosseguir o processo sinodal em torno de três questões aí propostas (n.º 106). Apesar da menor participação, esta fase comprova o propósito de recuperar a identidade sinodal da Igreja e de transformar as etapas de um Sínodo num processo consecutivo.

2. Na maioria das dioceses a reflexão das questões propostas no DEC foi feita pelas equipas sinodais diocesanas, mas noutras devolveu-se a consulta aos grupos sinodais nas comunidades locais e ampliou-se a escuta e o discernimento a todos, evidenciando já alguns resultados do processo sinodal.

 

I – Quais as intuições que ecoam, de modo mais intenso, com as experiências e as realidades concretas da Igreja? Quais as experiências que aparecem como novas ou iluminadoras?

3. É transversal o reconhecimento da validade do processo sinodal, visto como uma experiência rica e iluminadora, que proporcionou a alegria do encontro com o outro, a escuta atenta e profunda, e um maior e melhor diálogo, o que contribuiu para a renovação da consciência de que somos Corpo de Cristo.

4. De forma positiva, compreende-se que as alegrias, dores, dificuldades e êxitos sentidos na Igreja são similares entre as diferentes dioceses e países, o que é revelador de comunhão, mas também sinal de que os dilemas da Igreja são questões candentes da própria humanidade.

5. Há uma perceção de que os temas abordados neste processo sinodal não são inéditos, mas com a escuta alargada a todo o Povo de Deus ganham uma força e uma universalidade novas.

6. A imagem bíblica apresentada no DEC, “alargar o espaço da tenda”, é entendida como um sinal de esperança que revela a importância de a Igreja dar voz e vez a todos, indo às periferias, manifestando a necessidade de acolher a todos independentemente das suas circunstâncias, incluindo os que moral e canonicamente possam estar numa situação irregular. A Igreja que se intui é aquela que está em saída porque se assume plenamente missionária e capaz de oferecer à Humanidade luzes de esperança.

7. Revela-se, também, necessário o acolhimento da pluralidade e diversidade de carismas da Igreja, sem que se perca a identidade e o reconhecimento da igualdade e dignidade de todos os batizados, admitindo que é necessária uma igreja ministerial que não esteja centrada no ministério ordenado.

8. Finalmente, ressoa a necessidade de sermos uma Igreja com maior transparência nos processos de decisão e na sua comunicação, que dialoga com o mundo a partir da cultura numa perspetiva de “rasgar caminhos”, trazendo o Evangelho e a espiritualidade para o centro do debate público, numa Europa cada vez mais descristianizada, onde a dimensão institucional da Igreja tem uma relevância cada vez menor. Sublinha-se mesmo a necessidade de readquirir “relevância social”.

 

II – Quais as tensões ou divergências substanciais que surgem como particularmente importantes? Quais são as questões ou interrogações que deveriam ser enfrentadas e tomadas em consideração nas próximas fases do processo?

9. Na liturgia há uma tensão crescente entre sensibilidades pré e pós-conciliares, sendo necessário procurar ultrapassar as questões relacionadas com os grupos que se opõem à mudança. Denotam-se divergências entre a fidelidade aos fundamentos da fé e a maleabilidade face a premissas externas, e configura-se a necessidade de adaptar a linguagem litúrgica aos tempos de hoje.

10. Na ação pastoral é necessário ultrapassar a tensão entre fidelidade doutrinal e acolhimento acrítico e indiscriminado de tudo o que o outro proponha. Por outro lado, diante de modelos de pastoral gastos e distantes de um novo impulso evangelizador, o clericalismo obstaculiza a mudança, o legalismo arbitrário afasta os fiéis e o rosto burocrático de muitas comunidades são geradores de tensão e muitas vezes de abandono.

11. Há alguma dificuldade em acolher todos de igual forma e em aceitar a diversidade no seio da Igreja (casais em segunda união, pessoas com atração pelo mesmo sexo ou em uniões homossexuais) em valorizar a fragilidade, nomeadamente das pessoas com deficiência, e em compreender o que se entende por “acolhimento”.

12. Importa, também, explicar o que significa promover uma igreja ministerial, clarificando o papel de leigos e sacerdotes, refletindo sobre a ausência dos jovens e do clero neste processo sinodal.

13. Há, ainda, tensões diversas em temas ditos fraturantes, tais como: o acesso das mulheres ao sacramento da ordem; a ordenação de homens casados; a identidade sexual e de género; a educação para a afetividade e sexualidade; e o celibato dos padres.

14. Devem ser consideradas, igualmente, outras questões: a forma como são geridas as situações de abusos sexuais; a comunicação hermética que dificulta, não só o diálogo interno, mas o diálogo com a sociedade em geral e, especialmente, com outras confissões cristãs e religiosas.

 

III – Quais são as prioridades, os temas recorrentes e os apelos à ação que podem ser partilhados com outras Igrejas locais no mundo e discutidos durante a Primeira Sessão da Assembleia sinodal em outubro de 2023?

15. Depois de indicadas as intuições que mais ecoaram e as tensões e questões a enfrentar, elencamos as prioridades:

· dar prioridade aos jovens, defendendo a importância de lhes dar voz e lugar na vida da Igreja e encontrar verdadeiros projetos de renovação que os incluam;

· facilitar e promover a participação da mulher na Igreja, em igualdade de oportunidades;  

· dinamizar a formação de leigos e clérigos na sinodalidade, revendo a formação proporcionada pelos seminários para a missão no mundo atual, promovendo um acompanhamento do clero;

· refletir sobre o ministério ordenado, considerando a possibilidade de ordenar presbíteros homens casados;

· ter uma atenção permanente aos pobres e dar centralidade às diferentes questões de cariz social, bem como às questões relacionadas com a ecologia face aos crescentes problemas ambientais;

· tornar as paróquias um lugar de verdadeira “cultura sinodal”, onde todos são convidados a participar, a manifestar-se, a dar o contributo para a ação pastoral, em conselhos ou assembleias, assumindo efetiva corresponsabilidade. Propõe-se, neste âmbito, a revisão do Código de Direito Canónico;

· dar resposta às novas realidades sociais e afetivas, fortalecendo os vínculos nas Igrejas domésticas com um acompanhamento personalizado das famílias, e acolhendo os novos modelos familiares (famílias monoparentais, famílias reconstruídas a partir de outras, divorciados recasados, famílias com pais/mães do mesmo sexo e com filhos biológicos ou adotados);

· incentivar o diálogo ecuménico e inter-religioso, com iniciativas que possam ir além da semana de oração pela unidade dos cristãos;

· dialogar com a cultura e com o pensamento contemporâneo, em temas como a inteligência artificial, a robótica ou as questões de identidade de género (LGBTQIA+);

· rever a comunicação e linguagem da Igreja (para dentro e para fora) e a ocupação do espaço público como uma voz credível e de serviço.

16. Sendo o processo sinodal e a dinâmica a ele implícita considerados como uma das experiências mais ricas e iluminadoras, é necessário permanecer em espírito de discernimento contínuo para que a Igreja possa ser sempre lugar de encontro pessoal e comunitário com Jesus e o seu Evangelho, e lugar de partida para a missão.

17. A pergunta principal a que conduzem todas estas intuições, experiências, interrogações e apelos, acima da importante pergunta do que querem a Igreja e os fiéis, é esta outra: o que quer Jesus Cristo da sua Igreja hoje? A resposta é necessária e passa sempre pelo discernimento a fazer pelos apóstolos que o próprio Cristo deixou à sua Igreja, “cum et sub Petro”.

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