Lisboa |
Conferência Episcopal Portuguesa reage ao relatório final da Comissão Independente
“Pedimos perdão a todas as vítimas”
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A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) pediu “perdão” a todas as vítimas de abusos sexuais de crianças na Igreja Católica. “É uma ferida aberta que nos dói e nos envergonha”, garantiu D. José Ornelas.

“O relatório hoje publicado exprime uma dura e trágica realidade: houve, e há, vítimas de abuso sexual provocadas por clérigos e outros agentes pastorais, no âmbito da vida e das atividades da Igreja em Portugal. O estudo apresentado recolhe o testemunho de 512 vítimas diretas e aponta para outras prováveis, estimando-se cerca de 4815 vítimas de abusos sexuais de menores, desde 1950 até ao presente. Assinala, ainda, várias consequências destes crimes que podem ter estado na origem de dramas e sofrimentos incomensuráveis que marcaram vidas inteiras. É uma ferida aberta que nos dói e nos envergonha”, começa por realçar o presidente da CEP, em conferência de imprensa.

Na Universidade Católica Portuguesa, na tarde de dia 13 de fevereiro e na presença dos membros do Conselho Permanente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas pediu perdão, em nome da Igreja: “Pedimos perdão a todas as vítimas: às que deram corajosamente o seu testemunho, calado durante tantos anos, e às que ainda convivem com a sua dor no íntimo do coração, sem a partilharem com ninguém. Nas vossas vidas atravessou-se a perversidade onde não deveria estar. O vosso testemunho é para nós um alerta e um pedido de ajuda a que não queremos nem podemos ficar surdos”.

 

Crimes hediondos

O prelado reforçou que “os abusos de menores são crimes hediondos”. “Quem os comete tem de assumir as consequências dos seus atos e as responsabilidades civis, criminais e morais daí decorrentes. É preciso que reconheçam a verdade sem nada esconder, que se arrependam sinceramente, que peçam perdão a Deus e às vítimas, e que procurem uma mudança radical de vida com a ajuda de pessoas competentes, na certeza de que o caminho da justiça encontrará sempre lugar no coração bondoso de Deus”, manifestou, considerando que o estudo apresenta “um número muito maior” do que a Igreja soube “apurar até hoje”. “Pedimos desculpa por não termos sabido criar formas eficazes de escuta e de escrutínio interno, e por nem sempre termos gerido as situações de forma firme e guiada pela proteção prioritária dos menores”, reconheceu.

A Conferência Episcopal Portuguesa vai agora “analisar detalhadamente o relatório final deste estudo”, e “procurará encontrar os mecanismos mais eficazes e adequados para fomentar uma maior prevenção e para resolver os possíveis casos que possam ocorrer, com celeridade e respeito pela verdade”. Refira-se que está marcada uma Assembleia Plenária Extraordinária da CEP para o dia 3 de março, que será “dedicada exclusivamente ao debate sobre este tema”.

 

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Relatório final

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa validou um total 512 testemunhos de abuso sexual na nas últimas décadas. O número foi avançado por Pedro Strecht, coordenador desta comissão, na apresentação do relatório final, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, na manhã do dia 13 de fevereiro. O pedopsiquiatra revelou que “foram recebidos um total de 564 [testemunhos]. Estes testemunhos, como depois iremos explicar com toda a cautela, permitem chegar a uma rede de vítimas muito mais extensa, calculada num número mínimo de 4.815 vítimas”, adiantou, revelando que a lista dos padres abusadores que ainda estão no ativo será entregue até ao final do mês à Conferência Episcopal Portuguesa.

Segundo o Pedro Strecht, a atual média de idades das vítimas é de 52 anos, destacando, no entanto, que 20,2% da amostra tem atualmente menos de 40 anos. A maioria das vítimas é do sexo masculino (52%) e 47% do sexo feminino e há denúncias de casos ocorridos em todos os distritos. “Contactaram-nos, em cerca de 85% dos casos, pessoas residentes em Portugal, mas também emigradas Europa, América e África”, detalhou. Ainda de acordo com os dados apresentados, as vítimas tinham, em média, 11,2 anos quando começaram a ser abusadas. Pedro Strecht considerou que “não é possível quantificar o número total de crimes, porque a maioria das crianças foi abusada mais do que uma vez”. Os testemunhos recolhidos datam de 1950 até hoje. A comissão verificou um pico entre 1960 e 1990, apesar de um quarto dos casos denunciados, 112, ter ocorrido desde 1991.

O relatório final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, com 486 páginas, pode ser lido em https://darvozaosilencio.org.

 

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O Relatório Final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa foi entregue à Presidência da Conferência Episcopal Portuguesa na tarde de dia 12 de fevereiro, Domingo, nas instalações da CEP, na Buraca, e contou com a presença de toda a equipa de trabalho da referida comissão.

 

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O Presidente da República recebeu, na tarde de 13 de fevereiro, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que entregou uma cópia do relatório apresentado, de manhã, na Fundação Calouste Gulbenkian. Marcelo Rebelo de Sousa “louvou e agradeceu o notável trabalho”, segundo uma nota.

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