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Uma irmã portuguesa, da Ericeira, no caminho do Papa no Sudão do Sul
“Obrigada, Francisco!”
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Beta Almendra é comboniana, tem 53 anos, está em missão em Wau, no Sudão do Sul, e não esconde o sonho de poder estar com o Papa Francisco nestes três dias de visita ao mais novo país do mundo. Uma visita que termina este Domingo, 5 de Fevereiro, e que poderá ser determinante para que a guerra acabe de vez e se dê uma oportunidade à paz. Beta Almendra não sabe se vai conseguir falar com o Santo Padre, mas já sabe o que tem para lhe dizer…

 

O tempo está seco, o que é bom. Permite as viagens por terra. Beta Almendra, uma religiosa portuguesa que vive em Wau, não esconde a alegria e até uma certa excitação pela visita do Santo Padre ao Sudão do Sul. Uma visita que esteve para acontecer em Julho do ano passado e que foi adiada por motivos de saúde – os crónicos problemas com o joelho do Papa. Beta Almendra tem 53 anos, é natural da Ericeira, no Patriarcado de Lisboa, e o Sudão do Sul é a sua segunda experiência missionária em África. Antes, durante seis anos, esteve no Quénia. Ela chegou a Wau no início de 2021, em plena pandemia do coronavírus e não esconde a alegria por esta visita, pela importância desta visita, por estar a viver, de certa forma, um momento histórico. Se há país que precisa de paz é mesmo o Sudão do Sul. É o mais novo país do mundo e é difícil encontrar alguém que não tenha vivido em guerra, que não saiba o que significam os combates, os ataques às aldeias, o terror que tem levado milhões a fugir, perdendo tudo apenas para salvar a própria vida. É por causa de tudo isto que a visita do Papa é tão importante. “A paz ainda não é uma realidade”, diz a Irmã Beta Almendra.

 

Gesto inesquecível

Na memória de todos está o gesto inesquecível de Francisco que surpreendeu o mundo ao beijar os pés dos principais líderes do Sudão do Sul, o presidente Salva Kiir e os seus vice-presidentes, Riek Machar e Rebecca Nyandeng. Foi em Abril de 2019, num retiro espiritual que decorreu no Vaticano. Um gesto que permitiu, desde então, alimentar todas as esperanças. O Papa é um construtor de pontes, um fazedor de paz. A sua presença agora, no Sudão do Sul, não deixa ninguém indiferente. Beta Almendra não sabe se vai conseguir estar mesmo perto do Papa. Mas vai tentar. “Estamos aqui já a caminho de Juba. É com muita alegria que nos estamos a preparar para receber o Papa. Estamos na estação seca e é uma boa oportunidade para viajar por terra. Vamos em comboio, em grupo, esperamos que em dois dias se consiga chegar a Juba. Estamos preparados.” Sorridente, a religiosa portuguesa explica, em mensagem enviada para a Fundação AIS, que todas as pessoas tentam saber notícias sobre a visita, sobre o Papa, com quem ele vai estar, onde vai estar… E mesmo os que não conseguirem viajar, vão seguir tudo a par e passo. Pela rádio, pela televisão, pelos jornais…

 

Dias importantes

Ninguém quer ficar de fora desta viagem que poderá ser um marco na história do Sudão do Sul. “As pessoas estão todas muito atentas às notícias, com expectativas, com muita alegria e com esperança. Com muita esperança” diz Beta Almendra. “Os que vão, querem participar, querem encontrar-se com o Papa, querem rezar pelos outros cristãos… E os outros, os que ficam, querem seguir através da rádio, através da televisão, querem acompanhar tudo nestes dias tão importantes para o Sudão do Sul.” Dias importantes porque a paz demora. Há demasiados anos de guerra no Sudão do Sul. Desde 2013, uma desavença política entre o presidente Salva Kiir e o vice-presidente Riek Machar transformou-se num conflito aberto. Num conflito armado a que não serão alheias também as origens dos dois dirigentes. Kiir pertence à etnia dinka e Machar ao povo nuer. São as duas principais etnias do Sudão do Sul e as rivalidades entre ambas são muitas e antigas. A paz, aqui, precisa também de reconciliação. A presença do Papa – juntamente com o líder da Igreja Anglicana, o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e de Jim Walace, da Igreja Presbiteriana da Escócia – permite alimentar todos os sonhos.

 

Peregrino de paz

“Há certas partes do país que continuam a lutar, porque a paz ainda não é uma realidade. É um processo que se está a tentar fazer e, por isso, o Papa vem nesta peregrinação, juntamente com outros elementos da comunidade cristã. Vêm pedir, vêm dialogar para que esta paz possa ser uma realidade concreta que tem de ser conquistada aos poucos e poucos.” Beta Almendra definiu a visita do Papa como uma peregrinação. É seguramente uma peregrinação pela paz. Se puder estar com Francisco, se puder trocar com ele algumas palavras, mesmo que apenas breves, que lhe diria? A resposta vem de rajada, como se estivesse já ao lado do Santo Padre. “A primeira coisa que lhe posso dizer é ‘obrigada’. Obrigada por ter vindo, obrigada por vir ao Sudão do Sul visitar esta gente, rezar, rezar connosco, dar-nos realmente esperança em nome de toda a Igreja e do mundo. É bom saber que estamos unidos, que estamos todos juntos, e que esta é uma Igreja em sinodalidade, que caminha junta, que quer caminhar junta e que se ajuda, uns aos outros, para se conseguir esses objectivos.” Beta Almendra sorri, já a imaginar-se ao lado do Papa, e a poder dizer-lhe que o Sudão do Sul tem pessoas excelentes e extraordinárias e que também ali, no mais novo país do mundo, se reza por ele, por Francisco, pelo peregrino da paz.

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